sábado, 27 de fevereiro de 2010

Copo de Vinho




Deitada na rede, ela sentia sua cabeça pesar mais do que uma baleia jubarte grávida.
“Nunca mais...” Ela pensou “... NUNCA mais! Eu tomo vinho na minha vida!... Nem caipirinha... E tequila!... Ai, Deus! Não, não! Nada de tequila! Nunca mais vou beber de novo!” Choramingou em pensamento.
Fechou os olhos, tentando não pensar na péssima impressão que a sua bebedeira enlouquecida certamente havia causado no seu acompanhante, um jovem empresário muitíssimo bem sucedido, extremamente lindo e grande amigo do seu irmão, que há seis meses ela tentava impressionar.

Era de se esperar que ela soubesse que não se deve misturar tanto álcool em um só corpo, em uma só noite, especialmente quando se tenta fisgar um bom partido.
Ela se esforçou para recapitular os acontecimentos da noite anterior, mas sua mente ainda estava turva decido à ressaca.
Talvez fosse melhor não lembrar, no fim das contas.
O tilintar suave do mensageiro dos ventos anunciou a chegada de alguém.
Marcela sequer abriu os olhos. Ela tinha uma boa idéia de quem poderia ser e não estava com a menor vontade de encarar seus olhos amendoados.

––Paulo. – Ela grunhiu mais do que disse, a voz engrolada pelo sono.
––Você dormiu na rede ou é impressão minha?– Ele perguntou, a voz severa e limpa. Aparentemente ele estava tão sóbrio quanto um recém-nascido.
––Você pode, por favor, parar de gritar? –Ela resmungou, tentando mascarar sua vergonha com um mau-humor ácido.
––Eu devia gritar, mesmo, depois do papelão de ontem. Você perdeu o juízo, Marcela?
––Não, só encontrei umas garrafas de vinho no meio do caminho. – Retrucou com uma risadinha amarga. ––Qual é o problema, afinal?
––Preciso falar com você sobre ontem. –Ele disse em tom cavernoso.

“Ai, meu Deus! Que tipo de besteira eu fiz dessa vez?” Ela gemeu mentalmente, preparandp-se para os momentos de desespero.

––O que é? – Ela abriu os olhos e o encarou, a vista ainda embaçada, os cílios um pouco grudados pelo rímel já velho.
––Ontem você bebeu mais que um pirata.
––Eu sei.
––Subiu no balcão e simulou um strip-tease.

“Merda!”


––Só simulei!—Ela resmungou. “Não que eu me lembre muito bem”
Ele continuou o sermão, ignorando os apartes.

––Você brigou com uma garçonete, perdeu um sapato, quebrou duas garrafas de Whisky caríssimo...

––Eu sei, eu sei, seu sei!– Ela gritou e sua cabeça latejou três vezes mais. ––Vou pagar!
––Eu já paguei. –Paulo respondeu lacônico e prosseguiu com a narrativa. ––Você estava tão bêbada que metade dos homens naquela festa tentou passar a mão em você...
––Não!
––... E teriam conseguido se eu não estivesse lá com você.

Marcela baixou a cabeça, o rosto começando a arder de vergonha.

––Além disso, você usou o banheiro masculino, vomitou na sua própria bolsa e jogou-a no lixo com tudo que estava dentro dela.
––Minha Louis Vuitton! –Ela choramingou. ––Eu não fiz isso!
––Fez.
––Ah, meu Deus! –Marcela enterrou o rosto entre as mãos, tentando não escutar o que Paulo continuava a lhe contar.
––Ontem à noite você fez todo o tipo de loucura que eu poderia imaginar. Com exceção de assassinato e assalto a mão armada, você realmente fez de tudo, Marcela. Passou de todos os limites! –Ele ergueu o rosto dela, encarando seus olhos negros cheios de lágrimas. ––Nunca em minha vida eu presenciei tamanha demonstração de inconseqüência e irresponsabilidade. E de você, Marcela! Logo de você, que me parecia ser a pessoa mais reta e ajuizada do mundo!

Com essa afirmação Marcela teve que segurar a nova onda de náusea que se espalhou pelo seu corpo. Um risinho histérico quase escapou dos seus lábios enquanto pensava nos esforços para conquistar Paulo.
Depois de seis meses de sofisticação, entretenimento maduro e conversas inteligentes, ela destruía tudo agindo como uma adolescente tresloucada e alcoólatra.
Sentindo-se humilhada, riu amargamente da própria desgraça.

––Bom, pelo menos eu não transei com ninguém.
Paulo continuou sério, apenas encarando-a com seus olhos amendoados e quentes.
––Transei? –Ela gemeu, sentindo a vergonha cada vez mais ardente. “Ah, por favor, por favor, que eu morra queimada antes de receber a resposta! Por favor!”

––Transou. –Ele respondeu sem entonação, totalmente alheio às preces de Marcela.
––Com quem? – Ela fechou os olhos, aguardando o impacto e ainda esperando a morte fulminante chegar. Seria mais fácil, ela pensou.
––Comigo.
––O QUÊ? –Marcela arregalou os olhos, espantada, e aquilo doeu devido à ressaca. Impossível! Simplesmente impossível! Inacreditável.
––Sim. –Ele reafirmou, fazendo uma pausa breve antes de continuar muito solenemente. ––Sabe, Marcela, você fica bem mais interessante quando é espontânea. Eu gostava da sua companhia antes, é claro, mas à vezes era tão maçante! Você não tem idéia de como é cansativo ser cordial e interessante o tempo todo, demonstrar inteligência e poder a cada gesto. Aquilo era um saco!
––Você... Eu... O QUÊ?– Ela gaguejou confusa.
––Não me leve à mal, mas eu sei o quanto você queria ficar comigo nos últimos meses. Eu sempre soube. E, bem, apesar de linda, Marcela, não me atraía em nada a idéia de ficar com um “cérebro gigante”.
––Como é que é? – Agora ela estava indignada.
––Mas ontem, nossa! –Ele continuou sem se interromper. ––Ontem você foi fantástica! Totalmente... Insana, ousada, atrevida... Humana! Eu nunca me diverti tanto... E me apaixonei por você.
––Você o quê?–Ela não parecia capaz de articular frases muito longas no momento.
––Então, entenda, quando eu pedi você em casamento antes de trazê-la para casa eu não estava brincando. –Ele falou isso com um sorriso travesso curvando levemente um dos cantos da sua boca. ––E acho que você também não brincava quando aceitou.
––Eu aceitei?
––Aceitou. E espero que sóbria você não me rejeite.

Marcela ainda estava em choque, boquiaberta e confusa, mas pouco a pouco sua altivez natural, que ela tentara esconder por seis meses, venceu definitivamente.

––E se eu rejeitar? –Perguntou, os olhos estreitando-se maliciosamente.
––Bom,– Ele aproximou-se um pouco mais e tocando o rosto dela com carinho, respondeu sorrindo. ––Embebedar você minutos antes da cerimônia sempre é uma opção!

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