sábado, 5 de fevereiro de 2011

JELL-O


O PRIMEIRO DESAFIO
É o seguinte: uma cena de beijo.

*Revisado



––Puta que pariu!

––Olha o escândalo, Ceci. – Ele reclamou, olhando para os lados com medo do vexame.

––PUTA QUE PARIU! – Berrei a plenos pulmões, sem cerimônia. ––Porra, Marcelo, você comeu todas as de uva! Não deixou umazinha pra mim!


––Foi sem querer. Não percebi que estavam acabando.


––“Não percebi. Não percebi”. – Grunhi para ele, irritada. ––Você sabe que eu adoro as de uva.

––E eu também. – Deu de ombros, perdendo a pose de bom-moço e puritano. ––Da próxima vez vou tentar me lembrar de dividir.

––Sacana! Não posso me distrair um segundo...


Devolvi seu sorriso cínico com um murro forte no ombro.

Em um gesto automático ele largou o saco de Jell-Os para massagear o braço.

Puta que pariu!
Eu havia pagado caro por tudo aquilo, cara!


Agora a grama verde-esmeralda do parque estava coberta de dezenas de balinhas coloridas que cintilavam à luz do sol.
Eu me levantei, pisando nas balinhas.
Era uma sensação engraçada, a consistência gelatinosa era gostosa ao toque dos meus pés descalços.


Mas nada era tão bom quanto comê-las. E agora eu não poderia. Por culpa de Marcelo.


––Opa! – Ele riu. ––Põe na minha conta, Ceci.

Eu apenas lhe lancei um olhar de fúria gélida. O meu auto-controle refinado permitiu que minhas mãos se mantivessem paradas ao lado do corpo, ao invés de apertadas na garganta do infeliz do Marcelo.


Para você ter uma breve noção do quanto eu amo Jell-Os.

––Às vezes você me tira do sério, Marcelo. De verdade!

Calcei minhas sandálias e recolhi meus livros da escola, pisando duro, com um enorme bico de birra e pronta para ir embora sem dar tchau.


––Ceci... Cecília, espera!


Marcelo me segurou pelo braço, sua pele morena em contraste com a minha super-pálida. E com as porras dos Jell-Os que estavam sob nossos pés.

––Desculpa, sério! Vou compensar. – Prometeu, de uma maneira não muito convincente, enquanto eu me concentrava em não obrigá-lo a comer cada Jell-O caído no chão. ––Passa lá em casa antes da aula de piano?

––Pra quê? Quer roubar as balas que levo para o lanche? – Fiz birra infantilmente.


––Não. – Ele riu, o sacana. ––Quero ir com você. Não vive dizendo que sou o pior amigo do mundo porque nunca te ouvi tocar, que não valorizo seu talento?


––Quer compensar o roubo das minhas Jell-Os indo para uma aula de piano? – Eu perguntei incrédula. ––Você?


Ele riu e me deu um tapinha na testa.


––Eu vou estar esperando.


*


––Marcelo, o que você pensa que está fazendo?

Minha voz soou irritada, mas eu estava verdadeiramente curiosa.
No momento em que eu entrei em sua casa, Marcelo tapou minha visão com suas mãos grandes e macias.
Agora eu andava guiada por ele, com as mãos para frente tateando o nada.
Que tipo de coisa maléfica ele estava aprontando para me irritar mais uma vez?
Esse menino não tem vida social? Outros amigos para infernizar?

––Marcelo Landeiro, se eu me machucar por sua causa a dívida das balas será a menor de suas preocupações. –Ameacei, me apegando à lembrança das balas desperdiçadas para me manter irritada. Não queria lhe dar o privilégio de me ver curiosa. Aquele garoto já tinha efeitos devastadores demais sobre mim.


––Não se preocupe. Se você cair, será no macio. – Ele riu sua risada malandra, as mãos gentilmente deslizando para o meu pescoço enquanto caminhávamos. ––Me desculpe, Ceci.

Meu próximo passo afundou alguns milímetros em algo gelado e escorregadio.
Abri os olhos.


O chão da sala estava coberto por Jell-Os de uva.

O sofá, a televisão, tudo estava colorido, brilhante e perfumado pelas balas.

Eu me virei para encarar os olhos de Marcelo e perguntar o que, diabos, ele estava pensando. Não tive tempo de falar.
Seus lábios se colaram aos meus com suavidade, o cheiro doce do ar ao nosso redor enchia meus pulmões e suas mãos deslizando pelos meus braços eram mornas e firmes.
Enrolando-se pela minha língua, seu beijo tinha gosto de uva.

Ele afastou os lábios dos meus por uns instantes e sorriu.


––Vê? Eu disse que podíamos dividir.


“Puta que pariu!” Berrei mentalmente antes de agarrá-lo com intensidade.

Nunca pensei que algo assim aconteceria entre nós.


Pra você ver o quanto eu amo Jell-Os.

4 comentários:

  1. Adoooroo esse *-*
    Muito, muito, muito mesmo!
    Ciça, qual a receita pra escrever tão bem??

    Beijos

    ResponderExcluir
  2. Gates, que fofa que é você!
    Fico até sem-graça com os elogios! >.<

    E é claro que você sabe qual a receita, você "cozinha" as letras melhor que eu!

    Beijoos!

    ResponderExcluir
  3. Eu não gosto de Jell-O ._.

    Mas abro uma exceção pra esse *---*

    ResponderExcluir
  4. hiouhiou que fofa, Il!!! eu tomei um susto com sua desaprovação!

    ResponderExcluir