quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Amor é Ridículo






O SEGUNDO DESAFIO
Criar uma cena que faça rir


Ok. Isso foi muito difícil e nem revisando eu acho que ficou bom, mas tá valendo. Eu disse que ia postar todos, então... Vou tentar não cometer suidídio depois de postar essa droga.


––Quem é o amoquinho da minha vida? Quem é o meu amor? – Ele perguntou naquela “voz para bebês” completamente irritante e eu revirei os olhos.
––Sou eu, meu amoco mais perfeito! – Ela respondeu. Dessa vez o que revirou foi meu estômago.

Meu irmão e sua namorada acabavam com minha beleza (e minha saúde mental) sempre que começavam aquelas longas e terríveis conversas de amor.
Era um sem fim de apelidos toscos, vozes esganiçadas, olhares melosos e expressões de cabeça-oca.
Bizungo, Bubu, “Nheném”, Tchuco, Dengosinha, Peixinho, ‘Gotoso”, Bebê, Chuchu, Bolinha, Pompom, Tigrão, Pimpolha, Anjinha, LGT (que eu tenho medo de descobrir o que significa) e o clássico “Amoco/Amoca”.

Meus olhos lacrimejavam com a intensa dor psicológica que essas cenas me causavam. Assistir filmes com eles? Enquanto a minha simpática cunhada se debulhava em lágrimas e ele enxugava o nariz dela seu olhar era como o de quem estava colhendo o mais puro néctar das flores mais raras do mundo? Não, eu acho que dispenso, obrigada.

Naquela noite, porém, nós estávamos trancados em casa, sozinhos e eu não tinha muitas opções a não ser desfrutar da companhia.
Ou isso ou me jogar da minha janela.
Eu moro do 13º andar.
E essa opção era muito mais atraente pra mim, acredite.
Infelizmente a dor de me perder provavelmente só faria meu irmão mais sensível, idiota e apegado aquela namorada grudenta dele, de modo que eu resisti ao impulso de me libertar dos dois e sair de braços dados com a Morte.

Chovia muito lá fora e era impossível sair de casa.
Para completar a boa sorte, como nada funciona nessa porcaria de cidade quando o céu desaba, faltou luz.
Merda.
Isso com certeza daria idéias nada boas para aqueles dois.
Eu tentei tapar meus ouvidos mentalmente (sim, isso é possível) para os gemidinhos nojentos e as declarações indecentes, enquanto tateava no escuro a procura do armário onde mamãe guardava as velas.

Quando finalmente achei as velas e voltei para a sala quase morri do coração ao ver uma quarta pessoa entre nós.
Não era um fantasma.
Não era um assaltante.
Não era Jesus Cristo.

Era o Paulo, vizinho gostoso do 1304. O cara que eu paquerava há quase um ano.
Ignorei o instinto que impulsionava a deixar cair a vela no tapete, colocando fogo no apartamento inteiro, e pigarreei para afastar o casal sem-vergonha que se pegava no sofá de um jeito quase criminoso.
O sofá onde eu assistia minha novela, meus filmes da Disney, meus desenhos animados!
Aquilo ia além do nojento.

––O que é, Carla? – Raul me perguntou com sua cara amassada por beijos em uma expressão de irritação. Eu havia interrompido um sublime momento de amor. Que malvada que eu sou.
––O que é? – Eu sibilei, um tanto tensa. ––Pra começar, pare de tentar engravidar sua namorada no sofá da minha sala e, pior, na minha frente. – Resmunguei. ––Oi, Paulo, tudo bem?
––Tudo, Carla. – Ele respondeu e sua voz me fez tremer um pouco. ––Eu estou sem velas, você pode me emprestar algumas?
––Claro, vem comigo. – Eu lhe sorri, tentando andar sem que minhas pernas bambeassem. ––E vocês dois, mantenham uns bons metros de distância um do outro, ok? Se eu assistir a uma cena como essa de novo, meus olhos vão derreter.

Paulo caminhou ao meu lado, conversando animadamente sobre como achava bonito o amor do meu irmão.
Tentei não bufar, revirar os olhos ou rir da cara dele.
Afinal, era o vizinho gato por quem eu tinha uma queda. Ninguém, em sã consciência, acharia todos aqueles apelidos bonitinhos, fofinhos, lindinhos.
Era grudento. Meloso. Nojento. Ridículo.
E amar causa sérios danos às faculdades mentais de uma pessoa. Eu era testemunha ocular daquilo.
Paulo não podia estar falando sério.
Ele provavelmente só estava querendo puxar papo comigo. E nada era mais óbvio naquele apartamento que a pegação melosa e descontrolada dos pombinhos.

––Então... – Ele começou. ––... Eu não te vejo muito por aqui com seu namorado.
––Eu não tenho namorado. – Retruquei, procurando as velas e sentindo meu coração martelar no peito.
––Ninguém pra te chamar de “amoca”? – Perguntou com um sorriso e eu ri de como “amoca” parecia ainda pior na sua voz grave e máscula.
––Não, não tenho. – “Graças a deus, não.” Eu pensei, sentindo vontade de chorar de angústia só de imaginar alguém me chamando assim.
––Que bom saber.

Ele disse, me enlaçando pela cintura com um aperto firme.
Paulo me beijou inesperadamente e nós nos esquecemos completamente das velas.
Era meu momento perfeito, no meu paraíso particular, no meio do caos assustador que era São Paulo quando desabava uma chuva torrencial como aquela.
Por mim, tudo bem, estava ótimo assim!
Até que ele parou, me olhando bem nos olhos, com uma intensidade que me fez tremer.

––Acho que encontrei a princesa que estava procurando! – Falou num sussurro apaixonado. ––Quer ser a princesa deste nobre cavaleiro?

Meu sorriso despencou uns quatro andares.

––Quer ser, minha princesa, pirulita? – Perguntou mais uma vez, com um sorriso maior do que antes e uma voz estúpida de bebê que poderia me fazer vomitar. ––Tanto tempo querendo seu amor, bebê! Vamos ter uma vida inteira de felicidade, não vamos, meu chuchu? Ah, vamos sim, minha gatinha, vamos sim! Vem cá, dê um beijo no seu príncipe encantado, dê.

Ele me agarrou mais uma vez, enquanto o horror daquela descoberta se infiltrava em mim. Meu Paulo. O gato que eu havia idealizado por anos, que eu tentava seduzir, que me fazia corar com um só olhar... Aquele cara forte, inteligente, tão bonito e aparentemente sério.
...
Ele era patético! Totalmente grotesco. Uma caricatura estúpida de tudo que eu mais detestava naqueles romances enjoativos e melosos.
Meus sonhos estavam destruídos.
Santo Deus, eu sempre soube que o amor era ridículo, mas aquilo ali já era sacanagem!

Duas semanas depois as minhas cartas de amor começavam com “Meu querido pirulito” e terminavam em um adoravelmente meloso “te amo mais que tudo na vida”.
É, ninguém escapa do ridículo quando se trata de amor.
Nem mesmo “a princesa pirulita mais linda do universo”.

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