sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sonhar você



Me olha assim, desse jeito que pra você é tão fácil, mas que eu não tenho idéia de como desvendar. Mas dá vontade de pular. De me atirar sobre você, te derrubar de riso, no chão te encher de beijos. E acabar com o ar de sedução batendo a cabeça, porque o desastre faz parte de mim. Mas me olha desse jeito e eu esqueço o machucado. E pulo em você de novo e ataco feroz com mordidas de amor, porque teimosia faz parte de mim também.

Me abraça daquele jeito que encaixa tão bem. Que me bota mais perto do seu coração... Me leva pra dentro, me deixa entrar. Arranja um espaço entre os esquadros e o papel-manteiga. Vou tentar não bagunçar, prometo! Mas não posso garantir que tudo permaneça como antes. E, sinceramente, você quer mesmo que seja igual? Quando o mais bonito do presente é viver o novo, construir o sonho... De construção você sabe mais que eu, então me ensina. Não há pressa em iniciar essas obras... Vamos apenas preparar o terreno e começar a projetar esse futuro que pode ser tão bonito!

Falando em futuro, me dá um presente! Me surpreende! Não precisa de data especial, laço de fita, embalagem colorida... Se bem que de colorido eu gosto. Então me dá um arco-íris ou um pôr-do-sol contigo. Melhor! Qualquer dia desses você passa depois do trabalho e me dá um saco de jujubas e um sorriso bonito... E que esse seja só pra mim! Não precisa dizer que o motivo sou eu. Mas se for eu vou gostar.

Conta uma daquelas histórias bobas que te fazem gargalhar antes de chegar ao final. E eu quase não entendo, mas acho graça mesmo assim. Combina teu riso com o meu. Me faz uma canção. Mas faz dedilhada, que é mais difícil. Talvez aí eu até acredite que você sente o mesmo que eu. Vira prova de bem-querer.

Bebe comigo. Ri da minha bobeira, do pileque que me deixa ainda mais em ebulição. Da alegria fácil e do sentimento escancarado. Não liga se eu começar a discutir a relação assim. Eu ia fazer o mesmo se estivesse completamente sóbria. Mas não deixa que meu desastre natural faça muito estrago depois de algumas caipirinhas no juízo. Cuida de mim? Não é que eu precise, mas o carinho é tão bom que às vezes dá vontade de me abandonar no seu cuidado.
Me chama pra sair! Da minha casa pra sua, da sala pro quarto, do hoje pro amanhã... Sair da caixa, do sério, da realidade. Ou me pede pra ficar. Vai ser bom, também. Ficar no seu colo, no seu abraço... Pede pra eu ficar na sua vida, se for o caso. Aliás, fica você também! Fica à vontade, sem-vergonha, sem estresse... Fica só de toalha, vai, é sexy. Fica eufórico, feliz, excitado... Esquece qualquer outra coisa e fica apaixonado.

Mas não tem pressa, não... Se revela devagar, me descobre lentamente... Faz de conta que é doce e vai degustando aos pouquinhos! Sente derreter, mesclar, chocolate ao leite, casadinho... De doce você gosta, que eu sei. Então deixa de bobeira e experimenta misturar o sabor. Não tem problema se exagerar na medida, sentimento não engorda e nem vem com dosagem certa. A receita a gente é que faz. E, tudo bem, de receita você entende mais que eu, também. Mas de sentimento eu sei bem. E não tenho medo de usar, dizer, mostrar... A gente troca essas figurinhas outra hora. Você me ensina algumas coisas e eu bagunço a aula inteira, esperando o momento de alegrar o seu recreio.

Agora só me põe pra dormir em teu peito. Ouvindo teu coração cantar nosso riso. Me deixa pequena, me nina com aquela canção. Depois vai mudando de repertório, de posição, não tem problema. O bom mesmo é que a gente se encaixa de todo jeito. Mas antes me deixa sentir o teu cheiro, pra indicar o caminho do sono. Quero sonhar você comigo e, quem sabe, talvez você até torne isso real.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Coisa de criança




Acordou com o som de uma risada.  A própria risada.  Aquela sensação deliciosa de que o dia seria ótimo a invadiu, inflando seu peito, fazendo rir mais uma vez, mais alto, mais cantado. E quando as lembranças surgiram, o riso virou sorriso, deixou de ser eco do sonho bonito para se tornar sentimento real.

O sonho tinha sido bom, mas a lembrança conseguia ser melhor... Quando a vida consegue superar o sonho? Não estava escrito em algum lugar que isso era proibido?

Que delinquente! Que inconsequente!   Ousando acordar feliz em plena segunda-feira, trocar a vida banal por um brilhante conto fantástico. Como criança quando percebe que tudo é muito mais bonito na imaginação e, num lampejo de sabedoria, vê que pode transformar a realidade naquilo que quiser, simplesmente com a força do seu querer. Cantarola toda a trilha sonora da Disney e sai por aí mudando tudo que lhe desagrada, transformando lágrima em gota salgada de mar, dia cinza em livro de colorir que precisa ser pintado com as cores puras do seu coração e fazendo de um sorriso a lua que ilumina caminhos perigosos rumo a bonitas e excitantes aventuras.

E o caso é que amor parece, mesmo, coisa de criança: tão simples, tão natural! Sem jogos, sem máscaras – embora sempre existam fantasias e brincadeira de médico, bombeiro... –. Um bem-querer verdadeiro, sincero, de cara lavada... E joelho ralado, talvez, porque amor machuca às vezes. Coisinha boba, de raspão. Fica ardido, incomoda, mas com um pouquinho de cuidado sara logo. E criança não deixa de viver por medo de mertiolate, nem deixa de subir em árvore, de correr, dar pirueta, descer a ladeira de bicicleta sem as mãos, só porque acha que pode se machucar.

Quem ama mesmo sente receio, quando olha lá de cima da árvore, de cair de cara, levar um tombo feio, quebrar um braço ou, pior, partir o coração... Mas continua subindo, cada vez mais alto, porque sente aquele desejo enorme de descobrir qual é a vista lá de cima, esperando encontrar algo novo e surpreendente, ou algo conhecido e confortável, mas sempre algo bom. E essa espera otimista beira à inocência da infância, revestida da uma certeza plena de que aquele é o momento mais importante da sua vida, aquele é o sentimento mais bonito do universo. E essa entrega total ao que encanta, cativa, apaixona, esse exagero de intensidade é bem coisa de criança.

E naquela manhã, ao olhar para as gotas que golpeavam sua janela, o céu nublado como pano de fundo de algodão doce, uma vontade enorme de brincadeira boba surgiu no seu peito. Vontade de riso solto e sincero, de criar mais lembranças bonitas, mais histórias melhores que o sonho. É tão bonito, amor menino! Alegria fácil, coração leve, a felicidade na palma da mão! Daí ela decidiu pegar um cobertor e um bom filme... Talvez até arranjasse pipoca, para dar aquele gostinho de fantasia que o cinema sempre tem... E então convidar o dono do sorriso - aquele que a fez sonhar- para brincar de namoradinho. E colorir de amor aquele dia cinzento de chuva.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A Mensagem na Garrafa


"Coloquei uma carta, um pedido da alma,
Salvem meu coração...!"


É daquela série de atos falhos que estou falando. Aquela pergunta impensada, sem por que nem pra quê, que acaba por ser respondida da maneira mais confusa possível. Falo da pressa em compreender e catalogar o que ainda não está pronto. De derrapar na curva da língua pela velocidade do sentimento.

Por todas as possibilidades, opções, facilidades para se dizer o que sente, algumas vezes nos precipitamos. Ansiedade e pressa em touch screen e alta definição. E-mails, torpedos, videoconferências. No espaço de um clique, carregado de dúvidas e anseios. Quase ninguém sabe esperar com leveza, sem histeria. Também, quem escolheria a mensagem na garrafa em vez de uma inbox rápida no facebook?

Ter a paciência de esperar que a mensagem atravesse o oceano, enfrente as tempestades, os monstros mitológicos, aceitar que o tempo da viagem em mar aberto é necessário para amadurecer o sentimento. Enviar a mensagem na garrafa, em vez de mandar um simples e objetivo torpedo. Lançá-la ao mar, pensando em uma única pessoa, mas compreendendo que essa escolha fará com que suas palavras sejam lidas, consumidas, devoradas por centenas de olhos e bocas alheios, ávidos por compreensão, por encontrar semelhanças reconfortantes, ideias que tranquilizem e que também façam sonhar. É permitir que o seu coração, posto letra a letra em papel, siga a correnteza, sem pressa, sem ansiedade, e encontre seu destino.

Escolher a carta na garrafa é o ato desesperado e corajoso do náufrago. O último recurso de quem, ao descobrir-se apaixonado, enfrentou as águas revoltosas do furioso oceano de emoções que entorpece os sentidos e adormece as extremidades. Quase paralisa, invadindo e inundando todos os cantos do pensamento, varrendo todo o juízo e conservando apenas o objetivo de manter-se vivo, de encontrar a segurança da terra firme onde pode construir seus sonhos. E após a tormenta, repentinamente se vê em uma ilha, não verdadeiramente a salvo, mas tampouco completamente perdido.

Volta e meia me pego arrolhando a garrafa, cheia de sonhos e confissões.  E não hesito em lançar ao mar. Um ato de fé de quem confia que todos os caminhos levam inexoravelmente à felicidade. Que depois de silenciar e ouvir a si mesmo, não tem pressa em receber uma resposta, porque aprendeu a apreciar o tempo da espera. Então aguarda pacientemente aquele sinal vindo de outra ilha. Uma outra garrafa, com o mesmo pedido da sua alma... Que salvem seu coração.

domingo, 23 de setembro de 2012

Do chão não passa


Tenho medo do alto... De tudo que me tira os pés do chão, que me faz pairar acima de outros tantos mortais. É terrível! Tenho verdadeiro pavor de tudo o que me afasta da segurança da terra firme, da estabilidade concreta do solo, onde domino meus próprios pés, controlo meus passos, escolho meus caminhos. 

No alto, todo perigo se potencializa ao máximo. Vida e morte na corda-bamba, equilibrando-se em uma linha tão tênue quanto a que corta o horizonte... E ao mesmo tempo, a mais crua das verdades é que tudo se reduz a um único denominador comum: a queda. O tempo que dura a queda é o que, de fato, me alucina.

Simples e alucinadamente cair, cair, cair... É assustadoramente longa, a demora. Infindável. E não há como frear, agarrar-se a alguma coisa... A velocidade impede qualquer ação. Mais que isso! A inevitabilidade paralisa... Num paradoxo, paralisada e em movimento, você segue o percurso da queda. 

É mais ou menos a sensação rara, mescla de pânico e expectativa, que me domina no momento em que percebo que as borboletas em meu estômago me impulsionam para um charmoso precipício... 

Sem equipamento de segurança, a proposta não é fazer bungee jump. Encantadas pelo universo que se apresenta no horizonte além do precipício, ansiosas pela adrenalina da liberdade, ousadas a não mais poder, minhas borboletas propõe entrega total. Sem amarras, sem controle, sem certezas... “Apaixone-se”, elas dizem. “Permita-se subir até o mais alto cume. A vista é boa, garantia de qualidade!”.

Subir, subir, subir! ... E depois atirar-se do topo, três metros acima do céu, e encarar o abismo do amor, pai de todas as quedas. Experimentar a velocidade vertiginosa com que tudo acontece ao seu redor, a falta de controle que ao mesmo tempo assusta e liberta, em uma queda que parece não terminar nunca... Congelo. Dúvidas, dúvidas. 

O que há no fundo do abismo? O que acontecerá se um dia encontrar o solo? 

Existe paraquedas para emoção? “Não.”

Airbags, cama-elástica, esponja gigante... Qualquer coisa para amortecer o impacto? “Nada. Mas não se preocupe, do chão não passa.” 

Então vai doer! “Talvez... Mas algumas quedas são infinitas, alguns abismos não têm fim. Quem pode saber? Experimente! Descubra!” 

As borboletas se agitam, dançam, empurram... Querem a emoção, a adrenalina, a entrega, o sentimento... A pulsação acelerada, pupilas dilatadas, o coração que arrebenta o peito enquanto tudo ao redor se move. Mais brilhante, mais divertido, mais intenso... A vida parece mais viva durante a queda! 

Sedutoras, apavorantes imagens! Tenho medo do alto... Mas me fascina o amor! 

E esperançosa, cedo. Desvisto o medo, ignoro o pânico, me derreto em coragem e liberto as borboletas.
Dou aquele passo, mergulho no nada repleto de tudo. Nada a fazer, tudo a sentir... A intensidade e a beleza, não de perder o controle, mas de entregá-lo ao coração. E a vista é mesmo linda. E a vida pulsa, mesmo, diferente. O tempo pára, deixa de existir... 

E eu aproveito cada minuto do infinito enquanto caio. Do chão não passa, então pra quê me preocupar?

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Entreaberto



"You are my fire... The one desire..."


Eu gosto mesmo é daquele momento, entre o eterno e o efêmero, antes do abrir dos olhos. Aquele instante que começa doce, suave, de rostos colados, carícias delicadas, toque manso... E que no espaço do beijo vai mudando de sabor, arde a língua, se torna picante. Quando as bocas ainda não se separaram totalmente, mas os olhares já se encontraram, semicerrados, brilhantes. E a respiração misturada abafa, esquenta, invade... Faz do olhar matéria –prima de fogueira e incendeia.

São lábios que pairam, que roçam no outro, acendem centelhas, soltam faíscas, e o hálito morno tinge o ar de vermelho. E o olhar, embaçado pelo calor, se intensifica, funde a doçura no prazer, derrete a vontade, arrepia a nuca e faz cravar as unhas na pele. É algo que escorre por dentro, líquido inflamável, combustível de paixão.

Gosto daquele instante em que mãos deslizam e, pele na pele, deixam um rastro quente. Faíscas do atrito se encontram com o olhar e causam combustão. É um minuto em que, no esboço de um sorriso, carinhoso e tentador, o coração aumenta o batimento. E o fogo explode no centro do peito e irradia por todo o corpo, percorrendo cada centímetro. E, pouco a pouco, vai acelerando a pulsação, gerando movimento, até atingir a velocidade da urgência.

Bocas e olhares dançam provocantes, sinuosos, cúmplices, em meio às chamas. Línguas de fogo que lambem e devoram, que consomem o juízo, invadem o corpo e alcançam a alma. Apenas no espaço de um beijo... Quando os lábios, entreabertos, ainda não se separaram totalmente. E por essa brecha de paixão, os olhares espiam o futuro que chega já... 
O incêndio que começa com a faísca de um beijo doce e termina em explosão.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Balanço




Foi empurrão daqueles bem fortes, que se você não segurar bem nas correntes e não mantiver o corpo reto, ou você sai voando ou gira sobre o próprio eixo, se embola em si mesmo, dá nó. No balanço e no juízo. Muita força, muito estrago...

Dessa vez doeu, até.  Se ela não soubesse a diferença, diria que foi mais porrada que empurrão. Se ela não conhecesse bem, diria que a força foi medida exatamente pra machucar, não apenas para dar impulso. Mas, não, não podia ser.  Ela sabia melhor que isso, que ele não tinha essa intenção perversa. Foi mais por distração, erro de cálculo. Ele não sabia exatamente o efeito que causava. Então empurrou daquele seu jeito que ela já conhecia bem. Mas não esperava tanta intensidade.

E empurrou com tanto gosto, tanta força e tanto empenho, que do alto daquele balanço, ela perdeu o gingado e desequilibrou. Um minutinho ou dois. Ou três. Perdeu o rebolado, a corrente rangeu, ela se inclinou... O tombo seria feio. De novo...
Mas daí se estabilizou. Olhou pra baixo e ele não estava mais ali. Que grande novidade! Ele nunca ficava tempo suficiente, mesmo. Aliás, ele nunca ficava. Estava sempre de passagem. Aparecia, balançava e ia embora, sem “tchau”, sem abraço, sem fazer questão de ver até onde ela chegava com aquele empurrão.

Sozinha e num ritmo acelerado, ela tentou esquecer a tristeza e se equilibrar. Voltou ao seu prumo, sincronizou o balançar, cabelos subindo e descendo, no ritmo exato do vento veloz. Mais impulso, mais alto, mais emocionante... Dava pra ver paisagens diferentes, bem ao longe... Pareciam pinturas bonitas de um amanhecer novo.

E sabe de uma? De lá do alto ela percebeu... Ser a única no balanço não tem graça. Queria empurrar também! Queria que alguém se balançasse por ela. Coisa mais sem-graça ficar perdendo o equilíbrio por causa de alguém e nunca, nunca, fazer outra pessoa dar um nó também! Ela se cansou. Não queria mais brincar assim. Brincadeira mais besta!

Deu um último impulso para ver tudo do alto, enquanto a noite desfazia aquelas pinturas brilhantes. Porque, ela percebeu, não era um novo amanhecer o que via de lá de cima. Era o dia virando passado aquarelado. Bonito de se admirar, capaz até de despertar nostálgicas sensações. Mas não era material de sonho, não dava impulso... Não era possível vivê-lo novamente. Sentiu a tristeza própria de quem visita o passado e sente o peso da solidão presente. A velocidade diminuiu, foi perdendo força. Parou. Não tinha mais tanto interesse assim em permanecer naquele lugar.

E estava quase saindo do balanço, quando as correntes começaram a ranger. O balanço ao lado estava em movimento e um sorriso bonito a convidava a permanecer na brincadeira. O presente não precisava ser solitário. Eles podiam revezar nos empurrões, dar impulso um ao outro. Mas, melhor que tudo, podiam balançar lado a lado. E subir, subir cada vez mais alto, e ver a aquarela do entardecer virar pintura a óleo no escuro da noite, com pontos brilhantes como aquele sorriso... Ela ficou. E percebeu que a noite era, mesmo, um momento ótimo pra sonhar. E que se eles balançassem o suficiente, dava até pra ver a tinta a óleo virar aquarela de novo. E, dali de cima mesmo, poderiam pintar o novo amanhecer.  

terça-feira, 15 de maio de 2012

Segura o Coco



Segura o coco camará segura o coco 

  Segura o coco não deixa coco quebrar 


O dia hoje me despertou. Isso é meio inédito, considerando o complexo de Bela Adormecida que eu tenho. Geralmente preciso de barulho e incentivo pra deixar de rolar na cama e acordar de verdade. Levantar e começar a viver. Mas hoje o dia estava tão lindo que eu não consegui resistir. Adoro quando o dia começa assim!  A gente olha pela janela e lá fora, sob um céu azul vibrante, tudo brilha daquele jeito surreal de dia quente de verão. Especialmente numa cidade onde todo dia é dia de verão. É muito bonito. Amo dias que acordam com gosto de promessa boa. Dia de calor envolvente, não opressivo, que pede praia e água-de-coco!

Eu detesto praia. 
Aquela areia que faz cócegas em pés sensíveis, invade seu corpo indecorosamente, gruda em todo lugar que consegue alcançar... E a maresia! Coisa mais irritante, a maresia, embaraçando cabelos, embaçando óculos... E o pior de tudo é que ela não respeita limites! Cada um no seu quadrado, ora bolas!  Precisa sair da praia e perambular pela cidade, se enfiando em ônibus, escolas e apartamentos? É uma falta de respeito.

Do mar eu até gosto, assim, de longe. De preferência sentada em alguma barraca no asfalto, na sombra, olhando como brilha daquele jeito bonito que faz a gente imaginar que a cidade inteira foi construída em cima de uma jóia... Mas é salgado. “Ó, mar, salgado mar...” e trá-lá-lá. Tinha que ter sal? Tinha que fazer o olho arder quando a gente mergulha? E essas ondas que levantam areia e facilitam a invasão nos biquínis? Mar, ondas, maresia, areia... Não, não, isso estraga a beleza da coisa.  E é melhor nem começar a falar do sol!

Ai de mim, pobre mortal, fadada a suportar as angústias de quem vive perto da praia.  Ir à praia é prova de amor! Aqueles que já tiveram o prazer de me ver nesse paraíso de tortura sabem bem do que estou falando. O sofrimento é real e crescente. Quer saber se eu gosto de você? Convide-me para ir à praia. É mais eficaz que uma pergunta direta.

Mas, olha só!, de água-de-coco eu gosto de verdade! Gosto da poesia presente em um coco. Aos meus olhos, é mais ou menos como se toda essa magia da praia, esse encanto que seduz a humanidade, estivesse presente no coco, boiando em sua água doce, dentro daquela forma redonda e bonita... Só que sem a areia incômoda que se enfia por partes do seu corpo que você nem sabia que existiam. E sem a maresia que embaça e embaraça. E sem o sol. Não vamos falar do sol!

Acontece que o coco, com aquelas cores agradáveis e sabores sutis, me lembra bossa. E bossa me lembra praia. Assim, toda vez que tomo água de coco escuto a bossa começar a tocar em minha cabeça. E ouço o marulhar das ondas. E o cheiro de maresia que invade meu sistema não é tão horrivelmente salgado, mas sutil. Rastro do mar que o vento revela, indicando o caminho pra chegar num recanto de paz, paraíso dos paraísos, onde a areia não gruda!

É, é bem bonita a praia que mora no coco. Acho que deveria ter falado logo de cara sobre ela, teria escrito com mais paixão. Se bem que, sendo uma moça de emoções intensas, meu detestar também é bastante apaixonado. 


Mas, enfim... O fato é que não sou lá muito experiente com essa coisa de crônica.  Pra mim todas as variações que se parecem com contos... São contos. E crônica, crônica mesmo, é quando você assume o que está escrevendo como seu, é usar primeira pessoa e contar fatos da sua vida, ou da vida em geral, mas expressando  suas opiniões muito claramente.
Sei que não é assim. Sei mesmo, minha mãe é professora de português e literatura. Mas é assim que eu me sinto e é dessa liberdade que meu Eu precisa pra ser Lírico.

Assim, dentro da minha classificação, esta é a primeira crônica real que escrevo em anos! Não sou de crônicas, acho uma exposição arriscada demais. Prefiro permanecer escondida na segurança da ficção, por trás desse meu Eu Lírico que é muito mais desinibido e tranquilo que eu. E mais divertido, também.  Ele não se sente culpado por nada, não tem pudor algum, apenas sai por aí, pulando de conto em conto, poesia em poesia, escancarando a alma na fragilidade do papel, sem ter medo de vê-la rasgada por alguém. É cabra macho, esse meu Eu Lírico.

Mas a praia dentro do coco e a bossa me inspiraram. Especialmente porque bossa e praia me lembram um amigo muito doce que, se por um lado eu já sabia ser talentoso, por outro não imaginava o tamanho do talento. 
Ele é cronista. Acho que não se vê dessa forma, mas é um cronista nato. E só Deus sabe como o talento me comove. Sou dessas bobas que ficam com os olhos marejados no final de um texto bonito. E bem escrito.

Daí, tendo lido os textos dele, de uma simplicidade genial, eu me animei. Resolvi tentar uma crônica também, apesar da minha total falta de malemolência para com o gênero. E da minha inabilidade para transformar o corriqueiro em algo divertido, trágico ou admirável... Como, aliás, esse amigo faz. Mas tentei... 
Equilibrei o coco no topo da ladeira, fiz firula para dar aquele ar de suspense e chutei... Infelizmente ficou mais que evidente que sou ruim de chute, não tenho força na perna e a mira é péssima.  

Você vê, já misturei coco com bola, e agora ele está rolando ladeira abaixo, representação máxima do desastre! E antes de fazer mais bagunça, alguém segure esse coco, que eu vou sair do baba e volta pro esconde-esconde. 
É mais a minha praia.

domingo, 13 de maio de 2012

De faces e fases




Bem no comecinho ela pensou que dava pra contar, numerar, fotografar, arquivar em quatro pastas, uma cor pra cada, com folheto explicativo na parte de trás. Quatro faces dela mesma, não distintas, mas complementares...  Várias mulheres dentro de um só corpo. Algo entre uma alma de atriz e múltipla-personalidade... Uma compassiva e doce, outra forte e decidida.  Mais uma, furiosa e louca, e então outra, indecisa e insegura.  

Tola que era, não percebeu que as quatro faces eram apenas fases, momentos tão rotativos quanto o próprio movimento que faz a Terra girar... Fases de uma mesma lua, satélite e órbita de si mesma. Não eram quatro mulheres, mas uma, que se transmutava, às vezes meio monstruosamente, em quatro... 

Uma que irritada gritava, furacão, derrubando o céu, desabando em tempestade de lágrimas de fúria. Que não deixava o copo encher, para não transbordar maus- sentimentos. Explodia no instante da faísca, às vezes sem classe e sem meio-termo, perfeita representação da ira plena da natureza.  E arquitetava planos mirabolantes, grande mestre da vingança irreal, que tinha por definição o fim de jamais ser concretizada. Mas que assim saciava o desejo e matava a raiva que corrompia o coração. 

Outra que decepcionada calava e engolia o choro para não fazer outro chorar, com aquela força que só tem quem aceita o amor com tudo que ele pode oferecer, inclusive as chagas. E olhava com a esperança de quem confia que um dia a situação vá mudar. Então tentava de novo, porque há tempos decidira que esperar o melhor valia à pena, e otimismo ela tinha de sobra pra gastar. E, pensando bem, distribuir amor, desses não-correspondidos mesmo, não preenche o lugar daquele “alguém”, mas acalenta coração que esfriou durante a espera. E se a decepção era muito amarga, colhia sorrisos para adoçar a dor. 

Havia, também, aquela que foi rejeitada por quem quis e desejada por quem nunca sonhou. E que sacudia os cabelos e falava, meio gritando, meio aos sussurros, porque parte do encanto era a mudança. E que embriagada de amor chorou. Foi mais porre que saudade, mas chorou. E falou dele, contou de novo aquela história boba, usando os farrapos daquelas desculpas para enfaixar coração. E ainda bêbada, mais de amor que álcool, escreveu... Em terceira pessoa, porque era mais fácil fingir que o coração partido foi fictício, que dava pra juntar os pedaços com cola de imaginação... E a dor, real e palpável, ela transformava em tinta e  poesia.

Mas, como tudo na vida é renovação, ela completava o ciclo e iniciava outra fase, de esperança e de fé. Fase de frio na barriga pela expectativa, de sorriso bobo por lembranças daquela conversa... Do primeiro raio de sol que reflete um novo olhar... De um beijo salgado... Do cheiro de maresia... Da delícia que é encontrar surpresas ao seguir, com passos meio incertos, deixando dois pares de pegadas na areia. 

Era fase de brilho intenso, como se o satélite miraculosamente virasse estrela e começasse a distribuir sua luz, iluminando cantos escuros de tristeza, vestígios da rejeição. E atraía tudo à sua órbita, como se a galáxia estivesse de ponta-cabeça e a Terra começasse a girar ao redor da lua, alterando a ordem natural das coisas. 
E, mais uma vez, precisava registrar essa loucura, explicar detalhadamente como uma de suas fases podia modificar um universo inteiro... Seu universo inteiro... 

E enquanto escrevia, no espaço de cada letra e afirmação, ela se deu conta de que talvez fosse ela quem estava de cabeça-para-baixo. Que, quem sabe, não fosse satélite ou estrela, mas um planeta... Um mundo inteiro que era influenciado pelos movimentos do universo, mas que dentro de si fazia suas próprias evoluções, mudanças, transformações.  E percebeu suas faces eram vislumbres do que estava por vir, e as fases eram apenas preparação para o momento de transição.  Nem uma nem outra a definiam, de fato.

Ela era feita de estações.

domingo, 22 de abril de 2012

Sabor de Fruta Mordida


"Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva"

Daquele sumo que escorre pelo queixo, quando você perde o pudor, crava os dentes na carne tenra, suculenta, os dedos que seguram firme aquelas formas, que rasgam tudo que possa impedir o roçar dos lábios na pele nua da fruta. Não usa talheres, esquece essa etiqueta besta que apaga a beleza de ser simples. E a delícia de lamber os dedos, aproveitando cada gota de sabor, desprezando qualquer coisa menos que natural. Ele tem esse gosto de liberdade. Gosto irreverente de selva, de rebeldia animal, que não se dobra às imposições tóxicas das cidades. 

E por isso às vezes é ácido, mas que não deixa de ser gostoso pelo acentuado do sabor que, invadindo a boca, molha a língua e estremece todo o corpo a partir daí. Tão intenso que é impossível senti-lo sem reagir... E provar de novo, só pra estar seguro de reconhece a saborosa força que tem.

Às vezes é de um amargor sentido. Fruto pequeno, meio ressecado, de sabor marcante. Gosto travoso de decepção, que se faz sentir quase de má vontade, e por isso incomoda o tempo que dura na boca... E dura muito, vestígios no fundo da língua, destoando dos sabores mais suaves.

Mas quando amadurece é doce. Tão preciosa a safra, pouco se deixa provar. Num lugar escondido na intimidade da selva, com longo período de espera, raras são as mãos capazes de fazer essa colheita de acesso difícil. Mas quando se tem essa fruta nas mãos, quando se saboreiam seus pedaços, rolando-os na boca com molhada doçura, é possível sentir todo o equilíbrio da natureza. A tranquilidade de um sentimento que cresce atrelado à sensação.

E também picante, para manter esse equilíbrio de “fruto sensação” e “fruto sentimento”, que contraria toda a lógica da indiferença urbana, da relação transgênica em escala industrial.
É picante, daquelas que ardem na língua e despertam fogo em todo lugar. Fazem reagir aquele instinto aprisionado pelas jaulas da cidade, animal preso é mais valente, impetuoso, bravo... Instinto represado quando escapa incendeia a selva de pedra, de plumas, de lençóis. O ardor que levanta e destrói o juízo, os pudores, as amarras, devorando com voracidade quem der a primeira mordida.

Muitos sabores, formas, sensações, dessa fruta misteriosa que não tem época certa de colheita e nem padrão produção. Apenas germina, cresce, frutifica, sem fiscalização, como tudo que é natural, que é livre.

Desses sabores seus eu nunca provei, mas sei que existem, sim. E espero que o momento chegue, tão natural quanto o instinto que a humanidade gosta de aprisionar. Espero provar todos os seus gostos, em um beijo com sabor de fruta mordida. E sentir seu sumo escorrer em mim, rastro doce da delícia de também ser livre. Gosto suave da fruta tenra do amor.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Da Noite Sem Lua (ou Via-Láctea)

"E quando chegar a noite, cada estrela parecerá uma lágrima..." (Renato Russo)


Ela sabia que um dia chegaria àquele ponto. Sabia, e mesmo assim seguiu em frente, impulsionada por aquela sensação de euforia irrefreável quando um novo caminho surge depois da curva. Era dessas que não rejeitam uma oportunidade. Se fosse inventada, então, melhor ainda, não perdia tempo com baboseiras como fatos e probabilidades. Melhor mesmo era pensar no impossível, que dava mais vontade de alcançar.

E assim ela foi. Lançando-se naquele caminho tortuoso que começava nuns olhos negros de noite sem lua e todo mundo sabia onde e como ia terminar. Mas ela foi, entusiasmada, desfrutando cada passo sob o céu aberto, entregando-se apaixonadamente ao frescor do vento que soprava aquele perfume conhecido para novas direções, apreciando a delícia de descobrir cada surpresa de rumar ao desconhecido. Não tinha medo de andar no escuro.

Menina boba, com mania de poesia. Dessas que sabem que toda história tem ponto final, mas escrevem como se a tinta do sonho não fosse acabar. Ela escrevia aquele caminho, vendo beleza na poeira subindo pela estrada e sonhando romances na calada da noite deserta. E sorria. Não podia evitar sorrir quando pensava naquele outro riso. Aquele lá, onde a tal lua, fugida da noite, foi inventar de aparecer.

Seu caminhar era confuso, inconstante que era o seu destino.  Calhava de mudar de direção justo quando pensava que ia alcançar o atalho que levava ao esconderijo da lua. Se perdia todas as vezes que julgava encontra-lo. Mas insistia. E não olhava para trás.  Teimosia que só a coragem de se aventurar desperta. Achava que sabia de algo, talvez o suficiente para se localizar, mas havia segredos labirínticos naquela escuridão impenetrável. Ela se esquecia de procurar conhecer o que estava no começo, lá onde a noite daquele olhar ficou escura, sem estrelas até. Se deparava com bifurcações, encruzilhadas, tinha que tomar decisões rápidas. Cada segundo era precioso no percorrer daquele caminho.

E caminhando chegou ao final, mas não ao destino que esperava. Porque, no fundo, no fundo, bem naquela parte do coração, a mais ingênua de todas, ela sonhava que o fim podia ser melhor do que aquilo que todos imaginavam. Sonhava com um fim que fosse recomeço, agora para caminhar acompanhada.

Mas ela encontrou vazio o esconderijo da lua, que agora iluminava novamente a noite daqueles olhos, por alguém que conhecia o atalho. Então respirou fundo, sentou na beira da estrada e finalmente pôde descansar. Porque o que matava aos poucos era a dúvida, não saber como seria o final daquela jornada. E chorou, porque a paisagem não era bonita como havia sonhado, mas era o suficiente para fazer doer o coração.

Sentou na beira da estrada e esperou, esperou até que o novo dia clareasse o mundo, dissipando aquele caminho escuro e iluminando seus olhos com a esperança de trilhar novos rumos. E quando o último pedaço de céu foi pintado de anil, ela se levantou, sacodiu a poeira do corpo, arrematou o rosto com um olhar sereno, e seguiu. O caminho se faz ao caminhar. Quando a noite da saudade voltasse, ela queria estar já longe, sempre mais e mais distante. Esperando que a saudade virasse apenas lembrança e a noite fosse apenas uma noite.  
Até lá, cada estrela pareceria uma lágrima. 

quarta-feira, 14 de março de 2012


Ele encaixava no seu abraço como ninguém mais era capaz de fazer.  Sentado, envolvia sua cintura, a cabeça pousada em seu peito, rosto voltado pra cima, olhos fechados, sorriso tranquilo.  E ela passeava os dedos pelos cabelos escuros, tão bonitos, que pediam carinho meio sem querer. Deslizava, absorvendo texturas, sentindo o peso suave sobre o peito, sorrindo intranquila para aquele sorriso que, se não inocente, ao menos desavisado.

Sim, desavisado. Porque ele não fazia ideia do que se passava naquele coração que podia ouvir bater, meio descompassado, através do burburinho de uma igreja quase vazia. O querer dos outros, quando difere do nosso, pode ser tão barulhento!
Mas ele não podia saber que no espaço daquele abraço, enquanto ele pensava na volta pra casa, ela imaginava tardes inteiras, cuidados, toques... E os carinhos que escapavam desses pensamentos fluíam pelo corpo dela que, sem querer, regia. E sorria. E o olhar brilhava. Ele, bobo, não via. Nem percebia a respiração que acelerava. Que ela era do tamanho exato do seu abraço.

Ela nunca era a primeira a sair do abraço.  Permanecia sonhando, tocando o quanto podia, até sentir aquele momento de hesitação, um pouco antes do afrouxar dos braços, do sorriso meio aéreo, e o distanciamento que levava embora um pouco do calor, deixando a vaga lembrança de um perfume que a acompanharia até a hora de dormir, invadindo sonhos.  

Ela partia, deixando o calor e o perfume, as texturas e os carinhos, decidida a não sonhar naquela noite, ou nas próximas. Absolutamente certa de que ao longo da semana iria superá-lo... E no domingo teria uma recaída. De novo.
Partia com a sensação de um abraço solitário, só de braços, não de almas. E queria mais, esperava mais. Era sua última oração antes de deixar a igreja, que ardia no peito e fazia palpitar de expectativa.
Um abraço unisse corações, que atasse destinos. Um abraço que apertasse o laço e virasse nó. 


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ela era techno






O barulho era o que mais fazia falta.  Gritos quando estava apressada, quando se sentia frustrada, quando estava entediada, só pra ocupar o tempo. Gritos de medo em filmes de terror, de indignação no meio da novela... Grito de surpresa, de alegria, de prazer. E até muxoxos de reprovação, pequenos resmungos, na voz dela pareciam fortes, retumbantes, porque toda ela era gritante. Era todo alvoroço, toda energia. 

Do movimento, ele também sentia saudade.  Dos passos descalços na madrugada, na tábua do assoalho que sempre rangia. Do cabelo ao vento quando corria para abraçá-lo. O jeito de passar batom, de subir as escadas, de bater bolo. A impaciência das pernas inquietas no tédio, o nunca estar parada até aconchegar-se na curva do seu pescoço, antes de dormir. E dali a pouco mudar de posição novamente. E o jeito de cantar desafinado, dançando enquanto lavava os pratos ou varria a casa. Era todo o ritmo, toda dança. 

Era puro Techno, emendando uma música na outra, insaciável, sem perder o compasso. Techno, que provoca sensações, que desperta sentimentos, que convida e atiça, quase sempre sem uma palavra sequer. Ela dançava porque era música. Ela gritava porque era música. E ela preenchia todos os espaços, todos os minutos, qualquer vazio.

E mesmo assim, com toda a energia, ligada vinte e quatro horas sem botão de “off”... Ela que era incansável, se cansou. Porque cantar pra coração surdo é quase perder a voz. E ter uma mão para lhe sustentar dissipa o medo de um passo em falso. Corpos que se movimentam juntos, no mesmo ritmo, sincronizados, deixam de ser apenas espetáculo e transformam a dança em fazer amor. E, em toda sua independência, ela não era indiferente a uma companhia na pista. Ele não estava disposto a dançar. Ele se irritava com o barulho durante o filme, com as pernas inquietas durante a noite, com a cantoria pela manhã enquanto ela fazia o café. Não tinha muita paciência para seus movimentos peculiares quando varria a casa e parava na frente da TV. Ele não era do tipo “elétrico”, ela deveria entender e respeitar! Ele gostava de tranquilidade e silêncio. Ele gostava de rotina e de tempo ocioso pra ver televisão. Raras vezes ligava o som. Gostava de paz, pra ouvir o próprio pensamento. 

Ela entendeu. E respeitou. Apenas não pôde ficar. Não porque fossem diferentes, isso não seria problema, eles podiam se adaptar. Mas porque não havia espaço. Ele mesmo já ocupava todos os cantos da própria vida. Estava superlotado. E em pouco tempo ela não poderia mais se mover, tão cheio dele que estava o lugar. E então ele pediria silêncio, e lá não poderia mais cantar. Atada e amordaçada ela não aceitaria ficar. Então partiu. 
Ele apenas a observou ir. Deixou que fosse com todos os seus sons, passos e cores. Não percebeu que as lembranças ficavam. E o peso barulhento do silêncio trazia a solidão para preencher o lugar que ficou vago.  Ele não a impediu.
A música parou, a dança terminou, as luzes se apagaram...
E a pista ficou vazia. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Pirlimpimpim


A trágica reflexão do dia.

Se o Homem de Lata tivesse lido os "Termos de Uso" provavelmente rejeitaria a proposta do Mágico de Oz.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Além do Eterno




Eu quero a poesia mutante,
Maleável, inconstante,
Do boca-a-boca,
Do diz-que-me-diz,
Das lendas locais.

O brilho chamejante
Da palavra que dança na fogueira,
Formando sombras desconexas,
No paganismo dos rituais.

Eu quero a cadência ritmada,
A musicalidade hipnótica,
A elegância medieval,
Da história que canta-conta-encanta
Nas rimas do trovador.

Os paralelismos amistosos
Do universo do romance,
O zombar cáustico e mordaz
Que cai sobre aquele de quem se maldiz,
E a idealização distante de um impossível amor.

Quero a morbidez doentia
Dos romancistas desiludidos
Que brindam, veneno e sangue,
O fascínio do platonismo.

O último bater do coração romântico
Do suspiro que indica o final
Pra o poeta que alcança o amor,
Da inspiração inimigo letal.

Eu quero a totalidade,
O melhor escrito em cada geração,
Os recortes de cada época,
A vasta miscelânea da perfeição.

Eu quero ser o ‘não-ser’ do ser
A tinta que molha o papel para a eternidade
Porque no caos da criação,
Na amplitude da inspiração,
Vou infinitamente além do que forma o eterno.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Deixa...




Deixa a inspiração guiar o pensamento
Iluminando sons, sabores, cores.
Folha dançando com o vento
Tirando do chão o sonho preso na realidade.

Deixa o olhar explicar a palavra
Perdida no preto e branco da escrita.
A rima na pedra fria esculpida
Engastada no ouro da fala torna real a emoção.

Deixa a canção calar o silêncio
Que ruidoso ecoa na solidão.
Deixa pra lá a tolice de ser perfeito
Se tantas vezes a vida ensina pelo erro.

Deixa estar...
Deixa ser...
Deixa rolar...

domingo, 1 de janeiro de 2012

PIRLIMPIMPIM


O primeiro versinho cristalizado do ano.



No pálido âmbar da memória
Refugiou-se nosso amor.
Protegendo-se da ruína dos anos
Conservou-se em presente o passado
Rompeu o tempo e se eternizou.