terça-feira, 23 de novembro de 2010

Escuridão




A cama era grande e confortável, com lençóis perfumados e travesseiros macios. A maioria das pessoas adoraria deitar-se ali por um bom tempo, descansar tranquilamente na maciez do colchão, escorregar agradavelmente na suavidade da seda. Para ele, porém, aquela maravilhosa cama parecia um altar para sacrifícios, apenas um pouco mais incrementado, mas definitivamente uma prévia da morte. Pela janela aberta não passava uma brisa sequer, apenas a claridade forte do sol que inundava o quarto amplo, aquecendo o ambiente e afastando os monstros. Isso não lhe agradava. Ele gostava dos monstros. Gostava de desafiá-los, lutar com eles e vencê-los. Algumas vezes eles até o ajudavam a trabalhar. Ele gostava da escuridão, de poder fechar os olhos e torná-la impenetrável, de sentir-se alheio às confusões do mundo. A visão nunca fora seu sentido favorito. Atrapalhava, segundo pensava, a sua concentração.

Quando ainda era moço, até mesmo na agitação da puberdade, seu melhor brinquedo era isolar-se de todos, apagar as luzes, cumprimentar os monstros e criar.
De olhos fechados, suspenso na escuridão do nada, seus dedos deslizavam pela teclas já conhecidas e traziam à vida as mais belas melodias. Ele as sentia de todas as formas. Seus sabores, seus aromas, as cores destacando-se na negritude da sua mente. As experiências mais incríveis da sua vida passaram longe dos palcos, dos concertos internacionais, dos cofres de bancos lotados com o seu sucesso. Ele precisou apenas de um piano para conseguir alcançar tudo que um homem poderia querer. Todas as cidades, as histórias de amor, as paisagens mais belas, os amigos mais influentes. E todos estavam presentes em suas canções. Uma nova melodia para cada novo sentimento descoberto, para cada mistério do universo desvendado.
É, ele foi feliz, muito feliz.

E durante muito tempo, pode-se dizer, embora desde que o descobriram como gênio pouco tempo tivera para estar com seus monstros. Ele era descrito como o mais novo mestre da música clássica romântica. Um gênio com o toque sombrio do romântico incurável, que passeava com maestria pelo terreno do amor platônico, tornando sua música, dolorosamente apaixonada, irresistível a todos que o escutavam tocar. Entre concertos, coquetéis e cerimônias de homenagem, porém, ele apenas desejava estar em casa, de olhos fechados, contemplando a escuridão amiga. Não podia, é claro. Sua agenda não lhe permitia seu maior e mais verdadeiro prazer. Era necessário correr, trabalhar, produzir.
Ele era um gênio, não podia desapontar seus admiradores, seus seguidores. Havia muitos sentimentos que necessitavam de uma tradução exata, e ele era um exímio tradutor. Não havia sentimento que não pudesse transformar em música, nem música que não estivesse carregada de sentimentos.
Não, não havia tempo para brincar com os monstros.
E ainda assim ele tentou ser feliz.

Construiu uma família, um patrimônio, deixou um legado de imenso valor para a humanidade.
Mas agora, quando finalmente poderia deixar os palcos, quando já oferecera o seu melhor para aqueles a quem amava, agora ele sequer conseguia arrastar-se até o piano, quem dirá manter-se ereto na banqueta! Quando a doença o acometera ele abraçou-a de boa vontade, como uma carta de alforria para um escravo do sucesso. Uma carta que iria libertá-lo para voltar a criar de verdade, com vontade, com felicidade.
Não imaginara que ela lhe tiraria tudo.


E ainda por cima seus filhos tocavam suas músicas sem parar, como se não fosse dolorosa a lembrança de que não mais poderia tocar.
E ele não queria apenas ouvir. Queria criar, criar, criar! Queria as notas rodopiando em sua mente, a melodia escorrendo fluida como mel, seu coração marcando os tempos da canção. Ele queria submergir no escuro, no vazio, na tranqüilidade do nada, depois de passar a vida em uma correria desenfreada.

Ele olhou mais uma vez para a janela aberta. Semicerrou os olhos, franzindo o cenho. Aquela luz estava forte demais. Como os holofotes do sucesso que podaram sua liberdade.
Percebeu que sua composição favorita estava tocando. Ele a tinha composto em uma noite particularmente escura, só um fiapo de lua minguante podia ser visto da janela. Ela soava pura, cândida, quase dolorosamente inocente. Ele tossiu com força, manchando de vermelho os lençóis azuis. Decidiu tentar, afinal, ou jamais teria um segundo de paz.

Com todas as suas reservas de energia ele levantou, caminhando vagarosamente até a janela.
Uma rajada de vento fresco soprou inesperadamente, invadindo seus pulmões debilitados, um pouco antes que ele fechasse a janela e o quarto inteiro mergulhasse na penumbra. Cerrou também as cortinas, tonando mais denso o breu. Ele agora podia divisar as formas conhecidas dos seus monstros, amigos há tanto tempo desaparecidos. Ao fundo a melodia pueril e casta bailava no ar, colorindo o vazio. Ele tossiu violentamente uma, duas, três vezes e então sorriu.
Lá estava ela, afinal.

A última nota soou clara e trêmula e ele deslizou definitivamente para os braços frios da sua eterna musa, a escuridão.

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