domingo, 22 de abril de 2012

Sabor de Fruta Mordida


"Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva"

Daquele sumo que escorre pelo queixo, quando você perde o pudor, crava os dentes na carne tenra, suculenta, os dedos que seguram firme aquelas formas, que rasgam tudo que possa impedir o roçar dos lábios na pele nua da fruta. Não usa talheres, esquece essa etiqueta besta que apaga a beleza de ser simples. E a delícia de lamber os dedos, aproveitando cada gota de sabor, desprezando qualquer coisa menos que natural. Ele tem esse gosto de liberdade. Gosto irreverente de selva, de rebeldia animal, que não se dobra às imposições tóxicas das cidades. 

E por isso às vezes é ácido, mas que não deixa de ser gostoso pelo acentuado do sabor que, invadindo a boca, molha a língua e estremece todo o corpo a partir daí. Tão intenso que é impossível senti-lo sem reagir... E provar de novo, só pra estar seguro de reconhece a saborosa força que tem.

Às vezes é de um amargor sentido. Fruto pequeno, meio ressecado, de sabor marcante. Gosto travoso de decepção, que se faz sentir quase de má vontade, e por isso incomoda o tempo que dura na boca... E dura muito, vestígios no fundo da língua, destoando dos sabores mais suaves.

Mas quando amadurece é doce. Tão preciosa a safra, pouco se deixa provar. Num lugar escondido na intimidade da selva, com longo período de espera, raras são as mãos capazes de fazer essa colheita de acesso difícil. Mas quando se tem essa fruta nas mãos, quando se saboreiam seus pedaços, rolando-os na boca com molhada doçura, é possível sentir todo o equilíbrio da natureza. A tranquilidade de um sentimento que cresce atrelado à sensação.

E também picante, para manter esse equilíbrio de “fruto sensação” e “fruto sentimento”, que contraria toda a lógica da indiferença urbana, da relação transgênica em escala industrial.
É picante, daquelas que ardem na língua e despertam fogo em todo lugar. Fazem reagir aquele instinto aprisionado pelas jaulas da cidade, animal preso é mais valente, impetuoso, bravo... Instinto represado quando escapa incendeia a selva de pedra, de plumas, de lençóis. O ardor que levanta e destrói o juízo, os pudores, as amarras, devorando com voracidade quem der a primeira mordida.

Muitos sabores, formas, sensações, dessa fruta misteriosa que não tem época certa de colheita e nem padrão produção. Apenas germina, cresce, frutifica, sem fiscalização, como tudo que é natural, que é livre.

Desses sabores seus eu nunca provei, mas sei que existem, sim. E espero que o momento chegue, tão natural quanto o instinto que a humanidade gosta de aprisionar. Espero provar todos os seus gostos, em um beijo com sabor de fruta mordida. E sentir seu sumo escorrer em mim, rastro doce da delícia de também ser livre. Gosto suave da fruta tenra do amor.

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