sexta-feira, 12 de março de 2010

Saudosistas, Avante!




As viagens entre cidades-fantasma e universos paralelos, as guerras interplanetárias e as gravações de hits de sucesso internacional faziam do meu quintal o lugar mais completo do mundo (talvez até mais que o Bradesco).
Foram muitos os quintais onde brinquei e, não importando o tamanho em metros quadrados, as minhas galáxias sempre cabiam onde quer que eu fosse.
Entre brincadeiras de adivinha, danças de roda e giros alucinantes em balanços de pneu, eu conseguia ver as linhas dos anos que iam passando ficarem curiosamente tênues, enquanto o conhecimento e as experiências chegavam a galope, trazidos pelos anos que se firmavam em meu presente.
Hoje tudo isso parece tão distante no meu ponto de vista racional e razoavelmente adulto. Fotos em sépia tiradas por olhos ingênuos e buliçosos, que não esperavam mudar, ganharam os contornos embaçados da memória. E quase já não me recordo desses momentos na correria tresloucada da vida adulta. Uma vez ou outra, quem sabe, quando uma foto travessa escapa de algum álbum antigo, tão bem guardado e tão pouco manuseado.
Mas foram esses pequenos detalhes, essas brincadeiras pueris que me transformaram em quem eu sou.
Quando uma brincadeira de pega-pega pode se tornar decisiva para o seu futuro? Até onde vai a influência dos seus medos infantis, dos monstros debaixo da cama, do refúgio de alta-segurança dentro do guarda-roupas?
Quantas das histórias que escutávamos antes de dormir permanecem hoje, com suas lições, princesas e vilões, em alguns dos nossos atos?
Seria nosso defeito de fabricação esquecer o que aprendemos na infância? Que o óbvio não é óbvio, que tudo pode ser novo quando viramos de cabeça pra baixo.
Ou, pior, seria o maior de nossos defeitos acreditar que temos mais sabedoria hoje que estudamos, classificamos, embalamos e rotulamos do que quando tudo era novidade? Quando tudo era bem vindo, com um quê de surpresa, uma aura de delicioso mistério e grandes previsões de diversão?
Parte de mim, universitária, estudiosa, consciente das precariedades do mundo, estremece de prazer ao imaginar o futuro brilhante, as viagens, os conhecimentos vindouros.
A outra parte –e, devo confessar, a maior delas- quer uma passagem de volta para infância, no vôo da primeira água que passar sendo pilotada por esquilos. Com escalas nas cidades-fantasmas e estúdios de grandes e anônimas celebridades do rock.

No mais, continuamos a girar, embora o caleidoscópio nunca mais volte a ter aquela mesma imagem.


*Não reparem na incoerência do texto. A mão infantil que deveria me guiar, hoje estava emburrada.*

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