domingo, 13 de maio de 2012

De faces e fases




Bem no comecinho ela pensou que dava pra contar, numerar, fotografar, arquivar em quatro pastas, uma cor pra cada, com folheto explicativo na parte de trás. Quatro faces dela mesma, não distintas, mas complementares...  Várias mulheres dentro de um só corpo. Algo entre uma alma de atriz e múltipla-personalidade... Uma compassiva e doce, outra forte e decidida.  Mais uma, furiosa e louca, e então outra, indecisa e insegura.  

Tola que era, não percebeu que as quatro faces eram apenas fases, momentos tão rotativos quanto o próprio movimento que faz a Terra girar... Fases de uma mesma lua, satélite e órbita de si mesma. Não eram quatro mulheres, mas uma, que se transmutava, às vezes meio monstruosamente, em quatro... 

Uma que irritada gritava, furacão, derrubando o céu, desabando em tempestade de lágrimas de fúria. Que não deixava o copo encher, para não transbordar maus- sentimentos. Explodia no instante da faísca, às vezes sem classe e sem meio-termo, perfeita representação da ira plena da natureza.  E arquitetava planos mirabolantes, grande mestre da vingança irreal, que tinha por definição o fim de jamais ser concretizada. Mas que assim saciava o desejo e matava a raiva que corrompia o coração. 

Outra que decepcionada calava e engolia o choro para não fazer outro chorar, com aquela força que só tem quem aceita o amor com tudo que ele pode oferecer, inclusive as chagas. E olhava com a esperança de quem confia que um dia a situação vá mudar. Então tentava de novo, porque há tempos decidira que esperar o melhor valia à pena, e otimismo ela tinha de sobra pra gastar. E, pensando bem, distribuir amor, desses não-correspondidos mesmo, não preenche o lugar daquele “alguém”, mas acalenta coração que esfriou durante a espera. E se a decepção era muito amarga, colhia sorrisos para adoçar a dor. 

Havia, também, aquela que foi rejeitada por quem quis e desejada por quem nunca sonhou. E que sacudia os cabelos e falava, meio gritando, meio aos sussurros, porque parte do encanto era a mudança. E que embriagada de amor chorou. Foi mais porre que saudade, mas chorou. E falou dele, contou de novo aquela história boba, usando os farrapos daquelas desculpas para enfaixar coração. E ainda bêbada, mais de amor que álcool, escreveu... Em terceira pessoa, porque era mais fácil fingir que o coração partido foi fictício, que dava pra juntar os pedaços com cola de imaginação... E a dor, real e palpável, ela transformava em tinta e  poesia.

Mas, como tudo na vida é renovação, ela completava o ciclo e iniciava outra fase, de esperança e de fé. Fase de frio na barriga pela expectativa, de sorriso bobo por lembranças daquela conversa... Do primeiro raio de sol que reflete um novo olhar... De um beijo salgado... Do cheiro de maresia... Da delícia que é encontrar surpresas ao seguir, com passos meio incertos, deixando dois pares de pegadas na areia. 

Era fase de brilho intenso, como se o satélite miraculosamente virasse estrela e começasse a distribuir sua luz, iluminando cantos escuros de tristeza, vestígios da rejeição. E atraía tudo à sua órbita, como se a galáxia estivesse de ponta-cabeça e a Terra começasse a girar ao redor da lua, alterando a ordem natural das coisas. 
E, mais uma vez, precisava registrar essa loucura, explicar detalhadamente como uma de suas fases podia modificar um universo inteiro... Seu universo inteiro... 

E enquanto escrevia, no espaço de cada letra e afirmação, ela se deu conta de que talvez fosse ela quem estava de cabeça-para-baixo. Que, quem sabe, não fosse satélite ou estrela, mas um planeta... Um mundo inteiro que era influenciado pelos movimentos do universo, mas que dentro de si fazia suas próprias evoluções, mudanças, transformações.  E percebeu suas faces eram vislumbres do que estava por vir, e as fases eram apenas preparação para o momento de transição.  Nem uma nem outra a definiam, de fato.

Ela era feita de estações.

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