quinta-feira, 11 de março de 2010

Voluntariado




Ele estava extremamente constrangido.
Convidá-la para sair havia sido, com certeza, a pior idéia de sua vida. O que ele estava pensando, afinal? Ela era só uma garota!
Não interessava se ela tinha uma conversa agradável e inteligente, ou que dentro de três meses já poderia consumir bebidas alcoólicas legalmente.
Ainda assim a diferença de idade era absurda.
Ela lhe brindou com um sorriso faiscante e dolorosamente juvenil.
––Eu sei o que você está pensando. – Disse, com um quê de clarividência.
––Não é muito difícil de descobrir, depois do comentário do garçom. – Ele respondeu amargurado, encolhendo-se levemente com a lembrança vergonhosa.
––Ora, por favor, Ricardo! Não seja infantil. Foi apenas um engano.
Ele riu com a bronca. Uma menina! Quase uma criança, e pedindo-lhe que não fosse infantil! Seria cômico se ele não se sentisse tão mal.
––Mas ele tem razão, sabe? Você podia ser minha filha.
––Claro que não. Quantos anos você tem?
––Trinta e cinco.
Ela bufou desdenhosamente e comentou com superioridade.
––Pelo amor de Deus! Meu pai é dezessete anos mais velho que você. Aliás, quando você nasceu ele já era noivo! O máximo que você poderia ser era meu tio.
––Mesmo assim. A diferença de idade entre nós é enorme.
––Engraçado. Eu não sabia que havia um limite de idade para pessoas jantarem juntas. – Ela sorriu de leve, claramente tentando acalmá-lo. ––As pizzarias estão cada vez mais exigentes, não acha?
Ricardo riu, um pouco mais confortável.
––Tem razão. É só uma pizza.
––SÓ uma pizza? – Ela arregalou os olhos. ––Meu amigo, este é o tipo de pizza que colocaria uma nação inteira de joelhos! Como você ousa subestimá-la desse jeito?
Os dois riram da palhaçada e a noite seguiu deliciosamente agradável, entre comentários sérios sobre as roubalheiras no Planalto Central e piadas ridículas sobre os acasos da vida.
No fim da noite, antes que o relógio batesse dez horas, eles se despediam no playground do prédio onde ela morava quando o celular tocou.
Ela atendeu com um sorriso jubiloso.
––Oi, meu amor! (risada) Não, não, cheguei há uns dez minutos. (pausa, a voz do outro lado da linha não parecia muito feliz). O de sempre, meu amor. (ela mordeu o lábio e olhou para Ricardo, afastando-se não muito disfarçadamente) Amor, eu já disse que não tem motivo pra esse ciúme bobo. (Ricardo apurou a audição, pescando as partes da conversa) Ele é só um amigo meio carente. Sabe que eu preferia estar com você, mas é meu papel de cristã emprestar um ombro amigo. (pausa) Sim, claro, mas você sabe que o pessoal do grupo voluntário diz que nós precisamos colocar em prática nossa solidariedade. Não, Pedro Luís, (ela começou a ficar irritada) não basta visitar o asilo e cuidar dos velhinhos aos domingos. Nós precisamos pra-ti-car... Olhe, esqueça! Eu vou me despedir dele e depois eu ligo pra você, tá? Ok. Um beijo.
E ela se virou para falar com Ricardo, mas ele não estava mais lá.
O portão bateu delicadamente e, logo depois, ela ouviu o barulho do Cross Fox dele.
Deu de ombros, satisfeita por tê-lo feito rir mais aquela noite. A boa ação do dia estava cumprida! Agora era só ajeitar as coisas com seu namorado e poderia dormir com a mente livre, leve e solta.
Dirigindo apressado e amargurado, Ricardo pensou que estava na hora de mudar seus conceitos. Nada de Lolitas, nada de fugir do que era realmente. Um homem respeitável e bem-sucedido.
Não voltou a aparecer na casa dela e restringiu seus relacionamentos a mulheres da mesma idade e até mais velhas que ele.
Sua auto-estima foi restabelecida, a vida seguiu em frente muito bem. Conheceu uma garota num bar, apenas dois meses mais nova que ele.
Ela era perfeita! Compartilhavam o mesmo momento de vida, tinham os mesmos gostos e, pasme!, descobriu-se que haviam estudado na mesma faculdade, anos atrás, apenas em pavilhões diferentes.
Apaixonou-se de cara! Noivaram em pouquíssimo tempo.
Sua vida seguia em um ritmo gostoso, tranqüilo, maduro, como deveria ser! E ele não voltou a pensar em “seu protótipo defeituoso” de Lolita até o dia em que sua noiva o trocou por um garoto de 20 anos, sarado, dourado de sol e que provavelmente ainda nem havia entrado na faculdade!
Foi aí que ele resolveu ser voluntário em um asilo, mudou radicalmente de vida. Mais uma vez conseguiu superar a decepção e enfim tornou-se verdadeiramente feliz.
Atualmente Ricardo mora em uma fazenda no interior, vivendo de produtos da terra e cuidando primorosamente da mulher de sua vida, uma simpática senhora de 75 anos com um estômago muito delicado.
Pizza só de vez em quando, e com ingredientes muito leves para preservar a saúde do seu amor.

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