sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ela era techno






O barulho era o que mais fazia falta.  Gritos quando estava apressada, quando se sentia frustrada, quando estava entediada, só pra ocupar o tempo. Gritos de medo em filmes de terror, de indignação no meio da novela... Grito de surpresa, de alegria, de prazer. E até muxoxos de reprovação, pequenos resmungos, na voz dela pareciam fortes, retumbantes, porque toda ela era gritante. Era todo alvoroço, toda energia. 

Do movimento, ele também sentia saudade.  Dos passos descalços na madrugada, na tábua do assoalho que sempre rangia. Do cabelo ao vento quando corria para abraçá-lo. O jeito de passar batom, de subir as escadas, de bater bolo. A impaciência das pernas inquietas no tédio, o nunca estar parada até aconchegar-se na curva do seu pescoço, antes de dormir. E dali a pouco mudar de posição novamente. E o jeito de cantar desafinado, dançando enquanto lavava os pratos ou varria a casa. Era todo o ritmo, toda dança. 

Era puro Techno, emendando uma música na outra, insaciável, sem perder o compasso. Techno, que provoca sensações, que desperta sentimentos, que convida e atiça, quase sempre sem uma palavra sequer. Ela dançava porque era música. Ela gritava porque era música. E ela preenchia todos os espaços, todos os minutos, qualquer vazio.

E mesmo assim, com toda a energia, ligada vinte e quatro horas sem botão de “off”... Ela que era incansável, se cansou. Porque cantar pra coração surdo é quase perder a voz. E ter uma mão para lhe sustentar dissipa o medo de um passo em falso. Corpos que se movimentam juntos, no mesmo ritmo, sincronizados, deixam de ser apenas espetáculo e transformam a dança em fazer amor. E, em toda sua independência, ela não era indiferente a uma companhia na pista. Ele não estava disposto a dançar. Ele se irritava com o barulho durante o filme, com as pernas inquietas durante a noite, com a cantoria pela manhã enquanto ela fazia o café. Não tinha muita paciência para seus movimentos peculiares quando varria a casa e parava na frente da TV. Ele não era do tipo “elétrico”, ela deveria entender e respeitar! Ele gostava de tranquilidade e silêncio. Ele gostava de rotina e de tempo ocioso pra ver televisão. Raras vezes ligava o som. Gostava de paz, pra ouvir o próprio pensamento. 

Ela entendeu. E respeitou. Apenas não pôde ficar. Não porque fossem diferentes, isso não seria problema, eles podiam se adaptar. Mas porque não havia espaço. Ele mesmo já ocupava todos os cantos da própria vida. Estava superlotado. E em pouco tempo ela não poderia mais se mover, tão cheio dele que estava o lugar. E então ele pediria silêncio, e lá não poderia mais cantar. Atada e amordaçada ela não aceitaria ficar. Então partiu. 
Ele apenas a observou ir. Deixou que fosse com todos os seus sons, passos e cores. Não percebeu que as lembranças ficavam. E o peso barulhento do silêncio trazia a solidão para preencher o lugar que ficou vago.  Ele não a impediu.
A música parou, a dança terminou, as luzes se apagaram...
E a pista ficou vazia.