terça-feira, 30 de outubro de 2012

A Mensagem na Garrafa


"Coloquei uma carta, um pedido da alma,
Salvem meu coração...!"


É daquela série de atos falhos que estou falando. Aquela pergunta impensada, sem por que nem pra quê, que acaba por ser respondida da maneira mais confusa possível. Falo da pressa em compreender e catalogar o que ainda não está pronto. De derrapar na curva da língua pela velocidade do sentimento.

Por todas as possibilidades, opções, facilidades para se dizer o que sente, algumas vezes nos precipitamos. Ansiedade e pressa em touch screen e alta definição. E-mails, torpedos, videoconferências. No espaço de um clique, carregado de dúvidas e anseios. Quase ninguém sabe esperar com leveza, sem histeria. Também, quem escolheria a mensagem na garrafa em vez de uma inbox rápida no facebook?

Ter a paciência de esperar que a mensagem atravesse o oceano, enfrente as tempestades, os monstros mitológicos, aceitar que o tempo da viagem em mar aberto é necessário para amadurecer o sentimento. Enviar a mensagem na garrafa, em vez de mandar um simples e objetivo torpedo. Lançá-la ao mar, pensando em uma única pessoa, mas compreendendo que essa escolha fará com que suas palavras sejam lidas, consumidas, devoradas por centenas de olhos e bocas alheios, ávidos por compreensão, por encontrar semelhanças reconfortantes, ideias que tranquilizem e que também façam sonhar. É permitir que o seu coração, posto letra a letra em papel, siga a correnteza, sem pressa, sem ansiedade, e encontre seu destino.

Escolher a carta na garrafa é o ato desesperado e corajoso do náufrago. O último recurso de quem, ao descobrir-se apaixonado, enfrentou as águas revoltosas do furioso oceano de emoções que entorpece os sentidos e adormece as extremidades. Quase paralisa, invadindo e inundando todos os cantos do pensamento, varrendo todo o juízo e conservando apenas o objetivo de manter-se vivo, de encontrar a segurança da terra firme onde pode construir seus sonhos. E após a tormenta, repentinamente se vê em uma ilha, não verdadeiramente a salvo, mas tampouco completamente perdido.

Volta e meia me pego arrolhando a garrafa, cheia de sonhos e confissões.  E não hesito em lançar ao mar. Um ato de fé de quem confia que todos os caminhos levam inexoravelmente à felicidade. Que depois de silenciar e ouvir a si mesmo, não tem pressa em receber uma resposta, porque aprendeu a apreciar o tempo da espera. Então aguarda pacientemente aquele sinal vindo de outra ilha. Uma outra garrafa, com o mesmo pedido da sua alma... Que salvem seu coração.

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