quarta-feira, 14 de março de 2012


Ele encaixava no seu abraço como ninguém mais era capaz de fazer.  Sentado, envolvia sua cintura, a cabeça pousada em seu peito, rosto voltado pra cima, olhos fechados, sorriso tranquilo.  E ela passeava os dedos pelos cabelos escuros, tão bonitos, que pediam carinho meio sem querer. Deslizava, absorvendo texturas, sentindo o peso suave sobre o peito, sorrindo intranquila para aquele sorriso que, se não inocente, ao menos desavisado.

Sim, desavisado. Porque ele não fazia ideia do que se passava naquele coração que podia ouvir bater, meio descompassado, através do burburinho de uma igreja quase vazia. O querer dos outros, quando difere do nosso, pode ser tão barulhento!
Mas ele não podia saber que no espaço daquele abraço, enquanto ele pensava na volta pra casa, ela imaginava tardes inteiras, cuidados, toques... E os carinhos que escapavam desses pensamentos fluíam pelo corpo dela que, sem querer, regia. E sorria. E o olhar brilhava. Ele, bobo, não via. Nem percebia a respiração que acelerava. Que ela era do tamanho exato do seu abraço.

Ela nunca era a primeira a sair do abraço.  Permanecia sonhando, tocando o quanto podia, até sentir aquele momento de hesitação, um pouco antes do afrouxar dos braços, do sorriso meio aéreo, e o distanciamento que levava embora um pouco do calor, deixando a vaga lembrança de um perfume que a acompanharia até a hora de dormir, invadindo sonhos.  

Ela partia, deixando o calor e o perfume, as texturas e os carinhos, decidida a não sonhar naquela noite, ou nas próximas. Absolutamente certa de que ao longo da semana iria superá-lo... E no domingo teria uma recaída. De novo.
Partia com a sensação de um abraço solitário, só de braços, não de almas. E queria mais, esperava mais. Era sua última oração antes de deixar a igreja, que ardia no peito e fazia palpitar de expectativa.
Um abraço unisse corações, que atasse destinos. Um abraço que apertasse o laço e virasse nó.