domingo, 20 de fevereiro de 2011

Amor em Chamas






A proposta do QUARTO DESAFIO é criar uma cena contextualizada no século XVIII.


*preciso nem dizer que tá uma coisa LINDA de MORRER esse aqui, né?

Paris, França, abril de 1645

Ela estava deitava no lençol verde-esmeralda de seda pura, cintilante sob a luz cálida do amanhecer.
Sua pele branca, pura como marfim, contrastava com o rubro de seus lábios entreabertos em uma expressão de desejo.
Não era mentira. Ela não representava.
Seu olhar para ele era quente, puro ardor de paixão.

Estavam ali há horas. O céu mudava lentamente de cor, o verde pálido que existia apenas por alguns instantes na madrugada já dava lugar ao azul celeste.
E durante todo o tempo aquele olhar cobiçoso de amor intenso não fraquejara por um segundo sequer.

––É o suficiente por hoje, Mlle. Pradel. – Ele disse em sua voz grave, após dar a última pincelada do dia. ––A luz já mudou.

––As luzes estão sempre mudando, meu caro pintor. –Disse com um sorriso manhoso, em tom ambíguo. ––E sinto que se tornam mais intensas a cada minuto que passo em sua companhia.

Juliette Pradel espreguiçou-se languidamente, sabendo que cada movimento era acompanhado pelos olhos do pintor.

Uma paixão arrebatadora tomara conta da jovem Pradel quando seus olhos se encontraram com os de Gregoire Charriere, o jovem pintor de olhar sonhador e idéias revolucionárias contratado por sua amiga carola, mademoiselle Rochelle, para pintar um retrato da família.

Juliette soubera logo no primeiro instante que aquele jovem jamais seria como os outros franceses moralistas e pudicos que tomavam conta das ruas de Paris naqueles tempos de religiosidade fanática.
Bastaram as poucas semanas em que permanecera na propriedade dos Rochelle para que aquela onda de desejo se transformasse em amor. Depois das horas cansativas pintando aquela família séria, vestida de maneira sóbria, Charriere se encantava com a vivacidade dos pensamentos de Juliette, com as curvas graciosas de seus traços, e lhe explicava com entusiasmo os ideais da revolução renascentista.

Ela estava fascinada, hipnotizada pela liberdade que iluminava os olhos daquele pintor quando falavam sobre os dias turbulentos em que viviam, sobre as idéias sedutoras que aquela revolução trazia consigo. Acender as luzes após tanto tempo na escuridão era tão perigoso quando excitante.

Movida pela amor, Juliette o convidou para sua casa.
Queria um quadro diferente, de uma maneira particular que mostrasse ao idealista Charriere que ela poderia muito bem ser o centro de seu universo.

E assim, todas as manhãs, ela se despia para ele e deitava-se sobre a mesa enfeitada do jardim, sobre os lençóis verdes brilhantes, enquanto ele pintava, admirando sua própria sorte e quase sem temer o que o futuro lhe reservaria se alguém por ventura os descobrisse.

Charriere de tudo fazia para prolongar a pintura. Queria encarar seus olhos, azuis como o céu do meio-dia, enquanto ardiam de desejo. Queria acariciar a pele de marfim, macia sob seu toque, depois de cada sessão.
Gostava das tardes que passava ao lado de Juliette, beijando-a sorrateiramente por trás dos arbustos enquanto sua mãe saía para rezar.
Aos domingos acompanhava a família à missa, à contra-gosto, e ouvia sobre o pecado da carne e o fogo do inferno que purificaria as almas conspurcadas pela luxúria.

Naquela manhã, Juliette parecia mais gloriosa que nunca.

––É melhor que se vista, mademoiselle. – Disse em voz rouca. –Algum criado pode aparecer.

––Gregoire, não sejas fingido. – Ela riu. –Sabes bem que preferes a forca a ter de me deixar partir sem tocar-me.

Ele cobriu a distância entre eles em dois passos.

––Tens razão, Julie. Eu queimaria no inferno todos os dias, com prazer, apenas para tê-la comigo. – Ele disse, tomando-a nos braços. –Por isso queria pedir-lhe algo.

––Sim!

––Sequer sabes o que quero, ma petite!

––O que quer que queiras, hei de querer também. – Ela retrucou. ––Não há nada que me peças que eu seja capaz de negar-te, meu amor.

––Fuja comigo! – Pediu afoito, segurando suas mãos com ternura. ––Fuja comigo esta noite! Bem sabes que teu pai jamais consentiria em nosso casamento e que pouco me importam regras religiosas.

Ela concordou com um beijo, o coração disparado de excitação, e vestiu-se, correndo para o quarto com um suave “je t’aime”.
Encontrar-se-iam a noite e partiriam para longe...

Em sua cama, Juliette estava ansiosa demais para dormir. Ficou a olhar para o teto, imaginando o futuro de amor, as viagens que fariam juntos, as belas imagens que ele pintaria para ela, o tanto que aprenderia com ele. Imaginou que teriam filhos. Muitos.
Talvez eles gostassem tanto das artes quanto o pai. Talvez eles amassem o pai tanto quanto ela o amava...
Eram bons pensamentos, mas insuficientes para tranqüilizar seu coração. Estava agita.

Já era madrugada quando estrondos e gritos fizeram-na saltar da cama e correr para o salão. Estacou subitamente no topo da escadaria, o sangue lhe gelando as veias e um arrepio agourento descendo-lhe pela garganta.

No centro do aposento estava seu pai com uma espada empunhada em uma mão e o quadro inacabado n’outra, um rasgo violento o cortava de lado a lado.
A fúria de Monsieur Pradel era tão intensa que seus olhos pareciam brasas de carvão, negros como as trevas da morte. Com um ódio violento ele mirou sua filha antes de projetar o braço à frente, com toda a força.
Juliette desceu as escadas em desespero.

––Julie. – Charriere gritou no momento em que a espada de Monsieur Pradel transpassava seu peito, o sangue rubro como os lábios de Juliette.

Monsieur Pradel, desconfiado do pintor, investigara sua vida com afinco e o descobrira um revolucionário iluminista, um idealista incorrigível.
Reuniu, então, os vizinhos e o clero, e o surpreendeu na preparação para a fuga.

A fogueira no jardim estava pronta. Alimentada pelas obras impuras de Charriere, as labaredas gigantescas lambiam o céu como a língua do diabo.

Num ato desesperado, Juliette ultrapassou o corpo morto do seu amado e lançou-se nas chamas sedentas de dor.
O amor que lhe queimava por dentro doía mais que o fogo que queimava sua carne.

Naquela madrugada, ironia macabra, as luzes brilhantes, simbolismo da razão, serviram ao propósito do inimigo.
Corpo, alma, luz e labaredas consumiram-se inteiramente, até restar apenas as densas trevas da ignorância.

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