quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Heranças (ou De histórias e galinhas)



Quando olho para uma galinha, eu me lembro da minha mãe.
Talvez isso soe um tanto estranho para a maioria das pessoas, dada a fama que as pobres galinhas receberam na sociedade atual, mas quem viveu bem sua infância pode compreender que as associações que uma criança faz ficam marcadas por toda a vida.

E eu associava minha mãe a uma galinha. Mais precisamente à Galinha Ruiva, mamãe amorosa e trabalhadora, do meu conto infantil preferido no mundo todo. E que fazia minha mãe (e tias e primas) repetir até que perdesse a voz. Aí ela tinha que prosseguir com mímica. E, acredite, a imagem da Galinha Ruiva arrepiando-se de fúria ante os preguiçosos animais da fazenda ainda me faz arregalar um pouco os olhos de pavor.

O amor pela literatura, creio, nasceu comigo como uma doença genética (o que mais podia se esperar da filha de uma professora de português?). Pontos, vírgulas e travessões me encantavam antes mesmo que eu soubesse como manejá-los, quando apenas davam o tom das histórias que eu ouvia antes de dormir. E não eram poucas.

Se por um lado eu fazia minha mãe se esfalfar de tanto imitar uma galinha, fazer voz de pato, cachorro, gato, ler contos de fadas e livretos infantis, por outro, sugava horas e horas de descanso do meu pai, obrigando sua imaginação a trabalhar loucamente na construção de histórias originais e mirabolantes. Como a das três ursinhas (sempre eram três, aludindo às suas lindas filhotas) que quebraram a moto na floresta enquanto iam ao supermercado colher potes de geleias para rechear tortas do concurso culinário da vila. Sim, a tendência dramática surrealista também é genética.

E se ele adormecia antes de contar o final, eu tinha um método muito eficaz para despertá-lo, puxando-lhe o nariz com certa impaciência. Como se pode notar, determinação é uma característica bastante marcante da minha personalidade desde então. Claro que, em consequência, sinto que sou a causa dos atuais problemas de insônia do meu papi. Ele meio que se acostumou a ser despertado no meio da noite, acho.

Depois de pegar o gosto pela repetição (o que deve ser culpa minha, admito), há muitas frases que meus pais costumam dizer- e se você deixar eles repetem mais que o refrão chato de “É isso aí” da Ana Carolina - uma delas é que nada é mais importante que o conhecimento e que é esse seu legado para nós (minhas irmãs e eu). De ponto em ponto, palavra em palavra, conto em conto, construí meus valores, meu caráter, minha história. Metade construção, metade herança de família.

Tenho de herança antecipada as interrogações do meu pai e os pontos da minha mãe. As vírgulas da minha avó, os parêntesis dos meus tios, as aspas das minhas primas e as exclamações das minhas irmãs. Tudo no meu eu textual. Não me admira que eu seja tão prolixa.

Herdei um tapete voador e uma lâmpada mágica, ratos costureiros e carruagens de abóbora.
Herdei objetos falantes e uma rosa encantada, cavalos alados e força mítica.
Herdei plumas, bico e ovos de ouro.
Mais que histórias, herdei mundos, vidas inteiras, sonhos intermináveis.

E essas foram as sementes que meus pais lançaram no terreno fértil das minhas fantasias infantis e que cresceram tanto quanto os feijões do João. E suas raízes se entrelaçaram com minhas próprias raízes, meus ramos com seus ramos, e eu não pude deixar de crescer com elas, de aprender com suas lições, de fazer associações, de subir até atravessar as nuvens, conhecer gigantes e galinhas (não as ruivas, as outras, dos ovos de ouro).
Não pude deixar de desejar ir além.

A plantinha cresceu ao ponto de não se satisfazer em ser apenas alimentada, queria oferecer algo ao mundo. Resolveu dar frutos.
Ainda que alguns possam, por desventura, levar alguém a um sono profundo e eterno - do qual só despertará com o beijo do amor verdadeiro de um gato preto, debaixo de uma escada, numa sexta-feira de lua cheia – outros servem bem como lanchinho da tarde, saciam a fome de quem se arrisca a dar uma dentada. (perceberam a coisa do drama surrealista?)

Também herdei aquele castelo acima das nuvens. Subi até lá.
Eu encontrei o gigante dos meus anseios e seu tesouro, não de ouro, mas de palavras. A galinha mágica é, então, uma humilde escritora.

Como o João, tenho de enfrentar o gigante para usufruir do tesouro. Nada vem fácil, como repetem meus pais, a coragem – e esperteza - para conseguir o que se quer também é herança de família.

E há quem não veja o valor real de um galináceo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Pirlimpimpim





O pensamento alucinógeno do dia


Meu sentimentos estão por demais ruidosos. Quero a paz tranquila da algazarra exterior.


(Bônus de uma triste confissão)

Mas se eu te quero, esteja certo, é totalmente sem-querer.
Tendo escolha, prefiro fel. Tem sabor menos amargo que a tua rejeição.


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Não tão benquisto bem-querer



Nas vias tortas do que é poesia

Caminha cambaleante meu querer

Pelo desengano entorpecido.


Segue errante pelas ruas,

Trôpego equilibrista de meio-fio,

Garrafa cheia de desilusão

Olhos baços vazios.


Vaga desorientado

Pelo acostamento da vida

Pedindo carona a quem mais distante for.


Meu bem-querer

Ferido, magoado, busca sofregamente,

Nas promessas oblíquas do amanhã,

Esperança paliativa para o vazio do presente.


Meu bem-querer,

Puro, desinteressado,

Amorosamente doado,

Tem por destino a solidão.

domingo, 7 de agosto de 2011

Pirlimpimpim



O pensamento alucinógeno do dia



Tem dias que despertam com grandes promessas de romantismo. Te dói o peito, é impossível respirar e um copo de veneno parece o fim ideal.