sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Decifra-me ou não te devoro



Desvenda-me.
Observa atentamente as linhas que delineiam meu corpo, a suavidade dos traços, a harmonia dos detalhes, mas não esqueça as imperfeições. Os deslizes do esboço estão presentes na arte-final. Então acompanha o desenho das minhas curvas, desliza pelo macio da minha pele, decifrando os sinais que marcam minha história. Aprecia esse calor que transborda do meu corpo e desfruta do perfume que se espalha no teu. Tem meu cheiro na memória.

Desnuda delicadamente as formas do meu querer. Desfaz, sem pressa, os laços de pudor que atam minhas ideias menos convencionais. Observa atentamente enquanto caem, uma a uma, as peças que compõe o figurino da minha política. Entende que cada peça sou eu, mas que existem muitas de mim sob cada camada. Encara meus olhos de pedra, de aço, de cores que dançam, de lágrimas que encharcam. Descobre as combinações, das melhores às mais absurdas, de olhares e formas. Mergulha em meu olhar denso de segredos, iluminado de sonhos, ressaqueado de anseios. Afoga-te em mim.

Decifra meus trejeitos, se são sinais ou pura displicência, se são manias ou gestos calculados. Trata de observar as nuances do meu humor, a veracidade dos sentimentos, se estou de máscara ou de cara lavada. Percebe os efeitos que causa em mim. Aqueles que eu demonstro e, sobretudo, os que tento esconder. Descobre quando é o motivo do meu sorriso. Encontra em mim algumas partes de ti.

Descobre o que eu não sou. O não-ser também faz parte de mim. Então conhece meu avesso, o inverso do meu querer, do meu sentir, do meu pensar. Observe o que eu desgosto, analise o gosto que tem.

Decifra-me... Busca meus motivos, minhas facetas, minhas fases. Busca meus sorrisos, minhas dores, meu tédio, meus figurinos, minhas expressões, minhas frases prontas. Tente adivinhar o meu porquê. Tem sede de mim, me abre o apetite de você.

Decifra-me ou a esfinge te deixará partir. E esse seria o frustrante final da sua aventura. Voltar para casa sem histórias, sem perfumes, sem sabores, sem respostas. Voltar sem nada quando poderia ser devorado incontáveis vezes pelo arcano do amor e descobrir mais de ti enquanto desvendava os meus mistérios.

Eu te convido a decifrar meus segredos e a deixar que eu me perca nos seus. Não importa muito que encontre as respostas, há mistérios que são simplesmente insolúveis. Mas tente decifrá-los, é a busca o que realmente interessa.

Se entregue à esfinge, deixe-se devorar. Seja o sabor em minha boca.

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