domingo, 12 de setembro de 2010

NAS TUAS VEIAS


Pessoas, pessoinhas que acompanham este blog, tenho uma novidade mega incrível pra vocês!
Já está disponível para compras meu romance "Nas Tuas Veias"!!!

Neste livro vocês conhecerão a história de Ruby Summers.
Em pleno século XXI, quando o romantismo já é considerado obsoleto e os contos de fadas são apenas histórias impressas nos livros, Ruby é obrigada a conviver com uma realidade totalmente diferente. E absurda.
Príncipes em velozes montarias de quatro rodas.
Batalhas perigosas e sombrias.
Princesas nem um pouco indefesas.
E uma terrível maldição.

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Para uma divulgação melhor e mais divertida, aqui vao o Primeiro Capítulo de "Nas Tuas Veias".
#1
Ok. Muito bem.
Era uma vez... EU!
Não é assim que nós começamos os contos de fadas?
Pois bem! Era uma vez... A miserável e malfadada eu!
Eu sou aquilo que se pode chamar de amaldiçoada.
No sentido literal da palavra.
Quero dizer, eu realmente fui amaldiçoada, entende?
E é por isso que eu vou agora mesmo cortar meus pulsos com uma página da Larousse. Ou talvez eu apenas vá ao banheiro e jogue o secador ligado dentro da banheira. Mesmo este não sendo o final do meu “conto de fadas” e muito menos o meu “felizes para sempre”. RÁ! Não mesmo.
Isso é o pior: não está no final. É apenas o começo e eu já não suporto mais.
Eu simplesmente não agüento mais. Eu não posso mais viver dessa maneira!
Já passei dezessete longos anos nesse tormento, mas nunca antes senti tanto desespero como agora.
Suponho que sejam os hormônios.
Ohh, ela fez tudo muito bem, aquela bruxa miserável! Ela provavelmente tinha uma boa idéia de como seria desesperador passar pela adolescência com essa maldição infernal!
Ok.
Larousse ou Secador?
Morrer no banheiro, eletrocutada, ou na biblioteca, ensangüentada?

Minha baixa resistência a dor me arrastou para longe das idéias suicidas. Embora elas ainda fossem bastante atraentes para mim, quando as imagens daquela tarde no ensaio pulavam na minha mente.
Entre a Larousse e o secador, eu escolho entrar furiosa no escritório do meu pai.
Ele, como sempre, apenas desvia olhar dos papéis por alguns instantes e, retomando o seu trabalho, pergunta com uma voz irritantemente paciente.

––O que foi dessa vez, preciosa?

Ignorei o fato de ele usar, mais uma vez, o apelido que eu mais odeio no mundo e disparei ofegante de fúria.

––NÃO DÁ! Simplesmente NÃO DÁ mais pra viver assim. Eu não agüento, papai! Eu não fiz nada para merecer isso, mas aqui estou! Dezessete anos de rosas, chocolates, declarações brilhantes e inusitadas, mas nunca, nem uma vezinha sequer, eu consegui sentir absolutamente nada! Eu preciso me apaixonar, papai! EU PRECISO DISSO!

Ele levantou o olhar para mim, nem um pouco abalado com meu desespero.
Quero dizer, não era como se aquela fosse a primeira vez.
Eu praticamente nasci fazendo escândalos, admito. Isso faz a coisa perder um pouco do impacto quando a gente precisa.
Mas o que eu podia fazer? Eu fui amaldiçoada, cara! Isso não é necessariamente uma coisa para se aceitar de bico calado.
Papai largou os papéis. Apoiando os cotovelos na mesa e cruzando os dedos ele me olhou por cima dos óculos, como sempre.
––Ruby, tesouro, essa já é a terceira vez na semana que você vem aqui gritar comigo sobre como tem sido difíceis esses seus dezessete anos. –Ele suspirou e fez um gesto para que eu me sentasse. Caminhei cautelosamente até a poltrona. Eu odiava quando ele era razoável. Conseguia me fazer parecer uma boba. ––Eu vi você crescer, sabe? Eu acompanhei esse dezessete anos de tortura, como você diz. E, sejamos sinceros, você tem sido muito feliz, não tem? Com todo o dinheiro, as viagens, festas e celebridades, não é?
––Sim. –Grunhi. ––Mas nunca me apaixonei.
––Preciosa, ninguém se apaixona aos dezessete anos. Não de verdade. –Ele deu uma risadinha. ––Algumas pessoas têm uns casinhos, umas aventuras. Isso você pode ter. Você pode... Hum... Ficar. Não é esse o termo?
––Sim, mas eu quero o Amor. O amor verdadeiro, com A maiúsculo. E eu sei que nunca vou tê-lo por causa daquela...
––Ruby, Ruby, por favor! –Ele finalmente, finalmente!, pareceu cansado. ––Essa história de novo? Por Deus, tesouro, você está obcecada!
––Não, papai, eu estou amaldiçoada! É bem diferente! –Eu retruquei, me levantando novamente. ––Sabe o que aconteceu hoje, na sessão de fotos para a nossa nova propaganda? Sabe? –Eu não esperei que ele respondesse, apenas comecei a andar de um lado para o outro, narrando o incidente enquanto segurava o ímpeto de atirar coisas pela janela. ––Brandon Wayans se declarou, papai. Na frente de todo mundo. Ele desceu de um helicóptero, jogando pétalas de rosas vermelhas sobre mim, com uma gigantesca caixa de veludo negro em uma das mãos.
––Oh, bem, já houve incidentes piores, Preciosa.
––Papai, era Brandon Wayans. E atrás dele e daquele maldito helicóptero cheio de pétalas de rosas, simplesmente havia um colossal pedido de casamento escrito em fumaça lilás. Com o meu nome nele. –Eu sibilei. E então estaquei, apoiando as mãos na mesa e encarando meu pai nos olhos. ––E eu não senti absolutamente nada. O senhor entende isso, papai? Consegue entender o grau de absurdo do que está acontecendo?
––Querida, é como eu estou sempre dizendo: falaram tanto nessa maluquice de maldição que você se bloqueou. Você não se permite viver novas experiências. Está obcecada!
––Papai, eu não estou obcecada! Eu simplesmente não tenho opção! Eu nunca, de maneira alguma, poderei me apaixonar!– Eu parei ofegante. E então berrei. ––E tudo isso somente porque o senhor não tem inteligência emocional!
––Ruby. –Ele, novamente, manteve-se calmo e tranqüilo. ––Eu não preciso de inteligência emocional. Eu já tenho inteligência comercial suficiente para pagar a terapia de casal que a sua mãe tanto quer. E você tem apenas dezessete anos. Não precisa se apaixonar. Tem que estudar e se superar. O amor virá um dia, na hora certa.

Eu inspirei, engolindo a série de impropérios que queria gritar na cara do meu pai e saí da sala, ainda mais furiosa.
Como sempre, aliás.
Eu já devia ter entendido que conversar com ele não resolveria nada.
A maldição jamais seria quebrada.
Aquela bruxa filha da mãe tinha feito um trabalho bom demais para que os milhões de dólares de meu pai pudessem comprar minha liberdade.
Mas papai não entendia isso. Ele simplesmente dizia que o dinheiro comprava tudo. Tudo mesmo!
Em um silogismo muito incoerente, papai acredita que se tivermos dinheiro poderemos comprar segurança, conforto e saúde. E, ainda segundo o cérebro perturbado do meu papai, se estamos seguros, confortáveis e saudáveis, a felicidade vem de brinde.
De modo que, sim, ele diz, o dinheiro pode comprar a felicidade.
Isso, é claro, ele diz por que não foi amaldiçoado ao nascer.

Eu conhecia a história inteira de cor e salteado.
Que tipo de princesa eu seria se não conhecesse a história da minha própria maldição?
Aliás, eu e toda a América a conhecíamos, depois que papai explorou minha tragédia em um comercial para a nossa rede de resorts.
“Você não tem sorte nos seus relacionamentos? É um azarado no amor? Venha para o Flórida Summer’s Resort e livre-se da sua maldição! Glamour, conforto e uma enorme área de lazer com inúmeras oportunidades para você. Florida Summer’s Resort: o paraíso do amor!”.
Mas, é claro, essas pessoas não tem nem idéia do que é ser amaldiçoado de verdade.
Não é como nos contos de fadas tradicionais, onde há sempre um príncipe bonitão e perfeito, pronto para salvar a donzela indefesa que, facilmente, cai de amores por ele.
Não mesmo.
E era por isso que, apesar de amar papai e mamãe, eu amaldiçoava (no sentido figurado da coisa, é claro) o dia em que eles se casaram.
Sim, porque se meu papai tivesse feito as coisas do jeito certo, de uma maneira digna e decente, ao invés de fugir na calada da noite para casar em Vegas, a sua ex-noiva-bruxa não teria ficado tão enfurecida e eu teria uma vida comum e feliz, saracoteando pelas noites quentes da Flórida e sofrendo por amor, como qualquer garota normal.
Ao invés disso, eu sou a Garota da Maldição.

“Linda e inteligente ela será,
E há de arrancar suspiros por onde passar.
Mas jamais encontrará o verdadeiro amor,
Se o sangue que corre em suas veias o mesmo não for”

É, eu sei, deprimente.
Rimas pobres, métrica péssima, vocabulário deplorável.
Mas ainda assim uma maldição.
Muito eficiente na verdade.
Agora, como papai se meteu com uma bruxa louca e iletrada eu não sei.
Ele nunca me contou.
Suponho que seja vergonhoso demais admitir para sua filha que estragou a vida dela para todo sempre ao largar uma bruxa poderosa às vésperas do casamento.
Não, invés disso ele desconversa, diz que eu preciso de terapia para retirar o bloqueio que EU MESMA me atribuí e que essa história de magia não existe.
Ele sempre parece racional e coerente.
Mas eu sei que é tudo mentira.
Porque eu já tive os melhores homens do mundo aos meus pés, como Brandon Wayans a nova celebridade, que ganhou 9 Oscars no último ano, e me comprou um diamante do tamanho de uma lâmpada incandescente.
E ainda assim eu não senti absolutamente nenhuma emoção.
Nem um frisson. Nem um pequeno arrepio de prazer ao ser cortejada.
Eu sou amorosamente estéril.

Agora, veja bem, não é como se nós, eu e mamãe, não tivéssemos tentando quebrar a maldição. Digo, da maneira como está descrita, aquela coisa do mesmo sangue e tudo mais.
E o fato é: aquela mandingueira maligna sabia bem o que estava fazendo. Porque papai é filho único e mamãe perdeu toda a família em um acidente aéreo poucos anos antes de conhecê-lo. De modo que eu simplesmente não tenho nenhum parente próximo “cujo sangue que corre em suas veias seja o mesmo que o meu e blá blá blá.”
Nós procuramos. Muito!
Papai tem um império hoteleiro. Eu sou a musa das suas campanhas publicitárias.
A Princesinha do Verão, é como me chamam.
Se houvesse alguém, em algum lugar, que faça parte da nossa família, com certeza apareceria num piscar de olhos, atrás de fama e fortuna.
Mas ninguém jamais apareceu, mesmo depois da “divulgação” da minha maldição.
Então contratamos os melhores detetives do mundo, remontamos toda a história da família, caçamos um por um os ramos da nossa árvore genealógica.
E não encontramos nada.
Quero dizer, há realmente um tal de tio Bullster no interior mais fim de mundo do Alabama, mas ele tem 85 anos e, por mais que eu tenha me esforçado, não consegui sentir nenhum tipo de emoção com ele.
A não ser, é claro, o nojinho quando ele começou a palitar os dentes com uma farpa de madeira arrancada da coleira do seu cachorro.
E também há um primo bem distante de mamãe, algo como o filho da tia do pai da prima em sexto grau da meia-irmã da avó da minha mãe.
Chama-se Winston, que vive em Oxfordshire, Inglaterra, com uma adorável esposa inglesa de nariz empinado e oito filhas. Exato. OITO filhas. E nem um mísero menininho que eu pudesse esperar criogenicamente congelada até que ele crescesse para, então, me apaixonar ou algo assim.
Não, simplesmente não há nada, nem uma brecha, nem uma mísera brechinha nessa maldita maldição.

E foi pensando muito nisso tudo que eu fui para o meu quarto, frustrada e furiosa, para mais um sessão de “pés na bunda” que eu teria que dar nos modelos, atores e empresários famosos que corriam atrás de mim como o Coyote atrás do Papa Léguas.
E eu, exatamente como o Papa Léguas, não dava a mínima para nenhum deles.
Apertei o botão da secretária eletrônica e me preparei para as longas horas de escusas e “nãos”, enquanto o primeiro recado enchia o meu quarto, com uma voz grave e máscula que não despertava em mim nenhuma emoção.