quarta-feira, 16 de março de 2011

Muito ajuda quem não atrapalha.




Para o sétimo desafio vocês deverão escrever um conto com personagens de universos totalmente opostos (ex: um conto que tenha como personagens: um serial killer, uma bailarina e os três porquinhos).

*Confesso que desse eu gosto muito também. R.I


––Bom, se a antítese utopia-realidade pode ser comparada, ou vinculada, às antíteses livre arbítrio-determinismo, teoria-prática, intelectual-burocrata, então está mais do que claro que as dicotomias existentes no processo de análise dos fatos para a consecução do objetivo é mais do que necessária, muito embora o desequilíbrio das mesmas possa alterar os resultados da pesquisa feita pelos... Que diabos eu estou pensando, pelo amor de Deus?

Cecília jogou o livro para o alto e largou-se de costas na cama. Sua cabeça girava e girava, ouvindo as falas dos seus professores, vendo as minuciosas descrições de Carr sobre a constituição da política internacional como uma ciência... E tudo que ela conseguia pensar era como aquele intercambista do oitavo semestre conseguia ficar tão gato com o novo corte de cabelo.
E um pensamento puxava outro, que trazia mais um consigo, e o outro pulava o muro das suas idéias e mais um passava por baixo da cerca da sua mente... Ela estava tão fodidamente ferrada!
Um estudo dirigido na segunda-feira, valendo ponto, e Cecília não conseguia controlar seus pensamentos arredios. Eles teimavam em voar para onde bem queriam.

––Jesus, ilumina minha mente, por favor! – Ela pediu, ficando de joelhos ao lado da cama. Quando literatura acadêmica não funciona, o jeito é apelar pra oração. ––Por favor, Jesus amado, me ajuda aí, na moral!

Ela esperou no silêncio pesado, fazendo esforço para afastar da sua mente o intercambista gatinho, os sapatos em promoção, o documentário maneiro que havia assistido no domingo anterior, e todos os outros pensamentos inúteis que a impediam de se concentrar no pedido.

Quando um pensamento gaiato começava a escapar para o conjunto de lingerie Victoria Secret’s que ela desejava tanto, um ruído estrondoso se fez ouvir seguido por um pequeno e agudo “Ai!”.
Cecília abriu um olho.

Entre frascos de perfume e batons, uma mulherzinha vestida de tailleur e com lindas asas rabiscadas em diversas línguas tentava se levantar.

––Muito bem, quem chamou? – Perguntou com foz fininha, ajeitando os óculos de aros negros.
––Q-quem é você? – Cecília balbuciou, assustada, enquanto reorganizava seus cosméticos na penteadeira em gestos automáticos.
––Ora essa! – A mulherzinha indignou-se e esquadrinhou Cecília antes de resmungar olhando para o teto. ––Quem quer que esteja no comando desse departamento hoje, decididamente está zuando com a minha cara. – Ela respirou fundo e explicou. ––Eu sou a fada dos trabalhos literários, mocinha. Você está com problemas?
––E-eu estou s-sim. – Respondeu ainda espantada. ––Não consigo compreender os paralelos que Carr faz sobre...
––Espera aí, espera aí! Você disse Carr? Como em E.H. Carr?
––Sim. De Vinte Anos de Crise. Eu sei que ele não é tão complicado, mas...
––Pode ir parando, mocinha. Eu não ligo. Sou a fada dos trabalhos literários, não dos acadêmicos. Alencar, Gregório, Drummond, os pergaminhos secretos da biblioteca de Alexandria, vá lá. É literatura pura e bela. Carr está fora da minha jurisdição. Não é da minha alçada. – A fada reclamou, ajeitando a saia azul-celeste antes de lhe lançar um olhar impaciente. ––Da próxima vez que for pedir ajuda, seja mais específica. Poupe-me de viagens desnecessárias.

Ela fez um gesto de despedida e, um segundo antes de sumir numa nuvem de purpurina, disse com condescendência.

––Não se preocupe, vou arranjar alguém pra te ajudar.

Ainda boquiaberta, Cecília deitou-se na cama e voltou à Parte I do livro, buscando se concentrar de uma forma mais intensa. Seria difícil, agora, com aquela revelação mágica pululando em sua mente. Fadas. Ham! Quem diria.
Se ela não acreditasse nisso antes, com certeza estaria completamente chocada naquele momento. Ainda bem que era uma garota espirituosa, de mente aberta para a magia da natureza e ...

“Estudo dirigido! Estudo dirigido! Se concentra, Cecília! Mas que coisa!”

As palavras saltavam à sua frente como pererecas do brejo em competição olímpica. Estranhas, complicadas e totalmente incompreensíveis.
Mas Cecília era brasileira. Não desistia nunca!
“Vamos lá, Carr. O que você tem para mim?”

Um estalido seco, algo como um galho se partindo, e lá estava ele, parado à sua frente.
O cabelo com corte de cuia, os óculos de lentes impossivelmente grossas, algumas espinhas pontuando a cara...

––Um nerd? Um nerd de computador?
––Eu prefiro o termo superespecialista em informática, se você não se importa. – Falou com sua voz anasalada.
––Muito bem, desculpe. – Ela retrucou, envergonhada. ––Então? A composição da política internacional como ciência é uma das suas especialidades? – Cecília perguntou esperançosa.
––Hã... Não. – O supernerd respondeu, surpreso. ––A fada literária disse que era algo mais condizente com um gênio da computação... Talvez... Acho, que talvez ela pensou que eu pudesse te ajudar com um texto da internet, quem sabe?
––Texto da internet? Texto da internet? Você tá de brincadeira? Plágio é crime, tá sabendo? Eu quero entender o que esse cara diz, não fingir que entendi!
––Bom, então você vai precisar de... Hum... Alguém mais... Hum... Genial de uma maneira alternativa, talvez? Agüenta aí, sis, já já eu mando alguém!

E o supernerd desapareceu em um redemoinho de bytes.

“Eu mereço!” Cecília resmungou mentalmente, voltando para os livros e pensando, com impaciência, que talvez os caras do departamento “lá de cima” estivessem mesmo se divertindo às suas custas. “Caramba, J.C, se não quer ajudar também não atrapalha!” Reclamou para Jesus, um tanto indignada.

“Vamos lá. Antítese Esquerda-Direita, Ética-Política...”

––Puta que pariu, meu gato pôs um ovo. Gato não põe ovo, puta que pariu de novo...
––AHHHH! – Cecília berrou, encarando a barbixa, os óculos, o violão, o sorriso canastrão e os cabelos cacheados. ––RAUL SEIXAS?

Ele sorriu para ela, ainda cantarolando Vampiro Doidão e se sentou na cama muito confortavelmente.

––Você disse que precisava de alguém mais genial e alternativo! Não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais! – Ele exclamou ainda rindo. ––Eu sou a sua mosca, baby! Vamos nos afogar nessa sopa problemática que...
––Não! Não! Não! – Cecília quase berrou e saiu da cama, empurrando Raul até a porta com firmeza. –– Eu adoro você Raul. Ê! Viva a sociedade alternativa! Mas vamos todos tomar banho de chapéu, ficar maluco beleza usando óculos escuros, em outro lugar! Eu quero paz, quero estudar, eu quero...
––Eu quero mesmo é cantar yê-yê-yê!
––Isso! Vá cantar com os anjinhos do céu. – Cecília implorou. –– E fique à vontade para não me mandar mais ajuda alguma! Beijo Raul.

E Raul também sumiu, numa nuvem de sons diversos e poeira de estrelas nascidas há dez mil anos atrás.

Cecília soltou um suspiro, a luz da compreensão invadindo seus pensamentos. Trocou de roupa rapidamente, pegou seus livros e cadernos e saiu do quarto decidida.

––Pode parar, Jesus. Eu já entendi. Mas você realmente podia ter facilitado tudo mandando uma visitinha do Edward Carr.

Na volta pra casa, horas mais tarde, Cecilia encontra em sua cama um bilhete etéreo, quase fluido, com uma letra inclinada bonita e angelical.

Fizestes a tua parte. Agora eu te ajudarei. Que bom que você entendeu rápido. Estava começando a imaginar que teria de apelar para a visita da Dercy Gonçalves. Amor, Pai Eterno

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