domingo, 23 de setembro de 2012

Do chão não passa


Tenho medo do alto... De tudo que me tira os pés do chão, que me faz pairar acima de outros tantos mortais. É terrível! Tenho verdadeiro pavor de tudo o que me afasta da segurança da terra firme, da estabilidade concreta do solo, onde domino meus próprios pés, controlo meus passos, escolho meus caminhos. 

No alto, todo perigo se potencializa ao máximo. Vida e morte na corda-bamba, equilibrando-se em uma linha tão tênue quanto a que corta o horizonte... E ao mesmo tempo, a mais crua das verdades é que tudo se reduz a um único denominador comum: a queda. O tempo que dura a queda é o que, de fato, me alucina.

Simples e alucinadamente cair, cair, cair... É assustadoramente longa, a demora. Infindável. E não há como frear, agarrar-se a alguma coisa... A velocidade impede qualquer ação. Mais que isso! A inevitabilidade paralisa... Num paradoxo, paralisada e em movimento, você segue o percurso da queda. 

É mais ou menos a sensação rara, mescla de pânico e expectativa, que me domina no momento em que percebo que as borboletas em meu estômago me impulsionam para um charmoso precipício... 

Sem equipamento de segurança, a proposta não é fazer bungee jump. Encantadas pelo universo que se apresenta no horizonte além do precipício, ansiosas pela adrenalina da liberdade, ousadas a não mais poder, minhas borboletas propõe entrega total. Sem amarras, sem controle, sem certezas... “Apaixone-se”, elas dizem. “Permita-se subir até o mais alto cume. A vista é boa, garantia de qualidade!”.

Subir, subir, subir! ... E depois atirar-se do topo, três metros acima do céu, e encarar o abismo do amor, pai de todas as quedas. Experimentar a velocidade vertiginosa com que tudo acontece ao seu redor, a falta de controle que ao mesmo tempo assusta e liberta, em uma queda que parece não terminar nunca... Congelo. Dúvidas, dúvidas. 

O que há no fundo do abismo? O que acontecerá se um dia encontrar o solo? 

Existe paraquedas para emoção? “Não.”

Airbags, cama-elástica, esponja gigante... Qualquer coisa para amortecer o impacto? “Nada. Mas não se preocupe, do chão não passa.” 

Então vai doer! “Talvez... Mas algumas quedas são infinitas, alguns abismos não têm fim. Quem pode saber? Experimente! Descubra!” 

As borboletas se agitam, dançam, empurram... Querem a emoção, a adrenalina, a entrega, o sentimento... A pulsação acelerada, pupilas dilatadas, o coração que arrebenta o peito enquanto tudo ao redor se move. Mais brilhante, mais divertido, mais intenso... A vida parece mais viva durante a queda! 

Sedutoras, apavorantes imagens! Tenho medo do alto... Mas me fascina o amor! 

E esperançosa, cedo. Desvisto o medo, ignoro o pânico, me derreto em coragem e liberto as borboletas.
Dou aquele passo, mergulho no nada repleto de tudo. Nada a fazer, tudo a sentir... A intensidade e a beleza, não de perder o controle, mas de entregá-lo ao coração. E a vista é mesmo linda. E a vida pulsa, mesmo, diferente. O tempo pára, deixa de existir... 

E eu aproveito cada minuto do infinito enquanto caio. Do chão não passa, então pra quê me preocupar?