domingo, 27 de fevereiro de 2011

Biblioteca Pública




Vocês deverão escrever uma cena com um pedido de casamento, mas não poderão ser usados os verbos “falar”, “dizer” ou “responder” e nem as palavras “mas” e “então”.


*Desse eu gosto, não sei por que.


A sala da Biblioteca Pública de Piracicujuba estava quente, muito quente.
“Maldito ar-condicionado” Elisa pensou, enquanto arrumava a fileira M da seção de Economia.

Estava um silêncio inquietante, como costumava ser no verão. Ninguém para estudar, ler belos romances ou simplesmente papear com os bibliotecários. Uma solidão de dar dó. Ou medo, como era como era o caso.
Elisa detestava ficar sozinha em qualquer lugar que fosse, ainda mais à noite. E já estava entardecendo.
O sol se punha, tingindo de cores quentes o famoso céu de aquarela de Piracicujuba.

Sim, a noite já viria. E com ela os monstros e os medos de Elisa.
“Por que desisti do meu emprego de babá, meu Deus? Lá eu estaria acompanhada, pelo menos”.
Infelizmente, Elisa sabia exatamente o porquê de abandonar Laís e Pedro Paulo.
Ficar naquela casa, com olhos castanhos tão semelhantes aos de alguém conhecido, seria doloroso demais para ela.

Rafael viajara para o litoral há cinco anos, deixando para trás uma Elisa apaixonada com o coração partido e os sonhos em pedaços.
Quem poderia culpá-la, agora, por sentir arrepiar os cabelos da nuca e, com a espinha gelada, soltar um berro de “SANTA MARIA MADALENA ARREPENDIDA NA BEIRA DA CRUZ, ME SALVE!” ao ouvir soar a voz gutural do distante Rafael?

–Uma noite escura e solitária, Elisa. Quem vai te proteger?

Com o coração descompassado, batendo na garganta e dificultando sua respiração, Elisa controlou-se, espiando entre as estantes. Um braço conhecido surgiu por uns instantes e tornou a desaparecer.

–Ouvindo vozes, Elisa? Vendo fantasmas?
–Sei q-que é você, Rafael! S-saia já d-daí... D-de onde v-você está!
–Claro que sou eu, querida Elisa! A questão é: vivo ou morto?

Com os pêlos do corpo eriçados e o ar pesado deixando-a tonta, Elisa gritou quando a puxaram pela cintura, fazendo-a girar e recostar no peitoral firme e macio que cheirava a éter e ela conhecia tão bem.

–Que susto, Rafael! – Brigou. –Não teve a menor graça!
–Claro que teve!– Exclamou alegremente. – Sua cara de assustada é incrível. Precisava ver seus grandes olhos castanhos. – E caiu na gargalhada. –Do tamanho de um pires.

Elisa se afastou, um tanto deslumbrada por aquela risada gostosa, um tanto surpresa por aquela repentina aparição. Teria vindo para ficar?
Depois de cinco anos. Cinco anos tão longos e quase sem qualquer contato.
Abriu a boca para perguntar, entre triste e esperançosa. Ele a interrompeu.

–Uma vez medrosa, sempre medrosa! – Provocou, recostando-se na estante que ela acabara de arrumar.
–Certas coisas não mudam com o tempo. –Ela sussurrou.
–Eu sei. Você continua medrosa, a Beth continua a mesma avoada, o Paulo o mesmo babaca, a sua tia continua ótima cozinheira...
–E você, Rafael?– Perguntou, encarando os olhos castanhos tão iguais aos dos primos. Olhos que ela não conseguira mais encarar desde que ele se fora. –Há algo em você que não tenha mudado?
–Muitas coisas ainda são como antes, Elisa. Muitas coisas são impossíveis de mudar.
–Sim, você parece o mesmo. O mesmo sorriso de olhos fechados, o mesmo jeito brincalhão, o cheiro de éter de tanto tempo passado no laboratório. Você continua...
––Te amando. – Ele interrompeu, num rompante firme e decisivo. – Não parei de pensar em você esses cinco anos, Elisa. Nunca esqueci o teu rosto, tua voz, teu toque...
––Não, Rafael! – Elisa, quase gritou, escondendo o rosto corado atrás de um livro de Macroeconomia, –Não faça isso. Não de novo, por favor.
––Fazer o quê, Elisa? –Perguntou confuso. –Me declarar, gritar para o mundo o quanto te amo?
––Não. Me iludir. –Murmurou com uma simplicidade dolorosa na voz. – Me fazer sentir segura e feliz... Apenas para depois ir embora e me deixar sangrando. Eu ainda não cicatrizei, Rafael. Não abra essa ferida por favor.

Ela sentiu mãos quentes cobrirem as suas, fazendo-a baixar o livro us centímetros por vez, até poder encará-lo.

–Elisa. Foi por isso que parti. E por isso que voltei.

Ele tomou o livro de suas mãos e colocou cuidadosamente na estante antes de continuar.

–Duas noites antes de ir embora eu fui pedi-la em casamento ao seu pai. Ele não aceitou. Parece que um simples ajudante de laboratório não era homem o suficiente para a filha dele. Eu sabia que se contasse a você haveria discórdia. Você e seu pai brigariam e sua posição seria complicada. Ele ou eu? – Rafael tinha a voz embargada e seus olhos não desgrudavam dos dela.–E eu temi não suportar a sua decisão. Assim, fui para a capital estudar. Trabalhei como um escravo durante esses cinco anos e cada dor, cada minuto de sofrimento e privação valeram a pena assim que pus os pés nesta cidade, como médico graduado e vi a expressão em seu olhar. Eu a reconheceria em qualquer lugar, Elisa.

Sem saber o que pensar, ela perguntou hesitante, procurando ganhar tempo.

–Quando chegou? Como me encontrou aqui?
–Há poucas horas. Minhas malas estão na porta de sua casa.– Ele comentou, casualmente. – Seu pai me indicou o lugar. – Rafael sorriu. – Ele me aceitou, Elisa. E você? Me perdoa? Aceita se casar comigo?

Ela apenas assentiu, sem conseguir falar. Aquela espera e esperança, aqueles anos de saudade valeram a pena.
Na seção de economia da Biblioteca Pública de Piracicujuba, um mais um seriam três na aliança santa do matrimônio.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Amor em Chamas






A proposta do QUARTO DESAFIO é criar uma cena contextualizada no século XVIII.


*preciso nem dizer que tá uma coisa LINDA de MORRER esse aqui, né?

Paris, França, abril de 1645

Ela estava deitava no lençol verde-esmeralda de seda pura, cintilante sob a luz cálida do amanhecer.
Sua pele branca, pura como marfim, contrastava com o rubro de seus lábios entreabertos em uma expressão de desejo.
Não era mentira. Ela não representava.
Seu olhar para ele era quente, puro ardor de paixão.

Estavam ali há horas. O céu mudava lentamente de cor, o verde pálido que existia apenas por alguns instantes na madrugada já dava lugar ao azul celeste.
E durante todo o tempo aquele olhar cobiçoso de amor intenso não fraquejara por um segundo sequer.

––É o suficiente por hoje, Mlle. Pradel. – Ele disse em sua voz grave, após dar a última pincelada do dia. ––A luz já mudou.

––As luzes estão sempre mudando, meu caro pintor. –Disse com um sorriso manhoso, em tom ambíguo. ––E sinto que se tornam mais intensas a cada minuto que passo em sua companhia.

Juliette Pradel espreguiçou-se languidamente, sabendo que cada movimento era acompanhado pelos olhos do pintor.

Uma paixão arrebatadora tomara conta da jovem Pradel quando seus olhos se encontraram com os de Gregoire Charriere, o jovem pintor de olhar sonhador e idéias revolucionárias contratado por sua amiga carola, mademoiselle Rochelle, para pintar um retrato da família.

Juliette soubera logo no primeiro instante que aquele jovem jamais seria como os outros franceses moralistas e pudicos que tomavam conta das ruas de Paris naqueles tempos de religiosidade fanática.
Bastaram as poucas semanas em que permanecera na propriedade dos Rochelle para que aquela onda de desejo se transformasse em amor. Depois das horas cansativas pintando aquela família séria, vestida de maneira sóbria, Charriere se encantava com a vivacidade dos pensamentos de Juliette, com as curvas graciosas de seus traços, e lhe explicava com entusiasmo os ideais da revolução renascentista.

Ela estava fascinada, hipnotizada pela liberdade que iluminava os olhos daquele pintor quando falavam sobre os dias turbulentos em que viviam, sobre as idéias sedutoras que aquela revolução trazia consigo. Acender as luzes após tanto tempo na escuridão era tão perigoso quando excitante.

Movida pela amor, Juliette o convidou para sua casa.
Queria um quadro diferente, de uma maneira particular que mostrasse ao idealista Charriere que ela poderia muito bem ser o centro de seu universo.

E assim, todas as manhãs, ela se despia para ele e deitava-se sobre a mesa enfeitada do jardim, sobre os lençóis verdes brilhantes, enquanto ele pintava, admirando sua própria sorte e quase sem temer o que o futuro lhe reservaria se alguém por ventura os descobrisse.

Charriere de tudo fazia para prolongar a pintura. Queria encarar seus olhos, azuis como o céu do meio-dia, enquanto ardiam de desejo. Queria acariciar a pele de marfim, macia sob seu toque, depois de cada sessão.
Gostava das tardes que passava ao lado de Juliette, beijando-a sorrateiramente por trás dos arbustos enquanto sua mãe saía para rezar.
Aos domingos acompanhava a família à missa, à contra-gosto, e ouvia sobre o pecado da carne e o fogo do inferno que purificaria as almas conspurcadas pela luxúria.

Naquela manhã, Juliette parecia mais gloriosa que nunca.

––É melhor que se vista, mademoiselle. – Disse em voz rouca. –Algum criado pode aparecer.

––Gregoire, não sejas fingido. – Ela riu. –Sabes bem que preferes a forca a ter de me deixar partir sem tocar-me.

Ele cobriu a distância entre eles em dois passos.

––Tens razão, Julie. Eu queimaria no inferno todos os dias, com prazer, apenas para tê-la comigo. – Ele disse, tomando-a nos braços. –Por isso queria pedir-lhe algo.

––Sim!

––Sequer sabes o que quero, ma petite!

––O que quer que queiras, hei de querer também. – Ela retrucou. ––Não há nada que me peças que eu seja capaz de negar-te, meu amor.

––Fuja comigo! – Pediu afoito, segurando suas mãos com ternura. ––Fuja comigo esta noite! Bem sabes que teu pai jamais consentiria em nosso casamento e que pouco me importam regras religiosas.

Ela concordou com um beijo, o coração disparado de excitação, e vestiu-se, correndo para o quarto com um suave “je t’aime”.
Encontrar-se-iam a noite e partiriam para longe...

Em sua cama, Juliette estava ansiosa demais para dormir. Ficou a olhar para o teto, imaginando o futuro de amor, as viagens que fariam juntos, as belas imagens que ele pintaria para ela, o tanto que aprenderia com ele. Imaginou que teriam filhos. Muitos.
Talvez eles gostassem tanto das artes quanto o pai. Talvez eles amassem o pai tanto quanto ela o amava...
Eram bons pensamentos, mas insuficientes para tranqüilizar seu coração. Estava agita.

Já era madrugada quando estrondos e gritos fizeram-na saltar da cama e correr para o salão. Estacou subitamente no topo da escadaria, o sangue lhe gelando as veias e um arrepio agourento descendo-lhe pela garganta.

No centro do aposento estava seu pai com uma espada empunhada em uma mão e o quadro inacabado n’outra, um rasgo violento o cortava de lado a lado.
A fúria de Monsieur Pradel era tão intensa que seus olhos pareciam brasas de carvão, negros como as trevas da morte. Com um ódio violento ele mirou sua filha antes de projetar o braço à frente, com toda a força.
Juliette desceu as escadas em desespero.

––Julie. – Charriere gritou no momento em que a espada de Monsieur Pradel transpassava seu peito, o sangue rubro como os lábios de Juliette.

Monsieur Pradel, desconfiado do pintor, investigara sua vida com afinco e o descobrira um revolucionário iluminista, um idealista incorrigível.
Reuniu, então, os vizinhos e o clero, e o surpreendeu na preparação para a fuga.

A fogueira no jardim estava pronta. Alimentada pelas obras impuras de Charriere, as labaredas gigantescas lambiam o céu como a língua do diabo.

Num ato desesperado, Juliette ultrapassou o corpo morto do seu amado e lançou-se nas chamas sedentas de dor.
O amor que lhe queimava por dentro doía mais que o fogo que queimava sua carne.

Naquela madrugada, ironia macabra, as luzes brilhantes, simbolismo da razão, serviram ao propósito do inimigo.
Corpo, alma, luz e labaredas consumiram-se inteiramente, até restar apenas as densas trevas da ignorância.

Assuntos Inacabados





O terceiro desafio, espero que todos gostem, consiste em escrever uma cena que comece com “Não acredito que morri justo agora!” e termine com “Felizes para sempre.”

*esse não tem nem como reciclar de tão ruim que tá, mas tudo bem.


“Não acredito que morri justo agora!” Pensei, furiosa, enquanto caminhava de um lado para o outro no corredor apertado e escuro. “O que eu vou fazer? Não posso continuar minha vida... Bem, minha morte... Sem saber! Eu preciso voltar. De alguma forma, preciso saber!”

Passos soam atrás de mim. A escuridão é enorme e eu sequer consigo enxergar as pontas dos meus dedos.
Quer dizer, eu ainda tenho dedos, certo?
Depois que a gente morre a gente ainda é gente?
Alguém (ou algo) toca meu ombro com suavidade.

–Seja bem-vinda, Patrícia! – Diz uma voz espectral.

Eu me viro para encarar o interlocutor. Ele brilha. É bonito.
Um anjo? Será que eu brilharei assim também?
Balanço minha cabeça, afastando aqueles pensamentos curiosos.
Eu não quero ser igual a ele. Eu não quero ser bem-vinda.
Eu quero viver. Viver para ver, para saber!

–Bem-vinda? – Minha voz irritada ecoa pelo corredor escuro e sem paredes. –Bem-vinda? Você está brincando comigo, certo? Como eu posso me sentir bem-vinda quando vocês me matam no momento mais crítico da minha vida?

–Nós não a matamos, minha amiga. – Retrucou com simplicidade. –Você morreu porque foi chegada a hora. Aquiete seu coração, abra-se para esta nova e maravilhosa experiência. O que você chama de morte, na verdade é vida eterna!

–Escute aqui, camarada, seria encantador estar morta e viver eternamente, em uma outra ocasião, ok? Mas agora, neste momento, eu preciso voltar lá! Preciso!

–Patrícia, Patrícia, não entende o milagre que está para acontecer? Verás o Salvador! O que te prende ao mundo, minha cara? O que teima em interromper a maior glória que alguém poderia desejar?

Sinto-me envergonhada. Com certeza é um anjo. É bonito demais para não ser.
E sabe o que estou pensando, eu tenho certeza. É apenas educado demais para revelar.
Eu deveria seguir com minha... Morte. Ficar em paz. Na glória eterna, como ele diz.
Mas esse desejo humano, essa necessidade horrível de fazer minha própria vontade queima minha carne... Carne ectoplasmatica? Eu ainda tenho carne? Sinto como se tivesse, mas não posso ter certeza.
Patrícia, concentre-se!
Isso não importa! Nada importa. Você apenas precisa voltar lá!

–Escute, me mande de volta! Por favor! Eu preciso saber, eu preciso... Não posso morrer assim, na ignorância!

O anjo me olhou, provavelmente analisando meus pensamentos.

– Entenda, não posso deixar algo incompleto. Nunca fiz isso em minha vida. Preciso terminar o que comecei.

–Muito bem, Patrícia. Você poderá voltar por apenas alguns minutos. Ordem dos céus. Faça o que tem de ser feito e retorne para nós com a alma livre.

Eu abri a boca para agradecer mas o anjo piscou e em seguida me vi sentada em meu sofá, ofegante como se um veto muito forte fosse soprado para dentro de mim.

O notebook estava no chão. Havia escorregado das minhas mãos quando morri.
Se estivesse quebrado tudo estaria perdido para sempre! Eu não teria outra chance.

O coloquei em meu colo, analisando com velocidade. Estava bem, estava perfeito.
Agora vamos, sem demora.
Vamos, Patrícia. Vamos!

O Orkutt finalmente pareceu colaborar, pois a página foi atualizada com sucesso e sem interrupções.

Lá estava ele, onde eu o havia deixado.
Terceiro Desafio da NRA. Era o último que faltava.
Eu precisava saber de todas as histórias. Jamais comecei um livro e o abandonei, não iria fazê-lo com aquela coletânea de textos.

Senti minha cabeça flutuar.
Oh, não, esperem um pouco!
Ainda não deu tempo!

Rolei a barra e li com sofreguidão, arfando de emoção.
Sim! Sim! Agora eu poderia ser feliz! Agora eu poderia morrer em paz e desfrutar da glória eterna. Eu me sentia completa!
A última frase penetrou a minha mente no exato momento do meu último e tranqüilo suspiro.

“E eles viveram felizes para sempre”

Interrupção

Crionças queridas,

Interrompendo minhas postagens sobre os desafios das ONRA rapidinho aqui, só quero informar que Nas Tuas Veias foi retirado dos sites do Clube de Autores e da Bookess por motivo de força maior. Força bem, bem, bem maior!
Em breve explico o motivo e trago novidades muuuuuuuuito especiais.

Beijos!!!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Amor é Ridículo






O SEGUNDO DESAFIO
Criar uma cena que faça rir


Ok. Isso foi muito difícil e nem revisando eu acho que ficou bom, mas tá valendo. Eu disse que ia postar todos, então... Vou tentar não cometer suidídio depois de postar essa droga.


––Quem é o amoquinho da minha vida? Quem é o meu amor? – Ele perguntou naquela “voz para bebês” completamente irritante e eu revirei os olhos.
––Sou eu, meu amoco mais perfeito! – Ela respondeu. Dessa vez o que revirou foi meu estômago.

Meu irmão e sua namorada acabavam com minha beleza (e minha saúde mental) sempre que começavam aquelas longas e terríveis conversas de amor.
Era um sem fim de apelidos toscos, vozes esganiçadas, olhares melosos e expressões de cabeça-oca.
Bizungo, Bubu, “Nheném”, Tchuco, Dengosinha, Peixinho, ‘Gotoso”, Bebê, Chuchu, Bolinha, Pompom, Tigrão, Pimpolha, Anjinha, LGT (que eu tenho medo de descobrir o que significa) e o clássico “Amoco/Amoca”.

Meus olhos lacrimejavam com a intensa dor psicológica que essas cenas me causavam. Assistir filmes com eles? Enquanto a minha simpática cunhada se debulhava em lágrimas e ele enxugava o nariz dela seu olhar era como o de quem estava colhendo o mais puro néctar das flores mais raras do mundo? Não, eu acho que dispenso, obrigada.

Naquela noite, porém, nós estávamos trancados em casa, sozinhos e eu não tinha muitas opções a não ser desfrutar da companhia.
Ou isso ou me jogar da minha janela.
Eu moro do 13º andar.
E essa opção era muito mais atraente pra mim, acredite.
Infelizmente a dor de me perder provavelmente só faria meu irmão mais sensível, idiota e apegado aquela namorada grudenta dele, de modo que eu resisti ao impulso de me libertar dos dois e sair de braços dados com a Morte.

Chovia muito lá fora e era impossível sair de casa.
Para completar a boa sorte, como nada funciona nessa porcaria de cidade quando o céu desaba, faltou luz.
Merda.
Isso com certeza daria idéias nada boas para aqueles dois.
Eu tentei tapar meus ouvidos mentalmente (sim, isso é possível) para os gemidinhos nojentos e as declarações indecentes, enquanto tateava no escuro a procura do armário onde mamãe guardava as velas.

Quando finalmente achei as velas e voltei para a sala quase morri do coração ao ver uma quarta pessoa entre nós.
Não era um fantasma.
Não era um assaltante.
Não era Jesus Cristo.

Era o Paulo, vizinho gostoso do 1304. O cara que eu paquerava há quase um ano.
Ignorei o instinto que impulsionava a deixar cair a vela no tapete, colocando fogo no apartamento inteiro, e pigarreei para afastar o casal sem-vergonha que se pegava no sofá de um jeito quase criminoso.
O sofá onde eu assistia minha novela, meus filmes da Disney, meus desenhos animados!
Aquilo ia além do nojento.

––O que é, Carla? – Raul me perguntou com sua cara amassada por beijos em uma expressão de irritação. Eu havia interrompido um sublime momento de amor. Que malvada que eu sou.
––O que é? – Eu sibilei, um tanto tensa. ––Pra começar, pare de tentar engravidar sua namorada no sofá da minha sala e, pior, na minha frente. – Resmunguei. ––Oi, Paulo, tudo bem?
––Tudo, Carla. – Ele respondeu e sua voz me fez tremer um pouco. ––Eu estou sem velas, você pode me emprestar algumas?
––Claro, vem comigo. – Eu lhe sorri, tentando andar sem que minhas pernas bambeassem. ––E vocês dois, mantenham uns bons metros de distância um do outro, ok? Se eu assistir a uma cena como essa de novo, meus olhos vão derreter.

Paulo caminhou ao meu lado, conversando animadamente sobre como achava bonito o amor do meu irmão.
Tentei não bufar, revirar os olhos ou rir da cara dele.
Afinal, era o vizinho gato por quem eu tinha uma queda. Ninguém, em sã consciência, acharia todos aqueles apelidos bonitinhos, fofinhos, lindinhos.
Era grudento. Meloso. Nojento. Ridículo.
E amar causa sérios danos às faculdades mentais de uma pessoa. Eu era testemunha ocular daquilo.
Paulo não podia estar falando sério.
Ele provavelmente só estava querendo puxar papo comigo. E nada era mais óbvio naquele apartamento que a pegação melosa e descontrolada dos pombinhos.

––Então... – Ele começou. ––... Eu não te vejo muito por aqui com seu namorado.
––Eu não tenho namorado. – Retruquei, procurando as velas e sentindo meu coração martelar no peito.
––Ninguém pra te chamar de “amoca”? – Perguntou com um sorriso e eu ri de como “amoca” parecia ainda pior na sua voz grave e máscula.
––Não, não tenho. – “Graças a deus, não.” Eu pensei, sentindo vontade de chorar de angústia só de imaginar alguém me chamando assim.
––Que bom saber.

Ele disse, me enlaçando pela cintura com um aperto firme.
Paulo me beijou inesperadamente e nós nos esquecemos completamente das velas.
Era meu momento perfeito, no meu paraíso particular, no meio do caos assustador que era São Paulo quando desabava uma chuva torrencial como aquela.
Por mim, tudo bem, estava ótimo assim!
Até que ele parou, me olhando bem nos olhos, com uma intensidade que me fez tremer.

––Acho que encontrei a princesa que estava procurando! – Falou num sussurro apaixonado. ––Quer ser a princesa deste nobre cavaleiro?

Meu sorriso despencou uns quatro andares.

––Quer ser, minha princesa, pirulita? – Perguntou mais uma vez, com um sorriso maior do que antes e uma voz estúpida de bebê que poderia me fazer vomitar. ––Tanto tempo querendo seu amor, bebê! Vamos ter uma vida inteira de felicidade, não vamos, meu chuchu? Ah, vamos sim, minha gatinha, vamos sim! Vem cá, dê um beijo no seu príncipe encantado, dê.

Ele me agarrou mais uma vez, enquanto o horror daquela descoberta se infiltrava em mim. Meu Paulo. O gato que eu havia idealizado por anos, que eu tentava seduzir, que me fazia corar com um só olhar... Aquele cara forte, inteligente, tão bonito e aparentemente sério.
...
Ele era patético! Totalmente grotesco. Uma caricatura estúpida de tudo que eu mais detestava naqueles romances enjoativos e melosos.
Meus sonhos estavam destruídos.
Santo Deus, eu sempre soube que o amor era ridículo, mas aquilo ali já era sacanagem!

Duas semanas depois as minhas cartas de amor começavam com “Meu querido pirulito” e terminavam em um adoravelmente meloso “te amo mais que tudo na vida”.
É, ninguém escapa do ridículo quando se trata de amor.
Nem mesmo “a princesa pirulita mais linda do universo”.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

JELL-O


O PRIMEIRO DESAFIO
É o seguinte: uma cena de beijo.

*Revisado



––Puta que pariu!

––Olha o escândalo, Ceci. – Ele reclamou, olhando para os lados com medo do vexame.

––PUTA QUE PARIU! – Berrei a plenos pulmões, sem cerimônia. ––Porra, Marcelo, você comeu todas as de uva! Não deixou umazinha pra mim!


––Foi sem querer. Não percebi que estavam acabando.


––“Não percebi. Não percebi”. – Grunhi para ele, irritada. ––Você sabe que eu adoro as de uva.

––E eu também. – Deu de ombros, perdendo a pose de bom-moço e puritano. ––Da próxima vez vou tentar me lembrar de dividir.

––Sacana! Não posso me distrair um segundo...


Devolvi seu sorriso cínico com um murro forte no ombro.

Em um gesto automático ele largou o saco de Jell-Os para massagear o braço.

Puta que pariu!
Eu havia pagado caro por tudo aquilo, cara!


Agora a grama verde-esmeralda do parque estava coberta de dezenas de balinhas coloridas que cintilavam à luz do sol.
Eu me levantei, pisando nas balinhas.
Era uma sensação engraçada, a consistência gelatinosa era gostosa ao toque dos meus pés descalços.


Mas nada era tão bom quanto comê-las. E agora eu não poderia. Por culpa de Marcelo.


––Opa! – Ele riu. ––Põe na minha conta, Ceci.

Eu apenas lhe lancei um olhar de fúria gélida. O meu auto-controle refinado permitiu que minhas mãos se mantivessem paradas ao lado do corpo, ao invés de apertadas na garganta do infeliz do Marcelo.


Para você ter uma breve noção do quanto eu amo Jell-Os.

––Às vezes você me tira do sério, Marcelo. De verdade!

Calcei minhas sandálias e recolhi meus livros da escola, pisando duro, com um enorme bico de birra e pronta para ir embora sem dar tchau.


––Ceci... Cecília, espera!


Marcelo me segurou pelo braço, sua pele morena em contraste com a minha super-pálida. E com as porras dos Jell-Os que estavam sob nossos pés.

––Desculpa, sério! Vou compensar. – Prometeu, de uma maneira não muito convincente, enquanto eu me concentrava em não obrigá-lo a comer cada Jell-O caído no chão. ––Passa lá em casa antes da aula de piano?

––Pra quê? Quer roubar as balas que levo para o lanche? – Fiz birra infantilmente.


––Não. – Ele riu, o sacana. ––Quero ir com você. Não vive dizendo que sou o pior amigo do mundo porque nunca te ouvi tocar, que não valorizo seu talento?


––Quer compensar o roubo das minhas Jell-Os indo para uma aula de piano? – Eu perguntei incrédula. ––Você?


Ele riu e me deu um tapinha na testa.


––Eu vou estar esperando.


*


––Marcelo, o que você pensa que está fazendo?

Minha voz soou irritada, mas eu estava verdadeiramente curiosa.
No momento em que eu entrei em sua casa, Marcelo tapou minha visão com suas mãos grandes e macias.
Agora eu andava guiada por ele, com as mãos para frente tateando o nada.
Que tipo de coisa maléfica ele estava aprontando para me irritar mais uma vez?
Esse menino não tem vida social? Outros amigos para infernizar?

––Marcelo Landeiro, se eu me machucar por sua causa a dívida das balas será a menor de suas preocupações. –Ameacei, me apegando à lembrança das balas desperdiçadas para me manter irritada. Não queria lhe dar o privilégio de me ver curiosa. Aquele garoto já tinha efeitos devastadores demais sobre mim.


––Não se preocupe. Se você cair, será no macio. – Ele riu sua risada malandra, as mãos gentilmente deslizando para o meu pescoço enquanto caminhávamos. ––Me desculpe, Ceci.

Meu próximo passo afundou alguns milímetros em algo gelado e escorregadio.
Abri os olhos.


O chão da sala estava coberto por Jell-Os de uva.

O sofá, a televisão, tudo estava colorido, brilhante e perfumado pelas balas.

Eu me virei para encarar os olhos de Marcelo e perguntar o que, diabos, ele estava pensando. Não tive tempo de falar.
Seus lábios se colaram aos meus com suavidade, o cheiro doce do ar ao nosso redor enchia meus pulmões e suas mãos deslizando pelos meus braços eram mornas e firmes.
Enrolando-se pela minha língua, seu beijo tinha gosto de uva.

Ele afastou os lábios dos meus por uns instantes e sorriu.


––Vê? Eu disse que podíamos dividir.


“Puta que pariu!” Berrei mentalmente antes de agarrá-lo com intensidade.

Nunca pensei que algo assim aconteceria entre nós.


Pra você ver o quanto eu amo Jell-Os.

ONRA





É isso aí, galerinha sangue-bom.
Não, eu não escrevi errado. ONRA nada mais é que a sigla para Olimpíadas Nossos Romances Adolescentes. Comunidade do Orkut que reúne os melhores (e eu digo MELHORES MESMO) jovens autores brasileiros.


Como sempre, cá estou eu dando a notícia com meses, quase séculos, de atraso indesculpável. Mas vale a intenção.

Criada recentemente nas férias de verão (que infelizmente estão acabando cedo demais), as ONRA propõe diversos temas para os escritores da comunidade, é feita a postagem sobre o determinado tema (máximo de dois posts na primeira fase) e em seguida é aberta uma enquete para votação. Simples assim.
Um deleite para leitores ávidos, como eu.

Os primeiros cinco desafios já aconteceram e a segunda fase teve início na última sexta-feira. Quem quiser conferir, basta usar este link: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=42996106&tid=5560580178292818294&start=1

Por que eu estou divulgando agora?
Porque eu tenho um raciocínio lento e as bobagens sempre tem prioridade na minha mente.

E como o disse o Doug (escritor, maravilindo que eu adoooro), "É uma honra participar das ONRA". De modo que creio que todos devem saber o quão legal e divertido é estar lá, principalmente como leitor.

Meus próximos posts serão as cenas que criei para a competição, então eu realmente espero que vocês gostem. E não deixem de conferir os enormes talentos que expõe seus trabalhos na NRA.

Beijos e Tofu (que não tem lactose)

Até o próximo post.

Ps: acho que essa postagem ficou meio confusa, mas não me culpem. provavelmente é a pressão de voltar às aulas na segunda-feira.