segunda-feira, 2 de abril de 2012

Da Noite Sem Lua (ou Via-Láctea)

"E quando chegar a noite, cada estrela parecerá uma lágrima..." (Renato Russo)


Ela sabia que um dia chegaria àquele ponto. Sabia, e mesmo assim seguiu em frente, impulsionada por aquela sensação de euforia irrefreável quando um novo caminho surge depois da curva. Era dessas que não rejeitam uma oportunidade. Se fosse inventada, então, melhor ainda, não perdia tempo com baboseiras como fatos e probabilidades. Melhor mesmo era pensar no impossível, que dava mais vontade de alcançar.

E assim ela foi. Lançando-se naquele caminho tortuoso que começava nuns olhos negros de noite sem lua e todo mundo sabia onde e como ia terminar. Mas ela foi, entusiasmada, desfrutando cada passo sob o céu aberto, entregando-se apaixonadamente ao frescor do vento que soprava aquele perfume conhecido para novas direções, apreciando a delícia de descobrir cada surpresa de rumar ao desconhecido. Não tinha medo de andar no escuro.

Menina boba, com mania de poesia. Dessas que sabem que toda história tem ponto final, mas escrevem como se a tinta do sonho não fosse acabar. Ela escrevia aquele caminho, vendo beleza na poeira subindo pela estrada e sonhando romances na calada da noite deserta. E sorria. Não podia evitar sorrir quando pensava naquele outro riso. Aquele lá, onde a tal lua, fugida da noite, foi inventar de aparecer.

Seu caminhar era confuso, inconstante que era o seu destino.  Calhava de mudar de direção justo quando pensava que ia alcançar o atalho que levava ao esconderijo da lua. Se perdia todas as vezes que julgava encontra-lo. Mas insistia. E não olhava para trás.  Teimosia que só a coragem de se aventurar desperta. Achava que sabia de algo, talvez o suficiente para se localizar, mas havia segredos labirínticos naquela escuridão impenetrável. Ela se esquecia de procurar conhecer o que estava no começo, lá onde a noite daquele olhar ficou escura, sem estrelas até. Se deparava com bifurcações, encruzilhadas, tinha que tomar decisões rápidas. Cada segundo era precioso no percorrer daquele caminho.

E caminhando chegou ao final, mas não ao destino que esperava. Porque, no fundo, no fundo, bem naquela parte do coração, a mais ingênua de todas, ela sonhava que o fim podia ser melhor do que aquilo que todos imaginavam. Sonhava com um fim que fosse recomeço, agora para caminhar acompanhada.

Mas ela encontrou vazio o esconderijo da lua, que agora iluminava novamente a noite daqueles olhos, por alguém que conhecia o atalho. Então respirou fundo, sentou na beira da estrada e finalmente pôde descansar. Porque o que matava aos poucos era a dúvida, não saber como seria o final daquela jornada. E chorou, porque a paisagem não era bonita como havia sonhado, mas era o suficiente para fazer doer o coração.

Sentou na beira da estrada e esperou, esperou até que o novo dia clareasse o mundo, dissipando aquele caminho escuro e iluminando seus olhos com a esperança de trilhar novos rumos. E quando o último pedaço de céu foi pintado de anil, ela se levantou, sacodiu a poeira do corpo, arrematou o rosto com um olhar sereno, e seguiu. O caminho se faz ao caminhar. Quando a noite da saudade voltasse, ela queria estar já longe, sempre mais e mais distante. Esperando que a saudade virasse apenas lembrança e a noite fosse apenas uma noite.  
Até lá, cada estrela pareceria uma lágrima. 

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