sábado, 27 de março de 2010

Ora, quem inventou a saudade...


...Tenha a decência de reinventar!



Vamos! Isso não é pedir muito.
Desinventar é que seria demais, afinal ela tem lá suas qualidades.
Mas, seu moço, dê um jeitinho pra ela se aproximar suavemente. Que chegue mais quieta, talvez na calada da noite, um pouquinho antes do sono que é pro sofrimento ser mais breve.
Remodele suas formas, meu amigo inventador. Confira-lhe um novo toque, mais brando. Sem garras, de preferência.
Talvez a maciez aveludada das rosas?
Algo que não nos faça estremecer, que ao contato, por menor que seja, cause mais conforto que dor.
Que ela não mais rasgue o peito e nem torture o coração! Isso é crueldade, meu caro.
Os ativistas vão atrás do senhor!
E também que ela tenha melhores ouvidos, para atender aos nossos apelos, aos “ais” dos apaixonados, aos sussurros angustiados.
Torne essa dona mais mansa, seu moço , que ela é arredia como a peste!
Não há como dominar a fera, que invade os pensamentos como ciclone ou furacão, deixa tudo fora do lugar e trata de dilacerar a alma em vários tons de roxo, com requintada maldade, ao relembrar que há no aqui a distância.
E há no presente a ausência.
E ainda lembra do amor a partida!
Ora, seu moço, vamos lá!
Quando já está quase seca a ferida, Saudade relembra o momento. Aquela noite especial, já ida. Os afagos, murmúrios, olhares na despedida.
Isso lá é coisa que se faça, meu amigo?
E, como se não bastasse dar-lhe esse poder de recordação, de tocar no peito e abrir feridas, o senhor ainda inventa de dar-lhe “boas companhias”!
Não, não. Não bastasse a dor que causa sozinha, ainda trás suas melhores amigas!
O trio da “felicidade” que de uma só vez nos arrasa: Inquietação, Angústia e Saudade.
Quanta indecência, senhor! Onde já se viu fazer um coração sofrer assim!
Não é possível, meu amigo, que jamais tenha amado alguém!
Que ao sentir um perfume, ouvir uma música, passear por um lugar conhecido, não se tenha lembrado um amor querido!
É dessa lembrança gostosa, de uma nostalgia tão boa, de que falo ao senhor. Em nome dos apaixonados, dos que tem o peito rasgado, que lhes sangra o coração, é que venho pedir, muito encarecidamente: ponha a mão na consciência, meu amigo, e trate de mudar essa Saudade, que está por demais doída!
E é uma dor que dói tanto que até a própria Saudade veio dela se queixar!
Ora, senhor, tenha a decência de reinventar!
Pelo bem daqueles que amam, que gostam de relembrar.
Pelo seu próprio bem, meu amigo, que das misérias da Saudade um dia há de gozar.

2 comentários:

  1. ótimo texto!
    me identifiquei bastante...
    essa dona saudade!

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  2. Obrigada, Amanda! Fico tão feliz de saber que voc~e lê isso aqui!

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