domingo, 27 de fevereiro de 2011

Biblioteca Pública




Vocês deverão escrever uma cena com um pedido de casamento, mas não poderão ser usados os verbos “falar”, “dizer” ou “responder” e nem as palavras “mas” e “então”.


*Desse eu gosto, não sei por que.


A sala da Biblioteca Pública de Piracicujuba estava quente, muito quente.
“Maldito ar-condicionado” Elisa pensou, enquanto arrumava a fileira M da seção de Economia.

Estava um silêncio inquietante, como costumava ser no verão. Ninguém para estudar, ler belos romances ou simplesmente papear com os bibliotecários. Uma solidão de dar dó. Ou medo, como era como era o caso.
Elisa detestava ficar sozinha em qualquer lugar que fosse, ainda mais à noite. E já estava entardecendo.
O sol se punha, tingindo de cores quentes o famoso céu de aquarela de Piracicujuba.

Sim, a noite já viria. E com ela os monstros e os medos de Elisa.
“Por que desisti do meu emprego de babá, meu Deus? Lá eu estaria acompanhada, pelo menos”.
Infelizmente, Elisa sabia exatamente o porquê de abandonar Laís e Pedro Paulo.
Ficar naquela casa, com olhos castanhos tão semelhantes aos de alguém conhecido, seria doloroso demais para ela.

Rafael viajara para o litoral há cinco anos, deixando para trás uma Elisa apaixonada com o coração partido e os sonhos em pedaços.
Quem poderia culpá-la, agora, por sentir arrepiar os cabelos da nuca e, com a espinha gelada, soltar um berro de “SANTA MARIA MADALENA ARREPENDIDA NA BEIRA DA CRUZ, ME SALVE!” ao ouvir soar a voz gutural do distante Rafael?

–Uma noite escura e solitária, Elisa. Quem vai te proteger?

Com o coração descompassado, batendo na garganta e dificultando sua respiração, Elisa controlou-se, espiando entre as estantes. Um braço conhecido surgiu por uns instantes e tornou a desaparecer.

–Ouvindo vozes, Elisa? Vendo fantasmas?
–Sei q-que é você, Rafael! S-saia já d-daí... D-de onde v-você está!
–Claro que sou eu, querida Elisa! A questão é: vivo ou morto?

Com os pêlos do corpo eriçados e o ar pesado deixando-a tonta, Elisa gritou quando a puxaram pela cintura, fazendo-a girar e recostar no peitoral firme e macio que cheirava a éter e ela conhecia tão bem.

–Que susto, Rafael! – Brigou. –Não teve a menor graça!
–Claro que teve!– Exclamou alegremente. – Sua cara de assustada é incrível. Precisava ver seus grandes olhos castanhos. – E caiu na gargalhada. –Do tamanho de um pires.

Elisa se afastou, um tanto deslumbrada por aquela risada gostosa, um tanto surpresa por aquela repentina aparição. Teria vindo para ficar?
Depois de cinco anos. Cinco anos tão longos e quase sem qualquer contato.
Abriu a boca para perguntar, entre triste e esperançosa. Ele a interrompeu.

–Uma vez medrosa, sempre medrosa! – Provocou, recostando-se na estante que ela acabara de arrumar.
–Certas coisas não mudam com o tempo. –Ela sussurrou.
–Eu sei. Você continua medrosa, a Beth continua a mesma avoada, o Paulo o mesmo babaca, a sua tia continua ótima cozinheira...
–E você, Rafael?– Perguntou, encarando os olhos castanhos tão iguais aos dos primos. Olhos que ela não conseguira mais encarar desde que ele se fora. –Há algo em você que não tenha mudado?
–Muitas coisas ainda são como antes, Elisa. Muitas coisas são impossíveis de mudar.
–Sim, você parece o mesmo. O mesmo sorriso de olhos fechados, o mesmo jeito brincalhão, o cheiro de éter de tanto tempo passado no laboratório. Você continua...
––Te amando. – Ele interrompeu, num rompante firme e decisivo. – Não parei de pensar em você esses cinco anos, Elisa. Nunca esqueci o teu rosto, tua voz, teu toque...
––Não, Rafael! – Elisa, quase gritou, escondendo o rosto corado atrás de um livro de Macroeconomia, –Não faça isso. Não de novo, por favor.
––Fazer o quê, Elisa? –Perguntou confuso. –Me declarar, gritar para o mundo o quanto te amo?
––Não. Me iludir. –Murmurou com uma simplicidade dolorosa na voz. – Me fazer sentir segura e feliz... Apenas para depois ir embora e me deixar sangrando. Eu ainda não cicatrizei, Rafael. Não abra essa ferida por favor.

Ela sentiu mãos quentes cobrirem as suas, fazendo-a baixar o livro us centímetros por vez, até poder encará-lo.

–Elisa. Foi por isso que parti. E por isso que voltei.

Ele tomou o livro de suas mãos e colocou cuidadosamente na estante antes de continuar.

–Duas noites antes de ir embora eu fui pedi-la em casamento ao seu pai. Ele não aceitou. Parece que um simples ajudante de laboratório não era homem o suficiente para a filha dele. Eu sabia que se contasse a você haveria discórdia. Você e seu pai brigariam e sua posição seria complicada. Ele ou eu? – Rafael tinha a voz embargada e seus olhos não desgrudavam dos dela.–E eu temi não suportar a sua decisão. Assim, fui para a capital estudar. Trabalhei como um escravo durante esses cinco anos e cada dor, cada minuto de sofrimento e privação valeram a pena assim que pus os pés nesta cidade, como médico graduado e vi a expressão em seu olhar. Eu a reconheceria em qualquer lugar, Elisa.

Sem saber o que pensar, ela perguntou hesitante, procurando ganhar tempo.

–Quando chegou? Como me encontrou aqui?
–Há poucas horas. Minhas malas estão na porta de sua casa.– Ele comentou, casualmente. – Seu pai me indicou o lugar. – Rafael sorriu. – Ele me aceitou, Elisa. E você? Me perdoa? Aceita se casar comigo?

Ela apenas assentiu, sem conseguir falar. Aquela espera e esperança, aqueles anos de saudade valeram a pena.
Na seção de economia da Biblioteca Pública de Piracicujuba, um mais um seriam três na aliança santa do matrimônio.

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