domingo, 20 de fevereiro de 2011

Assuntos Inacabados





O terceiro desafio, espero que todos gostem, consiste em escrever uma cena que comece com “Não acredito que morri justo agora!” e termine com “Felizes para sempre.”

*esse não tem nem como reciclar de tão ruim que tá, mas tudo bem.


“Não acredito que morri justo agora!” Pensei, furiosa, enquanto caminhava de um lado para o outro no corredor apertado e escuro. “O que eu vou fazer? Não posso continuar minha vida... Bem, minha morte... Sem saber! Eu preciso voltar. De alguma forma, preciso saber!”

Passos soam atrás de mim. A escuridão é enorme e eu sequer consigo enxergar as pontas dos meus dedos.
Quer dizer, eu ainda tenho dedos, certo?
Depois que a gente morre a gente ainda é gente?
Alguém (ou algo) toca meu ombro com suavidade.

–Seja bem-vinda, Patrícia! – Diz uma voz espectral.

Eu me viro para encarar o interlocutor. Ele brilha. É bonito.
Um anjo? Será que eu brilharei assim também?
Balanço minha cabeça, afastando aqueles pensamentos curiosos.
Eu não quero ser igual a ele. Eu não quero ser bem-vinda.
Eu quero viver. Viver para ver, para saber!

–Bem-vinda? – Minha voz irritada ecoa pelo corredor escuro e sem paredes. –Bem-vinda? Você está brincando comigo, certo? Como eu posso me sentir bem-vinda quando vocês me matam no momento mais crítico da minha vida?

–Nós não a matamos, minha amiga. – Retrucou com simplicidade. –Você morreu porque foi chegada a hora. Aquiete seu coração, abra-se para esta nova e maravilhosa experiência. O que você chama de morte, na verdade é vida eterna!

–Escute aqui, camarada, seria encantador estar morta e viver eternamente, em uma outra ocasião, ok? Mas agora, neste momento, eu preciso voltar lá! Preciso!

–Patrícia, Patrícia, não entende o milagre que está para acontecer? Verás o Salvador! O que te prende ao mundo, minha cara? O que teima em interromper a maior glória que alguém poderia desejar?

Sinto-me envergonhada. Com certeza é um anjo. É bonito demais para não ser.
E sabe o que estou pensando, eu tenho certeza. É apenas educado demais para revelar.
Eu deveria seguir com minha... Morte. Ficar em paz. Na glória eterna, como ele diz.
Mas esse desejo humano, essa necessidade horrível de fazer minha própria vontade queima minha carne... Carne ectoplasmatica? Eu ainda tenho carne? Sinto como se tivesse, mas não posso ter certeza.
Patrícia, concentre-se!
Isso não importa! Nada importa. Você apenas precisa voltar lá!

–Escute, me mande de volta! Por favor! Eu preciso saber, eu preciso... Não posso morrer assim, na ignorância!

O anjo me olhou, provavelmente analisando meus pensamentos.

– Entenda, não posso deixar algo incompleto. Nunca fiz isso em minha vida. Preciso terminar o que comecei.

–Muito bem, Patrícia. Você poderá voltar por apenas alguns minutos. Ordem dos céus. Faça o que tem de ser feito e retorne para nós com a alma livre.

Eu abri a boca para agradecer mas o anjo piscou e em seguida me vi sentada em meu sofá, ofegante como se um veto muito forte fosse soprado para dentro de mim.

O notebook estava no chão. Havia escorregado das minhas mãos quando morri.
Se estivesse quebrado tudo estaria perdido para sempre! Eu não teria outra chance.

O coloquei em meu colo, analisando com velocidade. Estava bem, estava perfeito.
Agora vamos, sem demora.
Vamos, Patrícia. Vamos!

O Orkutt finalmente pareceu colaborar, pois a página foi atualizada com sucesso e sem interrupções.

Lá estava ele, onde eu o havia deixado.
Terceiro Desafio da NRA. Era o último que faltava.
Eu precisava saber de todas as histórias. Jamais comecei um livro e o abandonei, não iria fazê-lo com aquela coletânea de textos.

Senti minha cabeça flutuar.
Oh, não, esperem um pouco!
Ainda não deu tempo!

Rolei a barra e li com sofreguidão, arfando de emoção.
Sim! Sim! Agora eu poderia ser feliz! Agora eu poderia morrer em paz e desfrutar da glória eterna. Eu me sentia completa!
A última frase penetrou a minha mente no exato momento do meu último e tranqüilo suspiro.

“E eles viveram felizes para sempre”

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