quarta-feira, 14 de setembro de 2011

De sobremesa, amor.




O sol insistia em brilhar, mesmo um pouquinho antes de morrer no horizonte, dando um tom alaranjado a tudo que podia tocar. Parecia doce, a imagem. Doce de laranja em compota, ela pensou. E sentiu fome. Mas uma fome boa, diferente. Fome de vida e de paisagem bonita, fome de doce, também, mas principalmente de vê-lo derreter-se naquele pôr-do-sol alaranjado. Chocolate com sol. Sol em calda, sol em compota.

Ele a encarava, fascinado, enquanto o sol escorria pela borda do dia e coloria e sombreava, tudo ao mesmo tempo, aquele rosto delicadamente pálido. Também lhe parecia doce, a imagem. Aqueles olhos cor de açúcar queimado, cabelos de caramelo, boca pequena vermelho-cereja. E a pele branca de suspiro. Ele também suspirou. E quis devorá-la. Mas devorá-la devagarinho, saboreando o gosto bom do sorriso açucarado e olhar derretido de amor.

Eles se encararam e algo em seu peito pulou. Também tinha fome. Mas era fome dela, fome de sentimento bom, de sonhos a dois, de mais tardes ensolaradas com doce-de-sol-em-calda. Com massa caseira de paixão, recheio de cremoso duplo de mimos e cuidados, cobertura de carinho transbordando pelo prato de beijinhos, e até uns granulados de ciúme, mas bem pouquinho, só pra enfeitar.

Sentiu que seu olhar se derretia também, enquanto as estrelas apareciam de mansinho, como açúcar cristalizado polvilhando torta-de-céu, e ela desviava timidamente o olhar para o mar.

Meiga, meiga, doce, doce... Que fome, meu Deus! Que doçura de menina! Tomou sua mão (mais um suspiro!) e beijou delicadamente, um tanto tímido, um tanto inseguro, quase com medo de desfazer o confeito.

Ela sorriu açucarado e imitou o gesto, degustando o calor suave de café-com-leite. De repente, também sentia fome dele. O sol já se fora, mas o perfume de chocolate ainda estava no ar. Era dele.

Ele também lhe sorriu, sorriso de sorvete de coco, não frio, mas saboroso. E surgiu a ideia assim, do nada, quando aquela fome de tê-la pertinho já era tão grande que até doía o peito (era fome que dava no coração). A noite estava quente como pudim recém-saído do forno. Ela aceitaria tomar um sorvete?

Sua resposta foi chegar mais perto, bem pertinho. E parecia que aumentavam a temperatura do forno, mas na verdade o calor vinha de dentro. Ele a tomou nos braços e então já estavam juntos, bem juntinhos. E foram derretendo, derretendo, até as bocas estarem muito próxima, coladinhas com recheio avermelhado de amor. Num beijo doce, viraram casadinho.

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