quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pirlimpimpim



A trágica constatação do dia


Era minha outra metade da laranja.

Pena que ele era cravo e eu era lima.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Calado! É segredo...



Quem ama em segredo cala palavras, mas se denuncia pela expressão. Se declara em gestos e atitudes que o amor, por ser amor – que, todos sabem, é ridículo-, simplesmente não pode evitar.

Amor calado se declara num olhar demorado, com aquele brilho a mais. No toque carinhoso, absolutamente desnecessário, e na maneira de cuidar, de longe, sem pedir nada em troca. Fica evidente na mudez súbita, na total incapacidade de articular, com decência, uma frase coerente perto do ser amado. Amor calado se denuncia pelo calar.

Então preste atenção nos sintomas. Quando olhar ao redor, atente para aquela pessoa que se cala ao seu lado. Às vezes não é por tédio, desagrado ou falta de assunto. Às vezes é simplesmente medo de que, ao abrir a boca, escape alguma borboleta que revele seu segredo.

Amar quietinho, sem dar na vista, é motivo de discórdia dentro do próprio peito. Entre medo e ânsia, fraqueza e necessidade... Amar calado nem sempre é ser covarde. Claro, às vezes, de fato, o querer é tão grande que assusta, emudece e faz vacilar. Covardia é prolongar, por puro receio, a hesitação em um pit-stop eterno em cima do muro.  Em alguns casos o apaixonado é guiado pela timidez que pode paralisar no momento crucial, na curva perfeita para a ultrapassagem de um temerário mais esperto. Há vezes, porém, em que é questão de respeitar quem lutou muito antes por aquele coração e manter para si mesmo o amor que nasceu no seu. E, se servir de consolo, isso é ser forte.

Quem ama calado ri, chora, alucina algumas vezes, mas sempre internamente, sem bagunçar o cabelo. Vitórias e derrotas são represadas no peito, escapando com uma risada histérica ocasional ou uma lágrima aleatória. Mas sempre intimamente sentidas, esperando o momento certo, quando as borboletas deixem de dançar rumba com tanta animação, o coração desacelere um pouco, pra poder se revelar. Ninguém pode se esconder pra sempre. Não sem enlouquecer.

Por isso quem ama em segredo deseja, sem querer desejar, que alguém se dê conta que ama, pra poder desabafar. Pra manter a sanidade. Porque silêncio que grita alto não dói na garganta, machuca é o coração. E ninguém grita mais forte que amor silenciado.  Escute com atenção. Um coração pode estar chamando por você.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Que foi, foi...




Foi amor bonito, e não foi pouco não! Daqueles que batem na parede do peito, rasgando feito papel de seda, e vão caindo, caindo, caindo pela alma adentro, sem fundo, sem nada... Caindo com tudo no que era vazio e ficou cheio de cor, de cheiro bom, de gosto da fruta preferida tirada do galho mais alto.

Foi pouco amor não, e foi bonito demais da conta, sim senhor! Bonito daquele jeito que até dói de tanto brilho que tem, que ganha até de supernova, ganha de explosão solar. Mas é luz boa, não cega não. Porque amor que é amor não é cego, sabe é amar os defeitos, que vê bem direitinho, mas chama de “qualidades ruins” pra não magoar o coração onde foi morar.

É. Foi amor pra mais de metro, de quilômetro, de rastro de poeira estelar. Daquele tipo que percorre cada pedacinho de estrada, enche o tanque, pega ônibus, carona, vai a pé... Qualquer coisa! Só pra chegar, meio atrasado, no destino aonde o coração já chegou, ó!, faz tempo! Destino que não é final, é começo. Começo de caminho novo, onde a carona de um é o outro, porque nada é combustível melhor que amor.

É. Foi mesmo. Foi amor, inteirinho, de cabo a rabo, de frente e de costas, virado do avesso, de cabeça pra baixo... Pode revirar todinho que não tem outra explicação. Era amor. Foi amor.

Mas daí, não sei bem em que ponto da estrada, parei pra descansar. Só um pouquinho. A sesta, sabe como é, porque caminhar no ritmo do amor às vezes cansa um bocado. E eu cochilei, debaixo de um pé de qualquer-coisa, numa sombra gostosa e muito confortável, boa mesmo pra preguiça. E quando abri de novo os olhos ele já estava longe, bem longe. Num passo tranquilo, se foi. Ele quebrou numa curva e foi...

E aí foi indo, indo, caminhando como caminha no céu nuvem cinzenta de tempestade. Foi indo, indo, até chover temporal de tristeza, inundando o mundo de saudade.
Saudade que lavou a estrada de terra batida e os becos sem saída da cidade, que fez poça pra criança brincar, que alimentou os frutos daquela árvore que ainda nem brotou, de tão intensa que foi a chuva de amor. É, foi. Foi pra sempre? Não sei.  

Que foi, foi, disso eu sei. Mas pode ser que volte, né mesmo? Se chuva deixa de presente o arco-íris e depois volta para encharcar a terra, por que o amor, que deixou comigo tanta saudade, não pode chover, de novo, a esperança em meu peito?

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Cuánto Dura Un Tema




En una tarde ociosa
Decidí pensar en la vida
Sobre lo que me encantaba
Y todo lo que descubría.

Me acordé de algunas historias
De las muchas ya conocidas
Y descubrí que al final
Era distinto el sabor que tenían

Me acompañaba la tristeza
En esa tarde vacía
Para alejarla, abrí mi alma
Y lo llené de poesía.

Revolcando mis recuerdos
Me choqué con algunos hechos
Que borraron mis ideas
De extremos blanco&negro.

Percibí que hay en el tiempo
Matices que tiñen la historia
Cambiando los colores
Y los gustos de mis memorias.

Algunas empezaban tan tristes
Que hacían sangrar el corazón
Pero en un rato, un nuevo compaso
Se transformaban en bonita canción.

A los pocos percibí
Que hay sabor en el vacío
Como lo hay en el silencio
Entre las notas de un estribillo.

Y que muchos sentimientos
Caben en el espacio de una canción
Y que aunque se sientan eternos
Pocas veces de hecho lo son.

Descubrí que en pleno invierno
Puede haber noches de primavera
Y la calidez entre los cuerpos
Por un momento es verdadera.

Sin embargo percibí
Que algunas veces el beso  es puñal
Pues por bello que fuera el tema
Era amarga la nota final.

Y de lo mucho que no sabía
El que más dolor me causó
Fue descubrir que un tema
Dura más que tu amor.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A bem da verdade, minto



Minto
Porque o tempo existe
Porque a saudade insiste
Em não me deixar.

Minto
Para que o sentir desapareça,
Para que se manche a pureza
Do meu inocente querer.

Porque o amor que é puro
Reflete no olhar a verdade
Que a mórbida humanidade
Dá de alimento ao sofrer.

Porque ao arder a ausência
É em chamas consumido
Lançado ao fogo do olvido
Incinerando o amor.

Sim, minto
Porque mente também a verdade
Ao pretender que a felicidade
É possível se eu te esquecer;.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Luz de los recuerdos




Fotografía gris
Color ceniza- del-tiempo
Baila en el aire rojizo,
Coloreado por el fuego
Agente del Olvido.           

Luz sangrienta
Que colorea las tardes vacías
Tiñe de histeria los recuerdos
Que pálidos de muerte
Reflejan opacas impresiones
De todo que ya se fue.

Es el pasado espejo de agua
Donde se miran las memorias
Que, borrosas y confusas,
Se revolotean a la superficie
Pero jamás se acercan a la orilla.
No se las puede tocar.

Mirad los recuerdos con  cautela
El reflejo cristalizado seduce
Las vivas llamas calientes atraen
Pero la fuerte luz del pasado
Te puede cegar sin más.


*A ideia era postar um conto de Halloween, mas infelizmente (devido a uma malfadada semana de provas) não pude concluir o conto ainda. Ele será postado em outra ocasião. =/

domingo, 23 de outubro de 2011

PIRLIMPIMPIM

O versinho açucarado do dia



Seu olhar estava perdido,
Você sequer percebeu
Que parti com o peito vazio
Deixando meu coração com o teu.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Tormenta





Bajo el calor de tu piel
Siento un frescor muy suave.
Desde hacia dentro de ti
Me viene ese rico olor

De tierra mojada
De días fríos y nublados
De viento soplando fuerte
Silbando en mi balcón.

Sabes a lluvia.
Lluvia finita, llevada por el viento,
Que dibuja en mi ventana
El abstracto que es el sentir.

Lluvia blanda, constante,
Que cae a ritmo de canción de amor
Y penetra, tranquila y cuidadosamente,
El terreno fértil de mi corazón.

Gusto a lluvia en la punta de la lengua.
Lluvia fuerte, tempestuosa,
Que derrumba muros y destruye castillos
Hechos de gotas de ilusión.

Lluvia mutable, instable
Intensa y fatal
Mansa y gentil
Que hace fecunda o inunda la tierra.

Mirando tus ojos tormentosos,
Oyendo la sinfonía de las gotas,
Sé que siempre que caiga la lluvia
Sentiré tu sabor en mi boca.

.

Breve, postagens na língua materna! ^^

domingo, 2 de outubro de 2011

El arte




¡Qué perfecto artista!
Casi no puedo creer
Que tanto talento,
Tantas cualidades,
Se encuentran en un solo ser.

¡Qué personaje genial!
Igual yo no puedo crear
Actúa tan bien,
Suena tan real,
Que hasta a Dios podría engañar

Y ¡cómo maneja las palabras!
Con su discurso encantador
Descubre los deseos del corazón
Y con su habilidad de escritor
Manipula el juego de la ilusión.

Es un completo artista
Nadie se puede comparar,
Ni con gestos, ritmos o palabras,
En el arte de ilusionar

Mezclando dulzura y acidez
Y los opuestos que se necesite
Cambia el ritmo de sus historias,
Pone melodía en las cifras mudas,
Al gusto de quién lo escuche.

Y aunque sepa muy bien
Que nada con él es real
Me dejo enredar por sus ojos
Y su brillo de bellas promesas
Cayendo en su trampa fatal.

Es así que actúa en mi vida
Un poco héroe, pero aún más villano,
Perfecto artista, hermoso personaje
No puedo evitar querer su encanto,
No puedo evitar creer en sus cuentos.

Lo más triste de esa historia
Es saber que el artista no siente,
Ni amor, ni pasión, ni culpa.
A lo mejor solo disfruta
Porque le creo cuando me miente.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Pirlimpimpim



O pensamento otimista do dia.


Quando o pulso acelera e as mãos esfriam você tem duas opções: é amor ou é ataque de pânico. Torça pela segunda opção. A primeira é demasiado perigosa.

domingo, 18 de setembro de 2011

Flores de la Quimera



*Apresentando minha primeira postagem em espanhol. Perdoem os erros, fazendo o favor. Finjam que é licença poética.*


Me dormí
Después de perder la razón,
Todavía con tu gusto en mi boca,
Con tu olor en mi piel.

Corría tu pasión por mi sangre,
Tus manos por mi cuerpo,
Tus expresiones por mi mente.

Tenía tu respiración en mi oído
Tu boca posada en mi cuello
Y el peso de tus piernas en las mías.


Era firme tu cuerpo contra el mío,
Era seguro el calor de tu abrazo.
Así me dormí.

Me desperté
Con el latido fuerte de mi corazón
Con la mente en blanco,
Guiada por los sentidos.

Sentía tus huellas en mi espalda,
Tu sonrisa en mis ojos
Y tu alegría pulsando en mi pecho.

Apenas por un rato, nomas.
Detrás mío había la nada,
Mis ojos, turbados, no sonreían
Y en mi pecho un raro vacío.
Así me desperté.

¿Un dulce sueño, quizás?
Sueño de gustos y olores
Sueño de voces y miradas
De risas y toques…

¿Un sueño?
Que hizo sonrojar mi piel,
Que calentó mi corazón
Hasta derretir mi alma…

Pétalos de gozo en las sábanas,
Recuerdos de la noche que te tuve
Sin tenerte.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

De sobremesa, amor.




O sol insistia em brilhar, mesmo um pouquinho antes de morrer no horizonte, dando um tom alaranjado a tudo que podia tocar. Parecia doce, a imagem. Doce de laranja em compota, ela pensou. E sentiu fome. Mas uma fome boa, diferente. Fome de vida e de paisagem bonita, fome de doce, também, mas principalmente de vê-lo derreter-se naquele pôr-do-sol alaranjado. Chocolate com sol. Sol em calda, sol em compota.

Ele a encarava, fascinado, enquanto o sol escorria pela borda do dia e coloria e sombreava, tudo ao mesmo tempo, aquele rosto delicadamente pálido. Também lhe parecia doce, a imagem. Aqueles olhos cor de açúcar queimado, cabelos de caramelo, boca pequena vermelho-cereja. E a pele branca de suspiro. Ele também suspirou. E quis devorá-la. Mas devorá-la devagarinho, saboreando o gosto bom do sorriso açucarado e olhar derretido de amor.

Eles se encararam e algo em seu peito pulou. Também tinha fome. Mas era fome dela, fome de sentimento bom, de sonhos a dois, de mais tardes ensolaradas com doce-de-sol-em-calda. Com massa caseira de paixão, recheio de cremoso duplo de mimos e cuidados, cobertura de carinho transbordando pelo prato de beijinhos, e até uns granulados de ciúme, mas bem pouquinho, só pra enfeitar.

Sentiu que seu olhar se derretia também, enquanto as estrelas apareciam de mansinho, como açúcar cristalizado polvilhando torta-de-céu, e ela desviava timidamente o olhar para o mar.

Meiga, meiga, doce, doce... Que fome, meu Deus! Que doçura de menina! Tomou sua mão (mais um suspiro!) e beijou delicadamente, um tanto tímido, um tanto inseguro, quase com medo de desfazer o confeito.

Ela sorriu açucarado e imitou o gesto, degustando o calor suave de café-com-leite. De repente, também sentia fome dele. O sol já se fora, mas o perfume de chocolate ainda estava no ar. Era dele.

Ele também lhe sorriu, sorriso de sorvete de coco, não frio, mas saboroso. E surgiu a ideia assim, do nada, quando aquela fome de tê-la pertinho já era tão grande que até doía o peito (era fome que dava no coração). A noite estava quente como pudim recém-saído do forno. Ela aceitaria tomar um sorvete?

Sua resposta foi chegar mais perto, bem pertinho. E parecia que aumentavam a temperatura do forno, mas na verdade o calor vinha de dentro. Ele a tomou nos braços e então já estavam juntos, bem juntinhos. E foram derretendo, derretendo, até as bocas estarem muito próxima, coladinhas com recheio avermelhado de amor. Num beijo doce, viraram casadinho.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Decifra-me ou não te devoro



Desvenda-me.
Observa atentamente as linhas que delineiam meu corpo, a suavidade dos traços, a harmonia dos detalhes, mas não esqueça as imperfeições. Os deslizes do esboço estão presentes na arte-final. Então acompanha o desenho das minhas curvas, desliza pelo macio da minha pele, decifrando os sinais que marcam minha história. Aprecia esse calor que transborda do meu corpo e desfruta do perfume que se espalha no teu. Tem meu cheiro na memória.

Desnuda delicadamente as formas do meu querer. Desfaz, sem pressa, os laços de pudor que atam minhas ideias menos convencionais. Observa atentamente enquanto caem, uma a uma, as peças que compõe o figurino da minha política. Entende que cada peça sou eu, mas que existem muitas de mim sob cada camada. Encara meus olhos de pedra, de aço, de cores que dançam, de lágrimas que encharcam. Descobre as combinações, das melhores às mais absurdas, de olhares e formas. Mergulha em meu olhar denso de segredos, iluminado de sonhos, ressaqueado de anseios. Afoga-te em mim.

Decifra meus trejeitos, se são sinais ou pura displicência, se são manias ou gestos calculados. Trata de observar as nuances do meu humor, a veracidade dos sentimentos, se estou de máscara ou de cara lavada. Percebe os efeitos que causa em mim. Aqueles que eu demonstro e, sobretudo, os que tento esconder. Descobre quando é o motivo do meu sorriso. Encontra em mim algumas partes de ti.

Descobre o que eu não sou. O não-ser também faz parte de mim. Então conhece meu avesso, o inverso do meu querer, do meu sentir, do meu pensar. Observe o que eu desgosto, analise o gosto que tem.

Decifra-me... Busca meus motivos, minhas facetas, minhas fases. Busca meus sorrisos, minhas dores, meu tédio, meus figurinos, minhas expressões, minhas frases prontas. Tente adivinhar o meu porquê. Tem sede de mim, me abre o apetite de você.

Decifra-me ou a esfinge te deixará partir. E esse seria o frustrante final da sua aventura. Voltar para casa sem histórias, sem perfumes, sem sabores, sem respostas. Voltar sem nada quando poderia ser devorado incontáveis vezes pelo arcano do amor e descobrir mais de ti enquanto desvendava os meus mistérios.

Eu te convido a decifrar meus segredos e a deixar que eu me perca nos seus. Não importa muito que encontre as respostas, há mistérios que são simplesmente insolúveis. Mas tente decifrá-los, é a busca o que realmente interessa.

Se entregue à esfinge, deixe-se devorar. Seja o sabor em minha boca.

domingo, 4 de setembro de 2011

Pirlimpimpim





O pensamento incoerente da madrugada.


Vou comer estrelas até que meus olhos brilhem tanto quanto seu sorriso.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Heranças (ou De histórias e galinhas)



Quando olho para uma galinha, eu me lembro da minha mãe.
Talvez isso soe um tanto estranho para a maioria das pessoas, dada a fama que as pobres galinhas receberam na sociedade atual, mas quem viveu bem sua infância pode compreender que as associações que uma criança faz ficam marcadas por toda a vida.

E eu associava minha mãe a uma galinha. Mais precisamente à Galinha Ruiva, mamãe amorosa e trabalhadora, do meu conto infantil preferido no mundo todo. E que fazia minha mãe (e tias e primas) repetir até que perdesse a voz. Aí ela tinha que prosseguir com mímica. E, acredite, a imagem da Galinha Ruiva arrepiando-se de fúria ante os preguiçosos animais da fazenda ainda me faz arregalar um pouco os olhos de pavor.

O amor pela literatura, creio, nasceu comigo como uma doença genética (o que mais podia se esperar da filha de uma professora de português?). Pontos, vírgulas e travessões me encantavam antes mesmo que eu soubesse como manejá-los, quando apenas davam o tom das histórias que eu ouvia antes de dormir. E não eram poucas.

Se por um lado eu fazia minha mãe se esfalfar de tanto imitar uma galinha, fazer voz de pato, cachorro, gato, ler contos de fadas e livretos infantis, por outro, sugava horas e horas de descanso do meu pai, obrigando sua imaginação a trabalhar loucamente na construção de histórias originais e mirabolantes. Como a das três ursinhas (sempre eram três, aludindo às suas lindas filhotas) que quebraram a moto na floresta enquanto iam ao supermercado colher potes de geleias para rechear tortas do concurso culinário da vila. Sim, a tendência dramática surrealista também é genética.

E se ele adormecia antes de contar o final, eu tinha um método muito eficaz para despertá-lo, puxando-lhe o nariz com certa impaciência. Como se pode notar, determinação é uma característica bastante marcante da minha personalidade desde então. Claro que, em consequência, sinto que sou a causa dos atuais problemas de insônia do meu papi. Ele meio que se acostumou a ser despertado no meio da noite, acho.

Depois de pegar o gosto pela repetição (o que deve ser culpa minha, admito), há muitas frases que meus pais costumam dizer- e se você deixar eles repetem mais que o refrão chato de “É isso aí” da Ana Carolina - uma delas é que nada é mais importante que o conhecimento e que é esse seu legado para nós (minhas irmãs e eu). De ponto em ponto, palavra em palavra, conto em conto, construí meus valores, meu caráter, minha história. Metade construção, metade herança de família.

Tenho de herança antecipada as interrogações do meu pai e os pontos da minha mãe. As vírgulas da minha avó, os parêntesis dos meus tios, as aspas das minhas primas e as exclamações das minhas irmãs. Tudo no meu eu textual. Não me admira que eu seja tão prolixa.

Herdei um tapete voador e uma lâmpada mágica, ratos costureiros e carruagens de abóbora.
Herdei objetos falantes e uma rosa encantada, cavalos alados e força mítica.
Herdei plumas, bico e ovos de ouro.
Mais que histórias, herdei mundos, vidas inteiras, sonhos intermináveis.

E essas foram as sementes que meus pais lançaram no terreno fértil das minhas fantasias infantis e que cresceram tanto quanto os feijões do João. E suas raízes se entrelaçaram com minhas próprias raízes, meus ramos com seus ramos, e eu não pude deixar de crescer com elas, de aprender com suas lições, de fazer associações, de subir até atravessar as nuvens, conhecer gigantes e galinhas (não as ruivas, as outras, dos ovos de ouro).
Não pude deixar de desejar ir além.

A plantinha cresceu ao ponto de não se satisfazer em ser apenas alimentada, queria oferecer algo ao mundo. Resolveu dar frutos.
Ainda que alguns possam, por desventura, levar alguém a um sono profundo e eterno - do qual só despertará com o beijo do amor verdadeiro de um gato preto, debaixo de uma escada, numa sexta-feira de lua cheia – outros servem bem como lanchinho da tarde, saciam a fome de quem se arrisca a dar uma dentada. (perceberam a coisa do drama surrealista?)

Também herdei aquele castelo acima das nuvens. Subi até lá.
Eu encontrei o gigante dos meus anseios e seu tesouro, não de ouro, mas de palavras. A galinha mágica é, então, uma humilde escritora.

Como o João, tenho de enfrentar o gigante para usufruir do tesouro. Nada vem fácil, como repetem meus pais, a coragem – e esperteza - para conseguir o que se quer também é herança de família.

E há quem não veja o valor real de um galináceo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Pirlimpimpim





O pensamento alucinógeno do dia


Meu sentimentos estão por demais ruidosos. Quero a paz tranquila da algazarra exterior.


(Bônus de uma triste confissão)

Mas se eu te quero, esteja certo, é totalmente sem-querer.
Tendo escolha, prefiro fel. Tem sabor menos amargo que a tua rejeição.


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Não tão benquisto bem-querer



Nas vias tortas do que é poesia

Caminha cambaleante meu querer

Pelo desengano entorpecido.


Segue errante pelas ruas,

Trôpego equilibrista de meio-fio,

Garrafa cheia de desilusão

Olhos baços vazios.


Vaga desorientado

Pelo acostamento da vida

Pedindo carona a quem mais distante for.


Meu bem-querer

Ferido, magoado, busca sofregamente,

Nas promessas oblíquas do amanhã,

Esperança paliativa para o vazio do presente.


Meu bem-querer,

Puro, desinteressado,

Amorosamente doado,

Tem por destino a solidão.

domingo, 7 de agosto de 2011

Pirlimpimpim



O pensamento alucinógeno do dia



Tem dias que despertam com grandes promessas de romantismo. Te dói o peito, é impossível respirar e um copo de veneno parece o fim ideal.

domingo, 31 de julho de 2011

Pirlimpimpim





Bom, como ando sem tempo para o blog, mas o ser que habita minha mente fica me importunando para postar algo, eis que surge a ideia de colocar o pensamento que marcou meu dia (de maneiras negativas, positivas ou insignificantes).
Apresento a vocês o PIRLIMPIMPIM DO DIA (percebam que eu não especifico QUAL dia, ou se é TODO dia... Apenas dia, algo bem amplo).

E para começar, algo que eu postei inocentemente no Facebook, enquanto costurava os rasgos do meu pobre coraçãozinho enamorado, e pessoas curtiram.
Não era pra curtir. É algo ruim. Sério.
#marcha pelo "não curti"

Bom, terminadas as deliberações entre meu Eu Lírico, a Criatura Abissal, minha Quarta Personalidade e o meu Eu Consciente (ou Parcialmente Consciente, depende da situação), vamos ao pensamento que irá iluminar suas vidas. #not


Amar sem pedir nada em troca é o sentimento mais precioso que existe... Mas, porra, pode retribuir, meu filho, não vai perder o valor não!

sábado, 28 de maio de 2011

Como surgiu o Caleidoscópio








Hei, pessoas! Hoje resolvi aparecer de uma maneira mais "professoral".
Lesada que sou, só descobri agora (depois de um ano de posts, ¬¬') como ver os principais temas procurados pela galera que acessa o blog.

E não é que o povo quer saber COMO surgiu o caleidoscópio?
Não o blog. A coisa.
Digo, o artefato, o objeto, o canudinho de imagens felizes.

Pois, aproveitando que meu computador acordou de bem com a vida, vou fazer um breve post esclarecendo isso.

**ONDE, COMO, QUANDO, POR QUÊ?

O Caleidoscópio surgiu na Inglaterra em 1817, criado pelo físico escocês Dawid Brewster . E, amigos, deixa eu falar uma coisa: o tio Dawid não era exatamente um cara econômico, se é que vocês me entendem.


O lindo fez o primeiro caleidoscópio com pérolas e pedras preciosas, ao invés dos humildes vidrinhos coloridos que usamos hoje em dia.

Dawid criou o caleidoscópio com fins de estudo científico, mas ele acabou sendo visto durante muito tempo como um brinquedo caro e muito chiquetoso.

Hoje em dia ele é usado para definir padrões de desenho, o que deve deixar o titio mais ou menos satisfeito.



**MAS POR QUE ESSE NOME CHEIO DE ONDA?

Tio Dawid era um cara que tinha sacada, pessoas.
Ele uniu as palavras gregas kalos (=belo), eidos (=imagem) e scopéo (=vejo, formando algo que se traduz mais ou menos como “vejo belas imagens”.
*Digo mais ou menos porque AINDA não falo grego.



**E O QUE É UM CALEIDOSCÓPIO, TIA CISSA?

Amizade, se você não sabe o que é... Bom, só posso lamentar pela sua infância trágica, sem vida e cor e luz e...

Brinks! *lamento mesmo, mas sem sacanagem.

O Caleidoscópio é, basicamente, um pequeno tubo de cartão ou de metal, com pequenos fragmentos de vidro colorido e pequenos espelhos inclinados.
Chato?
Sem graça?
Banal?
SERIA, se não fosse a maravilha da luz!

Através dos reflexos da luz nos espelhos, surgem combinações de imagens que variam a cada movimento. É muito lindinho! *-*



A variedade de imagens, a facilidade de mudar de uma coisa para outra totalmente diferente, a beleza abstrata que se forma no caleidoscópio...Assim, acho que dá pra entender o motivo pelo qual dei esse nome ao meu blog.

E porque eu gosto de coisas coloridas. *Daí a viadagem desse post papagaiado.

Beijos Kids, até o próximo post!


*Só pra constar, apesar de ser um ÁS da história (RÁ! té parece), essa daí eu não conhecia.


Achei as informações em:










sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sem Fronteiras




Eu realmente, simplesmente, imutavelmente, inegavelmente, irreversivelmente gosto de escrever. Tomar notas, registrar idéias, rabiscar palavras de compleição perfeita...
É uma sensação sem igual ver letras soltas transformando-se em palavras, e palavras planas transmutando-se em vida, em sangue pulsante correndo nas veias da arte escrita.
O ato de lapidar os verbos, de trabalhar as expressões, gera um prazer único e inigualável, não importando a forma dessa ação.

Não há diferença entre papel pautado, folha A4, bloco de desenho, guardanapo ou computador. À bem da verdade, não me incomodaria escrever nas paredes, no chão ou manobrar o punção em placas de metal, se preciso fosse.
A urgência anula a protestação.

Pouco importaria estar sob a claridade débil do celular, ou sob a luz dos holofotes, do sol, da lua, de um eclipse ou pisca-pisca natalino.
De fato, a escuridão sequer chega a ser empecilho para minha atuação, tal é a força imperativa da necessidade de historiar.

Escrever é um vício desesperador, algo incontrolável e imprescindível! É um sofrimento divino, uma dependência gloriosa, que após me atirar ao abismo das idéias incompletas, me resgata com o milagre da combinação perfeita, a totalidade da palavra rara.
É algo extraordinário, imprevisível e fatalmente necessário.
Não há escapatória: eu amo escrever.
Em qualquer situação.
Em casamentos, funerais, concursos de beleza, safáris, desfiles de moda, escaladas, rodízios de pizza e, quando possível, em queda-livre, no céu.

Eu preciso de verbos, complementos, adjetivos, advérbios e substantivos. Preciso encontrar rimas raras que reparem a pobreza das minhas expressões.
A necessidade de escrever é tamanha que por vezes comer e respirar tornam-se atividades secundárias e supérfluas.

Porque quando eu escrevo minha mente é terra de ninguém. É um país sem governo, a água livre do córrego, um andarilho que não respeita fronteiras, uma fera instintiva e indomável.
Porque à medida que a caneta corre no papel, com seu ritmo cadenciado coordenado pela intensidade do pensamento, tudo, absolutamente tudo, pode acontecer.
Como se a escrita transformasse a ilusão em algo mais palpável. Como se fizesse do sonho algo menos abstrato.

Quando eu escrevo, o sentido da palavra “liberdade” se faz entender. Ela se torna algo concreto, que não povoa somente a minha imaginação, mas está ali, desenhada com suas formas lindas, traçada em letras vivas...
Quando eu escrevo minha mente vai além...
Outra vida, outro cosmos, outro ser!
E tudo mais se transforma em uma bobagem, uma irrelevância.
Meros coadjuvantes da arte máxima, da mais sublime explanação de sentimentos...
A escrita.




*Apesar da ausência de posts, a necessidade anda me consumindo mais que o normal.

domingo, 8 de maio de 2011

Perigo cadenciado






O Perigo flerta com você.
Ele te envolve, não sai da sua cabeça, te faz sentir arrepios.
Cria armadilhas pra te conquistar, viciar, seduzir. Como a dança.
Instigante, sensual, divertida...

Às vezes é uma Valsa, que com ocasionais rompantes de energia faz o estômago saltar, a cabeça rodopiar e finaliza tudo com o pouso suave do alívio.

Outras, por ser altamente inflamável, extremamente malicioso e causar uma sensação momentânea de cumplicidade, ele pode se encaixar, agarradinho, à cadência do Forró.

Por vezes, com sensações alucinadas, fazendo o coração sair pela garganta, tornando os ouvidos surdos aos conselhos, impregnando o corpo de energia e frenesi, o Perigo pode ser meio Rock’n Roll.

Ele pode ser um Tango. Carnal, elegante, ardente. Um encanto obscuro que ronda sutilmente, seduzindo a vítima incauta que se abandona em seus braços em completa luxúria.

Incrivelmente, o perigo pode ser romântico, um tanto suave, delicado. Atrair lentamente, com carícias ritmadas, com o leve frisson da paquera. Como uma dança entre espíritos, na languidez apaixonada de um Bolero.

Ah, o Perigo atrai!
E quando ele te seduz você não há nada ao seu redor além do som, do movimento, da sensação. Você esquece o mundo, o palco, os jurados e a plateia.

Você aceita o flerte, sorri convidativa para o Perigo... E cai na sua pior armadilha: está apaixonada, envolvida dança... Nesse momento ele te torna cativa do som, te escraviza com seus próprios passos.
Nesse momento você perde o ritmo, cai no palco.
E o Perigo recebe todos os aplausos.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Idiotice & Estupidez


Antes de colocar o desafio, um pequena explicação e um pedido de desculpas.
Eu tava em processo de mudança, gente. Fiquei sem net, sem telefone, essas coisas todas. =/
Desculpa pelo abandono, foi totalmente sem querer.

Agora, vamos ao oitavo desafio que consiste em Fazer um monólogo de um personagem do seu texto/livro mais conhecido na NRA..




––Mas que idiota! –Resmunga para a tela do notebook. ––Não! Impossível! Ela não pode ser tão idiota assim. É mentira. Eu não posso ter me apaixonado por alguém tão estúpido!

Ele mastiga as ofensas enquanto deixa o notebook na poltrona e recomeça a andar de um lado para o outro.

––“Quem ama compreende!” –Sua voz falseou em uma imitação tosca do tom dela. ––“ Não tente aliviar a sua consciência com mentiras superficiais.” E tem a petulância de me chamar de mentiroso! – Sua voz sobe algumas oitavas, atraindo olhares de estranhos. ––Quem ama luta pelo que quer, corre atrás! Quem ama explode a droga do mundo e luta com malditos exércitos se for preciso! “Essa foi minha única decisão: partir e proteger você” Ela escreve. Rá! – Bufa, revirando os olhos de desdém. ––Como se eu precisasse de proteção! Como se eu precisasse me esconder atrás de todo aquele 1,57m de músculos. –Debocha, irado. ––O que eu sou? Uma criança? Um inválido? Um maldito saco de batatas fritas?

Sua carranca se torna mais sombria e ele volta a se largar na poltrona, o cenho pesado como uma gárgula.

––E ela? Quem vai protegê-la? Aquela estúpida inconsequente!

Balança a perna, claramente agitado. Olha para a página do e-mail.
Clica com força em “responder”.

––Eu queria fazê-la chorar! Era isso que eu queria! Que ela chorasse um terço do que eu chorei naquela droga de tarde infeliz. –Resmunga para a tela. ––Queria inventar uma mentira dolorosa. Ela não me chama de mentiroso? Podia inventar uma pessoa em minha vida... O “amor” dela compreenderia isso?...– Se interrompe, a expressão de choque debochado. ––Mas o que eu estou falando? “Quem está sendo idiota agora, Evans?” Eu quase posso ouvi-la dizer. E tem razão. Eu sou um idiota. Um babaca idiota.

Olha para a página ainda em branco e balança a cabeça, indeciso.

––Não. Eu não quero fazê-la chorar. Eu sou mesmo um idiota completo, afinal.
Apaixonado pela garota mais estúpida do planeta. –Sorri tristemente para a tela.––Eu quero olhar feio para ela e ouvi-la me chamar de “gárgula de Nortre Dame”. Quero debochar dela, soltando maldições furiosas no meu tom mais irritado. Quero chama-la de estúpida, infantil e irritante. Lhe dar uns cascudos. Dizer que ela não sabe nada sobre o amor ou sobre a vida. Que é uma mimada, teimosa, encrenqueira... E então beijá-la. E fazer as pazes com uma ou duas frases românticas antes de recomeçar a debochar. Porque ela me transformou em um ridículo e patético romântico, dependente do veneno verde do seu olhar.

Ele suspira, os ombros arriando em sinal de cansaço. Começa a digitar rapidamente.
Ergue o olhar para o painel.

––Hora de ir para o portão de embarque. –Constata após enviar o e-mail. ––Ok, Moráin. Não me interessa nem um pouco o que você acha sobre minha capacidade de autoproteção. Vou enfiar na sua cabeça, de uma vez por todas, que você não está e não precisa ficar sozinha. Suas idiotices sobre magia e guerreiros assassinos não vão me impedir de ir até você e lhe dar uns bons cascudos.

Ele caminha para o portão de embarque do voo 1453 com destino a Irlanda.

–– Não importa o quanto eu te ame, Moráin. Você ainda é a pessoa mais estúpida que eu conheço.

Devon Evans, personagem de Profecias Nebulosas e A Impenetrável Escuridão.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Muito ajuda quem não atrapalha.




Para o sétimo desafio vocês deverão escrever um conto com personagens de universos totalmente opostos (ex: um conto que tenha como personagens: um serial killer, uma bailarina e os três porquinhos).

*Confesso que desse eu gosto muito também. R.I


––Bom, se a antítese utopia-realidade pode ser comparada, ou vinculada, às antíteses livre arbítrio-determinismo, teoria-prática, intelectual-burocrata, então está mais do que claro que as dicotomias existentes no processo de análise dos fatos para a consecução do objetivo é mais do que necessária, muito embora o desequilíbrio das mesmas possa alterar os resultados da pesquisa feita pelos... Que diabos eu estou pensando, pelo amor de Deus?

Cecília jogou o livro para o alto e largou-se de costas na cama. Sua cabeça girava e girava, ouvindo as falas dos seus professores, vendo as minuciosas descrições de Carr sobre a constituição da política internacional como uma ciência... E tudo que ela conseguia pensar era como aquele intercambista do oitavo semestre conseguia ficar tão gato com o novo corte de cabelo.
E um pensamento puxava outro, que trazia mais um consigo, e o outro pulava o muro das suas idéias e mais um passava por baixo da cerca da sua mente... Ela estava tão fodidamente ferrada!
Um estudo dirigido na segunda-feira, valendo ponto, e Cecília não conseguia controlar seus pensamentos arredios. Eles teimavam em voar para onde bem queriam.

––Jesus, ilumina minha mente, por favor! – Ela pediu, ficando de joelhos ao lado da cama. Quando literatura acadêmica não funciona, o jeito é apelar pra oração. ––Por favor, Jesus amado, me ajuda aí, na moral!

Ela esperou no silêncio pesado, fazendo esforço para afastar da sua mente o intercambista gatinho, os sapatos em promoção, o documentário maneiro que havia assistido no domingo anterior, e todos os outros pensamentos inúteis que a impediam de se concentrar no pedido.

Quando um pensamento gaiato começava a escapar para o conjunto de lingerie Victoria Secret’s que ela desejava tanto, um ruído estrondoso se fez ouvir seguido por um pequeno e agudo “Ai!”.
Cecília abriu um olho.

Entre frascos de perfume e batons, uma mulherzinha vestida de tailleur e com lindas asas rabiscadas em diversas línguas tentava se levantar.

––Muito bem, quem chamou? – Perguntou com foz fininha, ajeitando os óculos de aros negros.
––Q-quem é você? – Cecília balbuciou, assustada, enquanto reorganizava seus cosméticos na penteadeira em gestos automáticos.
––Ora essa! – A mulherzinha indignou-se e esquadrinhou Cecília antes de resmungar olhando para o teto. ––Quem quer que esteja no comando desse departamento hoje, decididamente está zuando com a minha cara. – Ela respirou fundo e explicou. ––Eu sou a fada dos trabalhos literários, mocinha. Você está com problemas?
––E-eu estou s-sim. – Respondeu ainda espantada. ––Não consigo compreender os paralelos que Carr faz sobre...
––Espera aí, espera aí! Você disse Carr? Como em E.H. Carr?
––Sim. De Vinte Anos de Crise. Eu sei que ele não é tão complicado, mas...
––Pode ir parando, mocinha. Eu não ligo. Sou a fada dos trabalhos literários, não dos acadêmicos. Alencar, Gregório, Drummond, os pergaminhos secretos da biblioteca de Alexandria, vá lá. É literatura pura e bela. Carr está fora da minha jurisdição. Não é da minha alçada. – A fada reclamou, ajeitando a saia azul-celeste antes de lhe lançar um olhar impaciente. ––Da próxima vez que for pedir ajuda, seja mais específica. Poupe-me de viagens desnecessárias.

Ela fez um gesto de despedida e, um segundo antes de sumir numa nuvem de purpurina, disse com condescendência.

––Não se preocupe, vou arranjar alguém pra te ajudar.

Ainda boquiaberta, Cecília deitou-se na cama e voltou à Parte I do livro, buscando se concentrar de uma forma mais intensa. Seria difícil, agora, com aquela revelação mágica pululando em sua mente. Fadas. Ham! Quem diria.
Se ela não acreditasse nisso antes, com certeza estaria completamente chocada naquele momento. Ainda bem que era uma garota espirituosa, de mente aberta para a magia da natureza e ...

“Estudo dirigido! Estudo dirigido! Se concentra, Cecília! Mas que coisa!”

As palavras saltavam à sua frente como pererecas do brejo em competição olímpica. Estranhas, complicadas e totalmente incompreensíveis.
Mas Cecília era brasileira. Não desistia nunca!
“Vamos lá, Carr. O que você tem para mim?”

Um estalido seco, algo como um galho se partindo, e lá estava ele, parado à sua frente.
O cabelo com corte de cuia, os óculos de lentes impossivelmente grossas, algumas espinhas pontuando a cara...

––Um nerd? Um nerd de computador?
––Eu prefiro o termo superespecialista em informática, se você não se importa. – Falou com sua voz anasalada.
––Muito bem, desculpe. – Ela retrucou, envergonhada. ––Então? A composição da política internacional como ciência é uma das suas especialidades? – Cecília perguntou esperançosa.
––Hã... Não. – O supernerd respondeu, surpreso. ––A fada literária disse que era algo mais condizente com um gênio da computação... Talvez... Acho, que talvez ela pensou que eu pudesse te ajudar com um texto da internet, quem sabe?
––Texto da internet? Texto da internet? Você tá de brincadeira? Plágio é crime, tá sabendo? Eu quero entender o que esse cara diz, não fingir que entendi!
––Bom, então você vai precisar de... Hum... Alguém mais... Hum... Genial de uma maneira alternativa, talvez? Agüenta aí, sis, já já eu mando alguém!

E o supernerd desapareceu em um redemoinho de bytes.

“Eu mereço!” Cecília resmungou mentalmente, voltando para os livros e pensando, com impaciência, que talvez os caras do departamento “lá de cima” estivessem mesmo se divertindo às suas custas. “Caramba, J.C, se não quer ajudar também não atrapalha!” Reclamou para Jesus, um tanto indignada.

“Vamos lá. Antítese Esquerda-Direita, Ética-Política...”

––Puta que pariu, meu gato pôs um ovo. Gato não põe ovo, puta que pariu de novo...
––AHHHH! – Cecília berrou, encarando a barbixa, os óculos, o violão, o sorriso canastrão e os cabelos cacheados. ––RAUL SEIXAS?

Ele sorriu para ela, ainda cantarolando Vampiro Doidão e se sentou na cama muito confortavelmente.

––Você disse que precisava de alguém mais genial e alternativo! Não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais! – Ele exclamou ainda rindo. ––Eu sou a sua mosca, baby! Vamos nos afogar nessa sopa problemática que...
––Não! Não! Não! – Cecília quase berrou e saiu da cama, empurrando Raul até a porta com firmeza. –– Eu adoro você Raul. Ê! Viva a sociedade alternativa! Mas vamos todos tomar banho de chapéu, ficar maluco beleza usando óculos escuros, em outro lugar! Eu quero paz, quero estudar, eu quero...
––Eu quero mesmo é cantar yê-yê-yê!
––Isso! Vá cantar com os anjinhos do céu. – Cecília implorou. –– E fique à vontade para não me mandar mais ajuda alguma! Beijo Raul.

E Raul também sumiu, numa nuvem de sons diversos e poeira de estrelas nascidas há dez mil anos atrás.

Cecília soltou um suspiro, a luz da compreensão invadindo seus pensamentos. Trocou de roupa rapidamente, pegou seus livros e cadernos e saiu do quarto decidida.

––Pode parar, Jesus. Eu já entendi. Mas você realmente podia ter facilitado tudo mandando uma visitinha do Edward Carr.

Na volta pra casa, horas mais tarde, Cecilia encontra em sua cama um bilhete etéreo, quase fluido, com uma letra inclinada bonita e angelical.

Fizestes a tua parte. Agora eu te ajudarei. Que bom que você entendeu rápido. Estava começando a imaginar que teria de apelar para a visita da Dercy Gonçalves. Amor, Pai Eterno

quinta-feira, 10 de março de 2011

Botando Ordem...




....Na Budega!

*Interrompendo as postagens sobre as ONRA, que inclusive, já estão na semifinal.
Eu tô na semifinal, gente! Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh #aloucafeelings

É isso aí! Decidi dar uma geral, fazer uma mudança legal para renovar o blog.

Estou sentindo falta de algo mais... Não de algo menos... É, algo menos egocêntrico, digamos assim! Que mania chata, essa que eu tenho, de apenas divulgar meu trabalho e deixar de lado comentários sobre coisas tão interessantes que leio/vejo/descubro!

Assim, anuncio que o formato do blog vai mudar um pouco.
Teremos resenhas!
Teremos mais indicações de blogs!
Teremos qualquer coisa que me vier a cabeça! \o

Após a postagem dos meus outros textos da ONRA e a divulgação do vencedor (que eu sei que tem gente roendo as unhas pra sabeer), essa budega vai ser reformada!
Vamos mudar as cores e miçangas desse caleidoscópio!

Beijos!!!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Allan e os Quatro Dons




Vocês irão escrever uma adaptação de um conto de fadas, sendo que ele pode ser uma crítica, uma sátira, uma releitura.. Deve-se reescrever a história, deixando-a muito mais engraçada, ou dramática, ou assustadora.. Enfim, vocês tem liberdade total para adaptar o conto escolhido.


*meu preferido. MÁFIAAA! Aladdin




As coisas iam mal no grande reino de Nápoles.
O centro de operações de produção ilegal e mafiosa da Itália entrava em colapso.
Primeiro porque finalmente os esquemas de um dos grandes clãs da Camorra foi descoberto e seu Don, preso. Depois, é claro, porque todas as pessoas envolvidas no Sistema foram mortas no processo de captura, o que pode gerar uma dor de cabeça danada se você for um médico-legista. Ou um dos cadáveres que teve os miolos arrancados por uma rajada.
Desde o braço direito do Don até o pusher mais ralé que trabalhava para a família na venda de drogas, foi morto cruelmente ou pela polícia ou pelos próprios camorristas, como queima de arquivo.

A suspeita dos outros clãs era de que a informação viera de dentro. Alguém havia traído o Sistema. Um Sistema que funcionara bem por tantos anos, com a cooperação interesseira de cada clã. O maior e mais bem sucedido Sistema mafioso do mundo havia sido traído e começava a se desmantelar.
E se alguém fizera isso com um Don, com certeza seria capaz de fazer com todos os outros clãs.

O consigliere do clã Agrabah, Yassar-jafar, sugeriu ao Don Sultain que iniciasse um plano de fuga e proteção para sua única filha. Segundo suas previsões, em breve todos os clãs entrariam em conflito uns com os outros e a família de nenhum Don estaria segura.

––Yasmin deve casar, Don Sultain, e sair da Itália o mais rápido que puder. Confie-me sua filha, eu a protegerei. – Ele afirmou com convicção, enquanto as rajadas das metralhadoras atingiam jovens adolescentes que trabalhavam nos elaborados esquemas de drogas. Yassar-jafar apontou o caos. ––Quando o Sistema funcionava isso jamais aconteceria.

Don Sultain, capo di tutti capi, o mais importante líder do mais importante clã da Camorra, suspirou de tristeza. Tantas pessoas mortas... Quanto desperdício de capital!
“Yassar-jafar tem razão.” Ele pensou. Os primeiros a serem atingidos em uma guerra são os familiares. “Quem melhor que meu consigliere, meu braço direito, para se casar com minha Yasmin?”

Don Sultain jamais poderia imaginar que a grande traição viera de Yassar-jafar.
Anonimamente, o consigliere do clã de Agrabah tramava a morte do seu Don e, casando-se com sua filha, a sua ascensão a Don e a posse preferencial dos negócios com os chineses. Com os Quatro Clãs fora do jogo, ocupados demais em salvar seu Sistema e em matar uns aos outros, Yassar-jafar acreditava que teria o domínio não apenas de Agrabah, mas de todos os negócios clandestinos de Nápoles.
Traiçoeiramente ele lançara sobre os clãs a semente da discórdia e agora nenhum clã pedia ou fornecia garantias de segurança para os outros. Era o caos do cada um por si.

––Muito bem, Yassar-jafar, falarei com Yasmin e nós arranjaremos tudo para a partida de vocês.

“E para o seu funeral, caro Don. E para o seu funeral.” Pensou o consigliere, sentindo certa a sua vitória.

O que Yassar-jafar não sabia era do envolvimento de Yasmin, filha do capo di tutti capi, do clã mais lucrativo de toda a máfia, com um simples pusher, negociador de drogas e ladrãozinho de quinta.

Allan, americano refugiado na Itália, sabia que não tinha condições de crescer dentro do sistema e aceitara bem este fato desde o início.
Mas então seu olhar se cruzou com o da jovem filha do Don e todos os seus sentimentos mudaram. Ele não queria mais vender drogas para sobreviver, para dar de comer aos seus parentes e amigos.

Ele queria ser grande, queria ser bom o suficiente para proporcionar à Princesa da Máfia tudo o que ela desejasse. Ele queria lhe mostrar o mundo, seu mundo. Queria compartilhá-lo com ela.

E Yasmin aceitou, mergulhando num mundo que ela nunca vira. Era um mundo diferente daquele visto das grandes janelas do seu casarão.
Um mundo de miséria e pobreza, mas também de solidariedade, de pessoas que lutavam pelos seus sonhos e pelos seus ideais. Que literalmente matavam e morriam por aqueles que amavam.
Yasmin apaixonou-se pelo espírito decidido de Allan, pela sua malandragem e o jeito como sempre buscava fazer o melhor para os outros, mesmo que por vias tortas. Como eram todas as vias da máfia, aliás.

Quando chegou aos seus ouvidos a terrível idéia do pai, Yasmin pulou os muros do casarão e fugiu para uma das simples casinhas onde Allan guardava as drogas.
“Eu nunca vou me casar com aquele vecchio porco, bugiardo. Nunca!” Ela pensava, desesperada, enquanto corria pelas ruas cheias de gente ocupada demais para prestar atenção ao seu desespero. “Morro antes que ele encoste em mim, spudorato!”

Yasmin entrou a casa pela janela, como Allan um dia lhe ensinara a fazer.

––Allan! –Ela gritou, procurando por ele por todos os cômodos. ––Allan, preciso de você!

Estacou ao chegar na cozinha. Seus olhos se arregalaram e sua mão foi è garganta, apertando-a para conter o grito de horror e desespero.

Deitado no chão estava Allan, o peito coberto por enormes hematomas roxos com pontos amarelados no meio. Havia sangue em seu braço, claramente rasgado por uma faca.
Yasmin correu até ele, colocando a cabeça dele em seu colo.

––O que aconteceu? –Ela perguntou, chocada, enquanto um outro rapaz, com o peito também coberto pelos ferimentos roxos, fazia um curativo no braço de Allan.
––Emboscada do Clã Mallazera. – Ele disse, num fio de voz. ––A guerra entre os quatro clãs começou. Se não fosse o colete...

Ele suspendeu a frase em um gesto agourento.
Levantou-se quando o companheiro terminou de tratar a ferida.

––Não pode ficar aqui, Yasmin. É perigoso demais para você.
––Não posso voltar para casa. Meu pai quer que me case com Yassar-jafar!

A mente analítica de Allan começou na trabalhar fervorosamente.
Ele era um cara das ruas, esperto, malandro, conhecia a fundo a mente de criminosos. Especialmente de criminosos mais criminosos que ele, pois era contra o destino de ser mau que Allan Dinn lutava.

Ele se levantou, estendendo a mão para Yasmin e encarando seus grandes olhos negros. Havia amor e desespero neles.
A pele amorenada, os longos cabelos negros, o corpo diminuto e esculpido... Tudo nela pedia proteção.

––Você confia em mim? – Allan perguntou, ainda com a mão estendida.
––Sim. – Ela respondeu, quase sem hesitar, segurando sua mão e levantando-se do chão frio daquele casebre.
––Então volte para casa e diga e irá se casar. – Ele falou firmemente. ––Depois arrume suas malas e fuja. Volte para cá. Sem ser seguida.

Ela assentiu e se foi, com o peito angustiado, apertado com a dor da partida. Vê-lo caído e ferido despertara nela o medo da realidade suja que os cercavam.

Com ousadia e coragem, Allan Dinn, americano, pusher e pequeno nas operações da máfia, encontrou três dos líderes dos Quatro Clãs. E, um a um, com seu raciocínio lógico e a esperteza de quem luta pela vida com todas as forças, os convenceu de que sua teoria era verdade.

Na calada daquela noite, enquanto Yasmin fugia para o casebre, na grande mansão do Clã Agrabah os Quatro Dons se encontraram.
Apenas, agora, o grande Don Sultain estava morto. Assassinado pelas mãos traidoras do seu consigliere. E a máfia não perdoa traição.
Yassar-jafar foi pego em flagrante. Teve suas pernas quebradas por bastões e foi mergulhado em um tonel de ácido, para sofrer uma morte dolorosa e lenta.

Allan Dinn subiu ao cargo de Don do Clã Agrabah, ao casar-se com Yasmin. Ele era, agora, um dos Quatro Dons. Seria temido e respeitado. Com sua malandragem e astúcia, seu clã venceria batalhas econômicas, enganaria policiais de todo o mundo e a paz tensa dos negócios voltaria a reinar nas transações da Camorra.

Embora vivessem no mundo sórdido da máfia, onde a maior regra é gerar lucro e o maior perigo é interferir nos negócios dos Clãs, Yasmin e Allan tentariam criar o mundo ideal para que seus filhos, um dia, pudessem crescer em uma Itália próspera.
E completamente dominada por eles.