sexta-feira, 30 de julho de 2010

O cara da locadora





Sua barriga revirava de ansiedade toda manhã de sexta-feira. Depois de passar a noite inteira imerso em sonhos dançantes, entre tangos, valsas e boleros, “Ela vai estar lá”, era a primeira coisa que pensava.
A aparição dos seus sonhos. De bochechas rosadas, os lábios cheios e vermelhos que sempre pareciam ter um sorriso pendurado em um dos cantos, a voz que tilintava como sinos celestiais, os olhos grandes e azuis, como duas poças de céu... Um anjo é como ele a via.
Um anjo suave, delicado e louco por bons clássicos antigos.
Seus preferidos eram os musicais. Sete noivas para sete irmãos, Gigi, Cantando na Chuva, O Picolino, Chicago, Grease, Moulin Rouge...
Ela sempre saia da locadora com três ou quatro grandes clássicos e ele sentia o ambiente esfriar de uma maneira sobrenatural. Então pegava os mesmos filmes e assistia, amargurado, tentando matar um pouco da sua frustração.

De vez em quando ela pedia uma informação e ele a bombardeava com sugestões de filmes e comentários inteligentes sobre as produções. Ela agradecia, as bochechas ruborizadas como uma donzela vitoriana, e sorria da sua tentativa de impressioná-la.
Era um verdadeiro pateta! Ora ficava mudo, sem esboçar palavra quando encarava seus olhos, ora soltava-as aos borbotões, gaguejando, tropeçando nas vírgulas e desconsiderando qualquer outro tipo de pontuação.
É claro que pensava, quando sua capacidade de raciocínio voltava, em convidá-la para sair. Um café, uma dança, um casamento.
O que ela preferisse.
Mas ela nunca ficava tempo o suficiente, nem o olhava além do tempo necessário para um comprimento cordial, enquanto caminhava entre as estantes repletas de filmes, procurando pelos mais antigos e dançantes, com muitos vestidos esvoaçantes, piruetas e rodopios.
E quando ela achava, Deus do céu!, era a melhor parte do dia dele!
A maneira como os olhos azuis cintilavam ao ver um “Fred Astaire-Ginger Rogers”, e ela se balançava para frente e para trás, suavemente, lembrando-se de alguma melodia, ou dava pulos de alegria ao descobrir um desconhecido do Gene Kelly... Ele poderia passar horas observando-a sem cessar e ainda não seria o suficiente.
E ainda assim ela não notava como suas mãos tremiam ao entregar-lhe os filmes, de vez em quando acompanhados por um presentinho que ele fingia ser brinde para os melhores clientes, ou como ele acompanhava cada passo seu com adoração, traçando mentalmente a valsa perfeita para eles.
Uma quinta-feira, porém, decidiu tomar uma atitude. Não poderia continuar ruminando sua solidão amarga entre um filme e outro.
Aquilo acabaria por matá-lo.
Ou no mínimo mandá-lo direto para um hospício!

Tentou escrever uma pequena carta de amor, mas esta saiu ridícula, como todas as cartas de amor. Sua letra estava quase ilegível, tamanho o seu desespero. Por fim, decidiu-se por uma frase. Um título, na verdade, com o convite que ele não tinha coragem de fazer pessoalmente (Dança comigo?), e colocou dentro do seu clássico preferido E o vento levou...
Passou a tarde inteira suando frio, até que ela chegou, quase etérea, como sempre, aparentemente inatingível.
Ela passeou pela locadora, quase dançando, enquanto escolhia. Estava em dúvida e, ele reparou, enrolava uma mecha do cabelo dourado quando ficava assim.
Fez uma pergunta qualquer sobre Papai Pernilongo, e ele respondeu automaticamente, sem prestar muita atenção ao que dizia, enquanto guardava os filmes.
Ela sorriu quando ele lhe entregou a sacola, sem reparar que havia um filme a mais, agradeceu em voz baixa, musical, e saiu de lá.
Ele passou o fim de semana inteiro em agonia, as borboletas dançando um tango em seu estômago. Pensou em não ir na segunda-feira, mas a curiosidade era demais e, afinal, ela não iria aparecer. Seu irmão sempre devolvia os filmes. Aquele era o trato, ele achava.
Não, ela não iria aparecer, pensou.
E, de fato, durante toda a tarde de segunda-feira não houve sinal dela. Quando já estava quase fechando a locadora, no final do expediente, o garoto chegou. Um rapazote de doze anos, ofegante, os olhos tão azuis quanto os dela. Pediu desculpas pelo atraso. “O futebol, cara. Você entende.”, disse em quê de desculpas, e então foi embora.
Trêmulo, ele abriu a capa do filme, sentando no banquinho e tentando acalmar as borboletas. Aquelas malditas borboletas. Como alguém poderia gostar delas?
Dentro havia um bilhete. Ele não esperava realmente que ela respondesse. Suas mãos começaram a suar. Ler ou não ler? Maldita seja a questão!
Quase com medo, porem decidido, ele abriu o bilhete. Em uma caligrafia delicada e pequena, ela respondeu.
“Talvez, quando você estiver Cantando na chuva sob As luzes da cidade, nós possamos dançar a Sinfonia de paris. Mas até lá, aceito apenas um café.”

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ah, se eu fosse marinheiro!





Quando ele entrou na sala seu coração parou e Samantha desconfiou seriamente de que aquele seria seu último dia na terra.
Seus olhos eram tão intensos e tão negros que pareciam abismos sem fim, onde ela se abandonaria de corpo e alma, sem reclamar. E sua boca, tão vermelha e bem desenhada, lhe dava ganas de beijá-la pelos próximos dois séculos... Sem parar para respirar!
Seus braços eram fortes e sua voz grave, e ela ficou imaginando como seria ser abraçada por ele e ouvi-lo dizer coisas românticas ao pé do seu ouvido.
Com um porte dominador e um jeito de quem sabe do que está falando ele conseguiu hipnotizá-la de forma que ela bebia suas palavras como se fosse o mais puro néctar... Mesmo sem prestar atenção no que estava “bebendo”.
Nos poucos minutos que ele deixou-se ficar naquela sala, ela teve as fantasias mais loucamente românticas da sua vida. Passeou pelas praias mais belas, nadou nos rios mais puros, andou num chão coberto de estrelas, voou pelo universo vendo o nascimento das galáxias, dançando entre os astros e até foi além!
Enfim, quando ele saiu de lá, ela percebeu-se perdidamente apaixonada (de novo!).



E agora? Com a descoberta vem sempre o desespero. O que fazer?


E se ele não quiser?


E se ele já for comprometido?


E se não rolar a química?


E se ele já estiver interessado em alguma outra garota, ou pior, em alguma amiga?


Ela tinha que saber as respostas!



Lá estava ela novamente naquele jogo complicado que era amar. Agora seus dias seriam preenchidos com horas e horas de debate com suas amigas sobre a melhor maneira de cruzar “acidentalmente” o caminho do gato, ou imaginando as situações que poderiam vir a acontecer. Tudo milimetricamente calculado, nos mais ínfimos detalhes, para que não houvesse a hipótese de falhar. Seria um trabalho cansativo, porém a diversão também era garantida. E por que não começar imediatamente? Afinal, a aula seguinte seria de matemática (como se ela estivesse mesmo ligando pra incógnitas, equações e funções de primeiro grau!), nada de realmente importante.



“Trabalharam” tão bem durante as aulas que no meio da tarde já sabiam o nome, a sala em que ele estudava, o estado civil, os amigos que tinham em comum, o CPF, o RG, a filiação e todo o histórico escolar do rapaz em questão.
Os amigos em comum, graças a DEUS, eram muitos! Não seria nada difícil ser apresentada “casualmente” a ele, por uma de suas amigas casamenteiras...
E foi exatamente assim que, de uma maneira não muito mágica, começou a nova história de amor de Samantha.
Logo de cara os dois descobriram muitos interesses em comum e as conversas entre eles eram sempre interrompidas por ataques de risos ou beijos carinhosos.
Em três dias viraram o “casal 20” do colégio, o par mais bonito, mais fofo, mais romântico, “mais mais”!



O começo foi lindo, bem leve, e Samantha se sentia tranqüila, em paz. O tempo que passavam juntos era ótimo e, embora aquém dos seus devaneios amorosos, ele era maravilhoso!
Gentil, engraçado, interessante, carinhoso, atencioso, inteligente... Enfim, um amor de pessoa, com um sem número de qualidades. É bem verdade que ele era muito mandão e meio impaciente à vezes, mas que jeito? Coisas da humanidade.
Samantha tomava o cuidado de não se envolver demais, não enxergar mais do que devia, não esperar mais do que podia... Mas era tão difícil! Ela estava nas nuvens e, bem, de lá de cima fica meio difícil de enxergar o que acontece realmente...



Ela bem que sentiu o coração apertado no dia que ele passou ao seu lado e não sorriu daquele jeito de criança travessa, mas deixou pra lá. Qualquer um tem um dia ruim de vez em quando.
Mas o que fazer quando esse “de vez em quando” se torna “sempre”? Quando começa a cair na rotina e o sentimento de novidade que impulsiona o desejo pelas descobertas parece evaporar? Quando já não há tanta entrega nos beijos? Quando a amizade se faz mais forte e transforma a paixão? E, pior, quando isso acontece apenas com uma das partes? Alguém sempre sobra no final.



É como o jogo de sinais, da matemática, quando os dois números são positivos, beleza, resultado positivo! Quando os dois são negativos o resultado também é positivo. Mas quando um é positivo e o outro é negativo...
O tempo foi passando e algo não estava bem. Talvez a magia estivesse acabando, os defeitos estivessem se acentuando, ela não sabia dizer o que era, mas a ilusão estava no fim, disso Samantha tinha certeza.
Ao que parecia, ela estava com a carga positiva, mas ele... Bem, não é difícil descobrir quem ia sobrar no final, mas mesmo assim Samantha continuou a sonhar e a curtir todos os momentos (agora bastante escassos) que passavam juntos.
E foi com um nó na garganta e com o coração partido que ela ouviu (fingindo descaradamente que estava tudo bem) quando ele disse que não dava mais.
O mais difícil foi ouvi-lo dizer todas as suas qualidades... Se ela era tão perfeita assim, por que acabar? Ele não sabia o que estava perdendo? Então por que, pelo amor de Deus?
Mas ela não falou nada, apenas ensaiou um sorriso colorido e aceitou.



Tão rápido, tão intenso e tão passageiro. Agora era só remendar o coração mais uma vez, levantar âncora e se preparar para a próxima desilusão.


Até chegar ao seu porto seguro Samantha enfrentaria muitas dessas tormentas.
E como é gostoso entregar-se e mergulhar de cabeça no mar das confusões amorosas! Ok, às vezes um leve afogamento, um mergulho no raso, uma onda particularmente grande, deixam alguns hematomas, mas há tantos mares para navegar, águas desconhecidas para explorar, e tantos portos com situações surpreendentes!
Uma vida inteira, com profundidade oceânica, para se viver e sonhar.
O céu azul, o vento a favor. Içar âncora! Soltar velas! Toda força à frente, marujos! Toda força à frente!