sexta-feira, 8 de junho de 2012

Balanço




Foi empurrão daqueles bem fortes, que se você não segurar bem nas correntes e não mantiver o corpo reto, ou você sai voando ou gira sobre o próprio eixo, se embola em si mesmo, dá nó. No balanço e no juízo. Muita força, muito estrago...

Dessa vez doeu, até.  Se ela não soubesse a diferença, diria que foi mais porrada que empurrão. Se ela não conhecesse bem, diria que a força foi medida exatamente pra machucar, não apenas para dar impulso. Mas, não, não podia ser.  Ela sabia melhor que isso, que ele não tinha essa intenção perversa. Foi mais por distração, erro de cálculo. Ele não sabia exatamente o efeito que causava. Então empurrou daquele seu jeito que ela já conhecia bem. Mas não esperava tanta intensidade.

E empurrou com tanto gosto, tanta força e tanto empenho, que do alto daquele balanço, ela perdeu o gingado e desequilibrou. Um minutinho ou dois. Ou três. Perdeu o rebolado, a corrente rangeu, ela se inclinou... O tombo seria feio. De novo...
Mas daí se estabilizou. Olhou pra baixo e ele não estava mais ali. Que grande novidade! Ele nunca ficava tempo suficiente, mesmo. Aliás, ele nunca ficava. Estava sempre de passagem. Aparecia, balançava e ia embora, sem “tchau”, sem abraço, sem fazer questão de ver até onde ela chegava com aquele empurrão.

Sozinha e num ritmo acelerado, ela tentou esquecer a tristeza e se equilibrar. Voltou ao seu prumo, sincronizou o balançar, cabelos subindo e descendo, no ritmo exato do vento veloz. Mais impulso, mais alto, mais emocionante... Dava pra ver paisagens diferentes, bem ao longe... Pareciam pinturas bonitas de um amanhecer novo.

E sabe de uma? De lá do alto ela percebeu... Ser a única no balanço não tem graça. Queria empurrar também! Queria que alguém se balançasse por ela. Coisa mais sem-graça ficar perdendo o equilíbrio por causa de alguém e nunca, nunca, fazer outra pessoa dar um nó também! Ela se cansou. Não queria mais brincar assim. Brincadeira mais besta!

Deu um último impulso para ver tudo do alto, enquanto a noite desfazia aquelas pinturas brilhantes. Porque, ela percebeu, não era um novo amanhecer o que via de lá de cima. Era o dia virando passado aquarelado. Bonito de se admirar, capaz até de despertar nostálgicas sensações. Mas não era material de sonho, não dava impulso... Não era possível vivê-lo novamente. Sentiu a tristeza própria de quem visita o passado e sente o peso da solidão presente. A velocidade diminuiu, foi perdendo força. Parou. Não tinha mais tanto interesse assim em permanecer naquele lugar.

E estava quase saindo do balanço, quando as correntes começaram a ranger. O balanço ao lado estava em movimento e um sorriso bonito a convidava a permanecer na brincadeira. O presente não precisava ser solitário. Eles podiam revezar nos empurrões, dar impulso um ao outro. Mas, melhor que tudo, podiam balançar lado a lado. E subir, subir cada vez mais alto, e ver a aquarela do entardecer virar pintura a óleo no escuro da noite, com pontos brilhantes como aquele sorriso... Ela ficou. E percebeu que a noite era, mesmo, um momento ótimo pra sonhar. E que se eles balançassem o suficiente, dava até pra ver a tinta a óleo virar aquarela de novo. E, dali de cima mesmo, poderiam pintar o novo amanhecer.