domingo, 2 de dezembro de 2012

Coisa de criança




Acordou com o som de uma risada.  A própria risada.  Aquela sensação deliciosa de que o dia seria ótimo a invadiu, inflando seu peito, fazendo rir mais uma vez, mais alto, mais cantado. E quando as lembranças surgiram, o riso virou sorriso, deixou de ser eco do sonho bonito para se tornar sentimento real.

O sonho tinha sido bom, mas a lembrança conseguia ser melhor... Quando a vida consegue superar o sonho? Não estava escrito em algum lugar que isso era proibido?

Que delinquente! Que inconsequente!   Ousando acordar feliz em plena segunda-feira, trocar a vida banal por um brilhante conto fantástico. Como criança quando percebe que tudo é muito mais bonito na imaginação e, num lampejo de sabedoria, vê que pode transformar a realidade naquilo que quiser, simplesmente com a força do seu querer. Cantarola toda a trilha sonora da Disney e sai por aí mudando tudo que lhe desagrada, transformando lágrima em gota salgada de mar, dia cinza em livro de colorir que precisa ser pintado com as cores puras do seu coração e fazendo de um sorriso a lua que ilumina caminhos perigosos rumo a bonitas e excitantes aventuras.

E o caso é que amor parece, mesmo, coisa de criança: tão simples, tão natural! Sem jogos, sem máscaras – embora sempre existam fantasias e brincadeira de médico, bombeiro... –. Um bem-querer verdadeiro, sincero, de cara lavada... E joelho ralado, talvez, porque amor machuca às vezes. Coisinha boba, de raspão. Fica ardido, incomoda, mas com um pouquinho de cuidado sara logo. E criança não deixa de viver por medo de mertiolate, nem deixa de subir em árvore, de correr, dar pirueta, descer a ladeira de bicicleta sem as mãos, só porque acha que pode se machucar.

Quem ama mesmo sente receio, quando olha lá de cima da árvore, de cair de cara, levar um tombo feio, quebrar um braço ou, pior, partir o coração... Mas continua subindo, cada vez mais alto, porque sente aquele desejo enorme de descobrir qual é a vista lá de cima, esperando encontrar algo novo e surpreendente, ou algo conhecido e confortável, mas sempre algo bom. E essa espera otimista beira à inocência da infância, revestida da uma certeza plena de que aquele é o momento mais importante da sua vida, aquele é o sentimento mais bonito do universo. E essa entrega total ao que encanta, cativa, apaixona, esse exagero de intensidade é bem coisa de criança.

E naquela manhã, ao olhar para as gotas que golpeavam sua janela, o céu nublado como pano de fundo de algodão doce, uma vontade enorme de brincadeira boba surgiu no seu peito. Vontade de riso solto e sincero, de criar mais lembranças bonitas, mais histórias melhores que o sonho. É tão bonito, amor menino! Alegria fácil, coração leve, a felicidade na palma da mão! Daí ela decidiu pegar um cobertor e um bom filme... Talvez até arranjasse pipoca, para dar aquele gostinho de fantasia que o cinema sempre tem... E então convidar o dono do sorriso - aquele que a fez sonhar- para brincar de namoradinho. E colorir de amor aquele dia cinzento de chuva.

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