sexta-feira, 26 de março de 2010

PAIN (Dor)




Veridiana estava sentada no fundo da sala de aula, um pouco isolada do resto da turma. Seus olhos estavam marejados e suas narinas abriam e fechavam... Ela ficava cada vez mais vermelha com o esforço para não chorar, mas a cascata de lágrimas iria jorrar de um jeito ou de outro.
Já era a terceira vez no mês que Veridiana saía da sala debulhando-se em lágrimas, com as amigas matraqueando irritantemente à sua volta querendo falar de algo que ela não queria.
Veridiana sabia que se descobrissem o motivo elas iriam brigar com ela e isso era a última coisa de que ela precisava no momento.
Naquele dia ela havia passado novamente pela Loja de Calçados e o vira. Quando percebeu o seu olhar, ele assumiu aquele ar de falsa indiferença que sempre a magoava tanto. Ele sabia de tudo, então por que não a deixava em paz? Se sabia que ela o amava tanto e que sofria por ele, por que alimentar esse sentimento? Ou atira-la ao abismo mais profundo de dor e agonia passando com outra mulher na sua frente? Como ele podia ser tão cínico, tão cruel?
Veridiana sofria desesperadamente. Não queria sair, não queria conversar ou comer. Vivia mergulhada em pensamentos sombrios, tão obscuros que fariam o mais perverso seguidor das trevas correr para o colo da mamãe.
Mas o tempo foi passando e ela foi ficando cansada de chorar. Além de criar rugas e dar dores de cabeça, era tão inútil!
Enfim ela percebeu que a mágoa transformara-se em revolta, e todo aquele amor foi convertido em um ódio cego e frio.
Veridiana, então, resolveu que iria executar o plano que, por brincadeira, criara com sua amiga há algum tempo atrás.
Ela iria retirar, com toda delicadeza e educação, Carlos Eduardo da sua vida. De uma vez por todas... Para sempre!
Essa semana se passou sem que Veridiana derramasse mais uma lágrima sequer. Passara a viver em função do seu plano de vingança e não fazia mais nada a não ser programar tudo com afinco e exatidão, para que nada pudesse dar errado.
Chegou o fim do mês e com ele o fim do prazo que dera a si mesma para cumprir com o plano (agora pronto para ser executado e sem nenhuma possibilidade de falha). Ela estava tensa, ansiosa, afinal iria fazê-lo pagar pelo tanto que a fizera sofrer... Mas a verdade é que ela sentia, também, uma ponta de remorso.
Veridiana olhou para as coisas guardadas numa gaveta do seu guarda-roupa: o canudo (foi uma confusão cômica para conseguir algo que já tocara os lábios dele!), a foto (tirada em uma festa na sua casa! Ele estivera lindo àquela noite), frases soltas e textos em inglês que ela escrevia pensando nele, os bilhetes cafajestes que Carlos Eduardo lhe escrevera apenas para iludi-la. No seu celular, várias mensagens dele na caixa de entrada (como alguém pode ser tão monstruoso assim? Ele tinha que pagar!).
O remorso sumiu magicamente. Ela apagou todas as mensagens do celular, pegou todas as recordações da gaveta e tudo mais que lhe lembrava Carlos Eduardo, pôs numa caixa, no quintal, regou com álcool e atirou o fósforo aceso.
Ficou hipnotizada, olhando todo o seu passado queimar. O interessante era que o seu fogo interior era muito mais forte, muito mais violento e mortal que aquele que queimava suas lembranças. Veridiana continuou ali até que a última cinza fosse carregada pelo vento.

A noite estava escura e limpa, sem lua, nuvens ou estrelas no céu. O ar estava pesado e as ruas desertas e silenciosas.
Já era tarde, mas Carlos Eduardo ainda estava na Loja de Calçados, fechando o caixa. Detestava ficar sozinho fazendo hora extra, mas não tinha lá muitas opções.
Por um instante, ao desviar o olhar, pensou ter visto algo passando para o depósito, mas olhando atentamente não conseguiu ver mais nada. Voltou a concentrar-se no seu trabalho e, segundos depois, estava inconsciente e sendo arrastado para dentro do depósito por um pequeno vulto negro.
No exato momento em que Carlos Eduardo voltou à consciência sentiu uma dor aguda e sentiu que sua mandíbula estava quebrada. Tentou mover-se, mas percebeu que estava fortemente amarrado a uma cadeira, com a cabeça erguida imobilizada por um lenço amarrado à sua testa e atado às cordas que lhe prendiam os braços para trás.
Tentou fechar a boca novamente, mas a dor estava tão insuportável que por um momento pensou que tornaria a perder a consciência.
Seu algoz estava todo de preto, mascarado e com luvas. Trazia uma corrente prateada pendurada no pescoço. O pingente de caveira lhe pareceu familiar, mas ele estava sofrendo demais para lembrar-se de onde o conhecia.
Os olhos de Carlos Eduardo fizeram a pergunta que a boca não podia fazer (o que está acontecendo?), mas não houve resposta.
Carlos Eduardo mirava o teto desesperado, enquanto aquela figura sinistra retirava um grande lençol de dentro de um saco e pegava um alicate em sua caixa de ferramentas.
Cobriu o corpo do infeliz e começou a trabalhar tranquilamente.
Ajustou o alicate no último dente de Carlos Eduardo e começou a puxar bem de leve, como se estivesse apenas testando, mas parou logo em seguida. Como pudera se esquecer disso? Foi até a caixa de ferramentas pegou uma longa e afiada tesoura de costura. Sem muita cerimônia cortou a língua de seu prisioneiro, que não teve nem tempo de gritar, coitado.
Em seguida tornou a ajustar o alicate, mas agora decidira começar pelos dentes da frente. Um a um, com muita paciência e cuidado, todos os dentes de Carlos Eduardo foram arrancados... Sem anestesia.
Como eram dentes permanentes o trabalho demorou um pouco para ser concluído, entre muitos puxões fortes do maníaco, gemidos desesperados e desmaios ocasionais da vítima. Dois ou três dentes não foram arrancados com sucesso, metade das raízes continuou lá dentro, então o psicopata teve que “cavar” e raspar um pouco para que saíssem. Carlos Eduardo tinha as raízes dos dentes enormes.
Ele chorava copiosamente, soltava gemidos guturais, sem poder falar ou gritar, desmaiava a todo instante, mas o carrasco sempre o fazia reanimar para poder continuar a tortura.
Carlos Eduardo estava inconsciente quando o lençol, agora ensangüentado, foi retirado do seu corpo. O maníaco pegou uma faca afiada (tramontina!) e, segurando firme, escreveu na testa de Carlos Eduardo: PAIN, em letras graúdas e com o corte profundo. Em seguida reanimou o rapaz. O próximo passo deveria ter a atenção que merecia.
Ele pegou um barbeador (Prestobarba: com molas que se ajustam ao seu barbear!) e passou com força, arrancando grandes tiras de carne ensangüentada, na gengiva de Carlos Eduardo, que sentiu uma dor excruciante e desmaiou na metade do percurso. Ele já estava mais morto que vivo, mas seu algoz não desistia, e o reanimou mais uma vez.
Passou sal-grosso e sanativo na massa sangrenta que se tornara a gengiva do pobre rapaz, fazendo-o contorcer-se (na medida do possível) de dor e agonia.
Foi então que despejou álcool na boca escancarada e sanguinolenta de Carlos Eduardo e pegou um fósforo. Antes de acendê-lo, porém, retirou a máscara e mirou os olhos surpresos, já quase sem vida, da pessoa que um dia amara tanto. E disse com a voz dura, impregnada de crueldade e dor:
––Não me culpe, foi você quem me matou primeiro.
Riscou o fósforo e jogou-o na boca dele. Ficou observando o fogo consumi-lo, de dentro pra fora, como aconteceu com ela por tanto tempo. O brilho de ódio desapareceu dos seus olhos enquanto via Carlos Eduardo queimar, desesperado e impotente. Pôs a máscara e saiu. Cedo ou tarde alguém notaria que a Loja de Calçados estava pegando fogo.
Ao chegar em casa, Veridiana tomou um banho relaxante e, de agora em diante sempre sorrindo, foi ouvir o bom e velho som do Nirvana.
Dentro do armário da cozinha, ao lado de muitas outras, repousava inocentemente uma certa caixinha de fósforos.

Um comentário:

  1. CARA, claro que lembro diiiisso! *-*
    que lindo! em minha homenagem. TE AMO

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