sábado, 20 de fevereiro de 2010

Garras Frias




Há pequenos efeitos do tempo enquanto faz o mundo girar. Alguns são maravilhosos, com o sabor da novidade, o toque do desconhecido, a leve ânsia que desperta pela vida. Outros, porém, são terrificantes. Rostos se tornam embaçados, cores ficam opacas, palavras se perdem no ar, como partículas de poeira longe da luz solar. Os risos soam abafados, um retinir longínquo da alegria instantânea que se pensou ser eterna; Os momentos que são difíceis de lembrar, como estrelas distantes, há tempos já mortas, que chegam a nós com um brilho pálido e mortiço. E também as histórias! Histórias engraçadas ou tristes, de momentos fortes ou difíceis, que, uma a uma, ajudaram a construir atitudes, vidas, pessoas. Sob os efeitos do tempo, elas trocam suas vírgulas e exclamações emotivas por lânguidas reticências. Nos pensamentos confusos, as garras frias do tempo dilaceram as carnes da memória, que ainda insiste em lutar. Uma luta muda, doída, pela sobrevivência nostálgica, para manter viva a lembrança de bons momentos há muito tempo idos. Ela quer a qualquer custo manter-se muito próxima. Não lhe basta fazer parte da história, não lhe bastam os flashes ocasionais. Ela quer ser mais, ela quer estar presente, com toda a sua carga de passado, com todas as suas dores, todas as sensações. A memória também tem garras frias. Enormes garras que, cinzentas e foscas, aferram-se à sua mente e obstruem sua visão. E são fortes. Tão fortes que às vezes conseguem agarrar-se firmemente nos pensamentos, não dando a oportunidade para o surgimento de novas experiências e perspectivas. O pensamento se mantém retrógrado, bem seguro pelas garras da memória. Ocasionalmente, porém, algumas pessoas conseguem se libertar. É quando o tempo vence, subjugando as mentes tacanhas de lembranças persistentes. É quando, enfim, tira-se dos olhos a venda da nostalgia e se pode enxergar a verdade: O passado só tem valor para quem nunca deixou o presente chegar.

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