sábado, 27 de fevereiro de 2010

Copo de Vinho




Deitada na rede, ela sentia sua cabeça pesar mais do que uma baleia jubarte grávida.
“Nunca mais...” Ela pensou “... NUNCA mais! Eu tomo vinho na minha vida!... Nem caipirinha... E tequila!... Ai, Deus! Não, não! Nada de tequila! Nunca mais vou beber de novo!” Choramingou em pensamento.
Fechou os olhos, tentando não pensar na péssima impressão que a sua bebedeira enlouquecida certamente havia causado no seu acompanhante, um jovem empresário muitíssimo bem sucedido, extremamente lindo e grande amigo do seu irmão, que há seis meses ela tentava impressionar.

Era de se esperar que ela soubesse que não se deve misturar tanto álcool em um só corpo, em uma só noite, especialmente quando se tenta fisgar um bom partido.
Ela se esforçou para recapitular os acontecimentos da noite anterior, mas sua mente ainda estava turva decido à ressaca.
Talvez fosse melhor não lembrar, no fim das contas.
O tilintar suave do mensageiro dos ventos anunciou a chegada de alguém.
Marcela sequer abriu os olhos. Ela tinha uma boa idéia de quem poderia ser e não estava com a menor vontade de encarar seus olhos amendoados.

––Paulo. – Ela grunhiu mais do que disse, a voz engrolada pelo sono.
––Você dormiu na rede ou é impressão minha?– Ele perguntou, a voz severa e limpa. Aparentemente ele estava tão sóbrio quanto um recém-nascido.
––Você pode, por favor, parar de gritar? –Ela resmungou, tentando mascarar sua vergonha com um mau-humor ácido.
––Eu devia gritar, mesmo, depois do papelão de ontem. Você perdeu o juízo, Marcela?
––Não, só encontrei umas garrafas de vinho no meio do caminho. – Retrucou com uma risadinha amarga. ––Qual é o problema, afinal?
––Preciso falar com você sobre ontem. –Ele disse em tom cavernoso.

“Ai, meu Deus! Que tipo de besteira eu fiz dessa vez?” Ela gemeu mentalmente, preparandp-se para os momentos de desespero.

––O que é? – Ela abriu os olhos e o encarou, a vista ainda embaçada, os cílios um pouco grudados pelo rímel já velho.
––Ontem você bebeu mais que um pirata.
––Eu sei.
––Subiu no balcão e simulou um strip-tease.

“Merda!”


––Só simulei!—Ela resmungou. “Não que eu me lembre muito bem”
Ele continuou o sermão, ignorando os apartes.

––Você brigou com uma garçonete, perdeu um sapato, quebrou duas garrafas de Whisky caríssimo...

––Eu sei, eu sei, seu sei!– Ela gritou e sua cabeça latejou três vezes mais. ––Vou pagar!
––Eu já paguei. –Paulo respondeu lacônico e prosseguiu com a narrativa. ––Você estava tão bêbada que metade dos homens naquela festa tentou passar a mão em você...
––Não!
––... E teriam conseguido se eu não estivesse lá com você.

Marcela baixou a cabeça, o rosto começando a arder de vergonha.

––Além disso, você usou o banheiro masculino, vomitou na sua própria bolsa e jogou-a no lixo com tudo que estava dentro dela.
––Minha Louis Vuitton! –Ela choramingou. ––Eu não fiz isso!
––Fez.
––Ah, meu Deus! –Marcela enterrou o rosto entre as mãos, tentando não escutar o que Paulo continuava a lhe contar.
––Ontem à noite você fez todo o tipo de loucura que eu poderia imaginar. Com exceção de assassinato e assalto a mão armada, você realmente fez de tudo, Marcela. Passou de todos os limites! –Ele ergueu o rosto dela, encarando seus olhos negros cheios de lágrimas. ––Nunca em minha vida eu presenciei tamanha demonstração de inconseqüência e irresponsabilidade. E de você, Marcela! Logo de você, que me parecia ser a pessoa mais reta e ajuizada do mundo!

Com essa afirmação Marcela teve que segurar a nova onda de náusea que se espalhou pelo seu corpo. Um risinho histérico quase escapou dos seus lábios enquanto pensava nos esforços para conquistar Paulo.
Depois de seis meses de sofisticação, entretenimento maduro e conversas inteligentes, ela destruía tudo agindo como uma adolescente tresloucada e alcoólatra.
Sentindo-se humilhada, riu amargamente da própria desgraça.

––Bom, pelo menos eu não transei com ninguém.
Paulo continuou sério, apenas encarando-a com seus olhos amendoados e quentes.
––Transei? –Ela gemeu, sentindo a vergonha cada vez mais ardente. “Ah, por favor, por favor, que eu morra queimada antes de receber a resposta! Por favor!”

––Transou. –Ele respondeu sem entonação, totalmente alheio às preces de Marcela.
––Com quem? – Ela fechou os olhos, aguardando o impacto e ainda esperando a morte fulminante chegar. Seria mais fácil, ela pensou.
––Comigo.
––O QUÊ? –Marcela arregalou os olhos, espantada, e aquilo doeu devido à ressaca. Impossível! Simplesmente impossível! Inacreditável.
––Sim. –Ele reafirmou, fazendo uma pausa breve antes de continuar muito solenemente. ––Sabe, Marcela, você fica bem mais interessante quando é espontânea. Eu gostava da sua companhia antes, é claro, mas à vezes era tão maçante! Você não tem idéia de como é cansativo ser cordial e interessante o tempo todo, demonstrar inteligência e poder a cada gesto. Aquilo era um saco!
––Você... Eu... O QUÊ?– Ela gaguejou confusa.
––Não me leve à mal, mas eu sei o quanto você queria ficar comigo nos últimos meses. Eu sempre soube. E, bem, apesar de linda, Marcela, não me atraía em nada a idéia de ficar com um “cérebro gigante”.
––Como é que é? – Agora ela estava indignada.
––Mas ontem, nossa! –Ele continuou sem se interromper. ––Ontem você foi fantástica! Totalmente... Insana, ousada, atrevida... Humana! Eu nunca me diverti tanto... E me apaixonei por você.
––Você o quê?–Ela não parecia capaz de articular frases muito longas no momento.
––Então, entenda, quando eu pedi você em casamento antes de trazê-la para casa eu não estava brincando. –Ele falou isso com um sorriso travesso curvando levemente um dos cantos da sua boca. ––E acho que você também não brincava quando aceitou.
––Eu aceitei?
––Aceitou. E espero que sóbria você não me rejeite.

Marcela ainda estava em choque, boquiaberta e confusa, mas pouco a pouco sua altivez natural, que ela tentara esconder por seis meses, venceu definitivamente.

––E se eu rejeitar? –Perguntou, os olhos estreitando-se maliciosamente.
––Bom,– Ele aproximou-se um pouco mais e tocando o rosto dela com carinho, respondeu sorrindo. ––Embebedar você minutos antes da cerimônia sempre é uma opção!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Incomum

O amor não é algo tão normal!

Há uma alegria sem juízo
Que toma conta de mim

Cada vez que penso em você,

Num fluxo sem início ou fim.


Há uma tristeza pulsante

Que dilacera de amor o meu peito

Sempre que me invade a lembrança

Dos nossos momentos perfeitos.


É no mínimo estranho,

E também desconcertante,

Saber que o nosso amor

É uma aventura inconstante.


É tudo tão tresloucado

No nosso amor incomum

Que até mesmo nossos corações

Batem como se fossem um.


E tua dor é minha dor

E em meu peito bate tua saudade

E em nossos olhos, como num espelho,

Brilha a mútua felicidade.


Até mesmo estes versos

Parecem um tanto incoerentes

Falando de alegria e dor

Sentimentos tão diferentes.


Se, contudo, assim não fosse

Essa inconstância incomum,

Tudo faria sentido

E não haveria amor algum.


Pois ainda que complicado,

Doloroso na saudade,

Somente aquilo que não se entende

É amado de verdade.

Sem ponteiros




Que tal fazer de conta
Que naquela brincadeira não renasceu uma esperança
Que aquele suspiro não foi saudade
E que os nossos olhares deixaram de se encontrar?

E se a gente fingisse
Que tudo que sonhamos juntos não foi realidade.
Que a indiferença era sincera.
Que aquela onda que beijou a praia trouxe de novo a nossa paz?

Será que assim poderíamos seguir longe um do outro?

E se a gente mentisse
Que no inverno desse ano não sentiremos frio
Que o telefone quando toca
Só lembra as faturas a pagar

E a cadeira vazia do outro lado
É apenas parte do conjunto da mesa.
Ou que as horas que se arrastam em descompasso
São apenas horas que não seguem a mesma direção.

Como se fosse normal um relógio sem ponteiros dizer que é três e meia...

Que tal se a gente aceitasse
Que nem todos os prazeres mundanos
Podem saciar os nossos desejos
Porque tudo que precisamos

É ter um pouco de nós um no outro?

E nem toda voracidade de outros sentimentos,
Outros rostos, outras fantasias,
Pode ser melhor ou mais intenso
Que a nossa troca serena de olhares

Será que nós não estamos errados,
Procurando a felicidade em compassos diferentes
Quando fomos destinados a andar no mesmo ritmo?

Quem sabe se juntássemos nossos ponteiros
Esse relógio voltasse a funcionar
As flores deixassem de secar antes do tempo.
E, talvez, nós lembrássemos o que é sorrir!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A escravidão literária.


Confesso,
estou um tanto acanhada. Faz muito tempo desde a última vez que tive a coragem de encarar uma folha em branco e libertar idéias aprisionadas. Perdi inúmeras oportunidades de organizá-las, prepará-las para seu debút e enfim entregá-las ao mundo.

Acho que perdi muito tempo. Perdi a mão, perdi o jeito, perdi o dom!
Os pontos e vírgulas, os parágrafos, as marcações que antes eu usava e abusava, com total intimidade, agora viram as costas para mim como se eu fosse a escória da classe literária. Peço licenças polidas para utilizá-los e eles, não tendo saída possível, educadamente me prestam seus serviços. Sem, contudo, fazer esforço para facilitar minha tarefa.
Tarefa esta, aliás, que antes era plena de júbilo e prazer, e agora me obriga a torcer o coração, na angústia da falta de inspiração.

Enfim, minha carreira no mundo das letras, na transcrição das idéias, foi interrompida de maneira estúpida e brutal unicamente porque meu ego frágil não suportou as críticas eloqüentes do seu mais cruel juiz: eu mesma.
Admito, fui fraca e infantil, mas, francamente, eu era uma criança. E uma criança não muito positivista com seu próprio trabalho.
É difícil crescer escrevendo, ouvir elogios diversos a cada parágrafo escrito e jamais saber se são ou não verdadeiros. Ora, convenhamos, poucas pessoas têm coragem suficiente para desiludir uma criança.

E então eu desisti de pedir opiniões, visto que não acreditava sinceramente na veracidade delas. E quando as dúvidas sobre a evolução do meu trabalho começaram a tomar conta de mim, resolvi pôr um ponto final (que estava muito relutante em aceitar esse encargo na ocasião) e dominar minha torrente de idéias juvenis. Parei de escrever.
Ria. Ou deboche, tanto faz.
Pode me desprezar, sei que insegurança é o motivo mais tolo do mundo para se deixar de fazer o que gosta, mas não pude me conter.
Acontece, porém, que minhas idéias recentemente começaram a se rebelar. Estão em completa algazarra, total confusão e agora forçam as barreiras do meu bloqueio, obrigando-me a escrever. Não de uma maneira ortodoxa, não seguindo os padrões da norma culta, tão enfatizados na escola, mas de uma maneira completamente livre e desordenada. Bem, acho que não faço muito o gênero clássico, mesmo.

Há um motim!
Fui aprisionada. De repente descobri que as idéias não são minhas.
Eu é que sou delas.
Um mero instrumento de transcrição. Ao mesmo tempo datilógrafa, advogada e babá.
Eu nada posso contra elas, contra esse impulso que me domina. Elas vêm aos borbotões, pouco se incomodando com meu desconforto ante os pontos, vírgulas e opiniões alheias.
Com isso elas me mostram quem é que manda. Sou escrava das minhas idéias, que se renovam à medida que vou evoluindo e se amotinam contra mim para manter seu poder.
Curiosamente sinto-me livre.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Não foi à primeira vista

Ao melhor amigo, grande professor de história, comediante nas horas vagas, para o qual eu escrevi sem sequer saber que era minha inspiração.

Eu não te quis da primeira vez que te vi.
Assim como os primeiros pingos de chuva
Nunca molham pra valer,
Ou os raios do sol quando acorda
Que quase não iluminam no nascer do dia

Não, porque todo o teu encanto,
Todos os detalhes da tua perfeição
Não poderiam ser descobertos tão rapidamente
Num simples olhar simpático

Porque os teus mil trejeitos
Não podem ser mostrados em um único gesto.
Porque a verdadeira beleza da tua alma
Não transparece no teu sorriso educado.

Não foi amor à primeira vista.
Foi um querer que veio de mansinho
Se instalando dentro de mim
Quando você não estava ao meu lado.

Depois uma saudade inexplicável
Instalava-se na sua ausência,
E cócegas estranhas tomavam meu corpo
Quando estávamos muito próximos.

Eu comecei a me assustar de verdade
Quando os seus sorrisos começaram a me transformar
De sólido diretamente para líquido.
E todos os minutos do dia pareciam evaporar
Todas as vezes que eu pensava em você.

Não, não foi amor à primeira vista,
Nem à segunda ou terceira ou quarta.
Não foi um arrebatamento louco,
Um querer insano, uma dependência exagerada.
Não, creio que assim é descrita a paixão.

E agora que eu já nem posso mais enumerar
A quantidade de vezes que nos vimos,
Só agora eu posso dizer
Que cada olhar é intenso como novo
Para um velho, conhecido e verdadeiro amor.

Garras Frias




Há pequenos efeitos do tempo enquanto faz o mundo girar. Alguns são maravilhosos, com o sabor da novidade, o toque do desconhecido, a leve ânsia que desperta pela vida. Outros, porém, são terrificantes. Rostos se tornam embaçados, cores ficam opacas, palavras se perdem no ar, como partículas de poeira longe da luz solar. Os risos soam abafados, um retinir longínquo da alegria instantânea que se pensou ser eterna; Os momentos que são difíceis de lembrar, como estrelas distantes, há tempos já mortas, que chegam a nós com um brilho pálido e mortiço. E também as histórias! Histórias engraçadas ou tristes, de momentos fortes ou difíceis, que, uma a uma, ajudaram a construir atitudes, vidas, pessoas. Sob os efeitos do tempo, elas trocam suas vírgulas e exclamações emotivas por lânguidas reticências. Nos pensamentos confusos, as garras frias do tempo dilaceram as carnes da memória, que ainda insiste em lutar. Uma luta muda, doída, pela sobrevivência nostálgica, para manter viva a lembrança de bons momentos há muito tempo idos. Ela quer a qualquer custo manter-se muito próxima. Não lhe basta fazer parte da história, não lhe bastam os flashes ocasionais. Ela quer ser mais, ela quer estar presente, com toda a sua carga de passado, com todas as suas dores, todas as sensações. A memória também tem garras frias. Enormes garras que, cinzentas e foscas, aferram-se à sua mente e obstruem sua visão. E são fortes. Tão fortes que às vezes conseguem agarrar-se firmemente nos pensamentos, não dando a oportunidade para o surgimento de novas experiências e perspectivas. O pensamento se mantém retrógrado, bem seguro pelas garras da memória. Ocasionalmente, porém, algumas pessoas conseguem se libertar. É quando o tempo vence, subjugando as mentes tacanhas de lembranças persistentes. É quando, enfim, tira-se dos olhos a venda da nostalgia e se pode enxergar a verdade: O passado só tem valor para quem nunca deixou o presente chegar.

Hipóteses (?!?!?!?)




♥ Talvez percebamos que o amanhã nunca chega.
♥ Talvez, um dia, consigamos compreender que a vida é mais que uma simples rotina.
♥ Quem sabe possamos entender que por mais que tentemos nunca conseguiremos substituir um amigo.
♥ Talvez um dia saibamos que o amor se baseia em mais do que palavras, se baseia também em atitudes.
♥ É possível que um dia entendamos que o único problema de se fazer o bem é que às vezes você acaba se dando mal.
♥ Talvez um dia saibamos que o futuro é apenas um reflexo do presente...
♥ E então percebamos que viver só por viver é apenas existir.
♥ Talvez consigamos entender a plenitude e a beleza de amar.
♥ Talvez enfim saibamos que ter medo do medo é a coisa mais sensata a se fazer.
♥ Talvez a humanidade um dia consiga entender que sua vontade de progredir tecnologicamente só nos faz regredir como pessoas.
♥ Talvez um dia saibamos que um corpo nunca vive e uma alma nunca morre.
♥ Será possível que encaremos a realidade? O homem tem o privilégio de escolher o que quer, e mesmo assim quase sempre escolhe o pior para si e para toda a humanidade.
♥ Talvez um dia consigamos compreender que as diferenças existem e é preciso saber respeitá-las.
♥ Talvez as pessoas cheguem um dia a perceber que o homem transformou uma coisa plena e bela como a vida, em algo mesquinho e insuportável.
♥ Será que as pessoas se cansarão brigar por coisas inúteis e fúteis?
♥ Será perceberão que o que realmente importa é se sentir bem por saber que outras pessoas estão bem?
♥ Talvez a humanidade ainda tenha alguma chance, se começarmos a olhar para frente e ver o vazio e a miséria que o esgoísmo e o desamor de hoje nos reserva para amanhã.
♥ E assim, algum dia, alguém tenha a força e a coragem de tentar abrir os olhos da terra, e que todos tenham dignidade e humildade suficientes para enxergar a devastação que causaram no nosso planeta.
♥ Talvez percebamos que por mais que você ache que conhece a fundo uma pessoa, ela sempre conseguirá lhe surpreender, pois o mundo gira e as pessoas mudam junto com ele.
♥ E talvez (apenas talvez) um dia saibamos que, enfim, nunca soubemos de nada.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

De tudo o que virá... O que virá?




Eu me pergunto
Se o retinir do riso fresco da minha juventude
Um dia ficará para trás na estrada que leva ao futuro.

Eu imagino, com receio,
Quantos dias de sol irei desperdiçar
Na correria insensata pelo progresso industrial.
Ou se o tempo voará apressado,
Dissipando esse verão
De tardes ensolaradas e gosto de areia e água do mar.

Inquieta eu me pergunto
Se os desenhos de aquarela,
Da aurora da minha infância,
Perder-se-ão sob as camadas da tinta acre da maturidade;
E se o vestido quadriculado,
Daquele São João de quadrilha e passeios de carroça,
Terá suas cores impregnadas pelo cheiro amargo de naftalina barata.

Eu me pergunto, se os amigos de hoje
Estarão ao meu lado no decorrer dos anos,
Se eles irão antes de mim ou presenciarão o meu fim.
E se as nossas brincadeiras e segredos infantis
Serão, um dia, legados importantes para alguém.

Sim, eu me pergunto, com ansiedade incoerente
Se um dia terei todas as respostas para as perguntas
Que me atormentam agora.
Ou se os mistérios que hoje encontro,
Um dia se revelarão para mim.

Eu me pergunto ainda
Se as recordações que me restarem,
Quando a idade vier me falhar a memória,
Serão suficientes para conter a saudade.
Se elas alimentarão meus últimos dias
Com o sabor adocicado de uma infância feliz
Ou a acidez cáustica de uma vida de luta.

Mas imagino que seja cedo demais
Para questionar o que o futuro me reserva
Ou me preocupar com lembranças
De uma juventude que ainda não passou.
Talvez, por ora, baste apenas sonhar.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Eu quero você





Eu quero que o seu rosto
Seja minha primeira visão ao acordar.
Quero sentir sua vida pulsando em meu corpo
Sempre que eu olhar nos seus olhos.

Eu espero que as suas horas
Continuem a iluminar os meus dias
E que eu possa ouvir seu silêncio
Entre o barulho da cidade
E as batidas descompassadas do meu coração

Deixe que eu escreva a nossa história
Em algo mais firme que a vida
Me deixe atrasar o relógio
Para tornar a nossa eternidade mais longa.

Que você venha sempre pra mim
Como as ondas que nunca deixam de voltar
Para beijar a praia.

Eu quero sentir seu cheiro nos lençóis,
E ver seu sorriso nos corredores,
Refletindo as luzes daquele pôr-do-sol
Mesmo quando você não estiver perto de mim.

Eu quero encher os seus dias
Com o conforto dos meus abraços
Quero ter você ao meu lado
E ouvir a sua respiração tranqüila enquanto dorme

Que você esqueça seus medos,
Supere seu passado
E se entregue ao prazer de um novo amor

Que você venha sempre pra mim
E que eu possa te dar a paz que eu descobri
Quando te vi sorrir...

Você vai descobrir...




Alguns tópicos interessantes que descobri ao longo dos anos.


*Que amar, inevitavelmente, faz sofrer.
*Que tudo é muito mais complexo do que imaginamos, e
*Que só é complexo porque queremos, mesmo que o façamos sem-querer.
*Que amar exige mais paciência do que se imagina que um ser humano possa ter.
*Que é necessário esforço e prática para se adquirir paciência, e
*Que essa paciência pode se perder com três ou quatro frases injustas ou absurdas.
*Que perdoar quando se ama é tão inevitável que você poderia ser canonizado pelo tanto de perdões que já concedeu.
*Que amar é tão confuso e necessário que você acaba amando quem não devia.
*Que a falta que você sente de alguém pode não ser amor, mas sim sua necessidade de não ficar só, e
*Que nesses momentos de solidão, invariavelmente, escolhemos a pior pessoa para nos fazer companhia.
*Que traição nem sempre significa falta de amor, mas isso não importa porque ela dói do mesmo jeito.
*Que o coração sangra e chora, mesmo quando a face está serena, e
*Que isso exige tal esforço que acaba deixando marcas profundas.
*Que a dor que sentimos é mínima, até que ponham o dedo na ferida e ela sangre outra vez.
*Que à vezes acreditamos ser o mundo de alguém, justamente porque esse alguém é o nosso mundo, mas que a verdade sobre isso pode decepcionar.
*Que às vezes invadimos o mundo de alguém e mudamos seu espaço, mas que essa pessoa pode não aceitar mudanças.
*Que uma mudança nunca é certa e segura, por isso, se vamos mesmo mudar, temos que nos preparar para arcar com as conseqüências.
*Que amar é sinônimo de sair de si para morar no outro, mas que às vezes damos com a cara na porta.
*Que, como disse Renato Russo, “o pra sempre sempre acaba”, e isso acontece justamente quando acreditávamos que seria eterno.
*Que sonhar demais não vale a pena, porque sempre incluímos outras pessoas em nossos sonhos, e nem sempre elas estão dispostas a cooperar.
*Que não devemos acreditar demais em tudo que nos dizem, porque, inexplicavelmente, algumas pessoas sentem prazer em magoar os outros.
*Que a dor é passageira, mas a mágoa pode deixar marcas.
*Que assuntos mal-resolvidos voltam com mais intensidade e mais complicações que antes.
*Quem nem sempre aprendemos com a primeira queda.
*Que tem gente que continua caindo a vida inteira.
*Que, no fim, precisamos aprender a lidar com a dor, porque é justamente das pessoas que mais amamos que vêm as piores mágoas, e
*Que isso é normal e inevitável, porque nem sempre tudo é como a gente quer.
*Que devemos parar de sofrer com antecedência, porque, no fim, as coisas não são tão ruins quantos parecem.
*Que devemos encarar as decepções e as alegrias, porque, mesmo por caminhos diferentes, elas sempre nos ensinam algo.



Quadras de loucura enamorada



Se eu pudesse estender ao chão

As dores que trago no peito

Estas fariam uma estrada

De saudade e desassossego.


Pois são imensas as rodovias,

Milhas e milhas de extensão,

Que separam tão cruelmente

O meu corpo do meu coração.


Um caminha, intranqüilo,

À procura do que perdeu.
Enquanto o outro espera, aflito,
Que lhe devolvam a quem é seu.


Cortando de lado a lado
Esse País-Continente,
A saudade também me rasga,

Num jorro de amor vertente.


Busco, pois, reunir forças

Para enfrentar tal empreitada.

Estanco a angústia do meu peito

E sigo por essa estrada.


E sacolejando incessantemente,

No ritmo lento da procura.

Eu sufoco a desesperança

Que teima em gritar “Loucura!”


Loucura de fato é,

Essa busca desenfreada.

Mas não seria a loucura

Qualidade da alma enamorada?


É com um sorriso que digo,
Cheia de satisfação,

Que foi pela loucura do amor

Que reencontrei meu coração.

Indigência Poética




Minhas rimas são tão pobres
Que até a miséria tem compaixão
Desse peito angustiado
Onde se esconde um coração

É tão triste e desamparado
Esse meu coração pungente!
Ele geme, machucado,
Por uma saudade latente

Dessas rimas incompletas,
Imperfeitas ao olhar,
Que tanto o fazem sofrer
Quanto o fazem palpitar.

Não as comove o meu desespero,
Ficam surdas aos meus ais,
Não atendem aos meus apelos,
Levam consigo minha paz.

Se eu, contudo, não vivesse
Nessa indigência completa
Onde haveria espaço
Para uma alma de poeta?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Todo mundo tem.



O coração... Pulsante, quente, órgão vital no corpo de qualquer ser. Não é apenas um mero amontoado de carne que bombeia sangue para o resto do corpo.
Ele se divide entre amores, sofrimentos, esperanças e alegrias. Ignorando todas as leis físicas e científicas, ele é partido em mil pedaços várias vezes e se regenera, pronto para ir em busca de um novo sonho.
Ele transborda por diferentes motivos e de diversas emoções. Tem coração que tem chave, que é de gelo, pedra, ou totalflex (esticando sempre cabe mais um). Há aqueles cercados por muralhas, com cerca elétrica e cães de guarda, à prova de qualquer sofrimento; e também aqueles que são como uma cabana no meio da floresta, esperando apenas ser encontrada e acolhendo quem quer que apareça.
Existem corações guerreiros, que vestem suas armaduras, colocam seus elmos e carregam espadas acreditando que estão prontos para qualquer batalha e por vezes ferindo andarilhos errantes. Mal sabem que nunca se vence uma batalha contra o amor.

Por outro lado ainda há corações pacifistas no mundo! Caminhando descalços, hasteando bandeiras brancas e entoando hinos em honra ao amor. Seguem seu caminho com sorrisos sinceros, alma lavada, cara limpa e a coragem necessária para enfrentar os problemas que surgirem.
Existem corações que são como lojas em promoção: oferecem muitas coisas a preços módicos, mas que geralmente não valem coisa alguma.
Há corações que batem lentamente, quase com medo de fazer barulho ou causar confusão, com um medo enorme de viver, e outros que batem tresloucadamente, como uma bateria de escola de samba, sempre prontos para atravessar a Sapucaí em grande estilo.
Os corações por vezes podem ser impressionantes como um mar revolto: ondas potentes e furiosas que se quebram tão rápido quanto se formam, criando uma enorme confusão em si mesmos e assustando aos que passam.

Eles podem ser cruéis, mesmo sem querer ou perceber. Talvez por tudo que já passaram, talvez por que seja sua natureza, existe um tipo louco de coração. Ele segue desgovernado, chocando-se com suas próprias emoções, atropelando outros sentimentos, tais como a razão e o bom-senso, e de quebra devastando outros tantos corações. É um espírito aventureiro que não se prende a nada e a ninguém. Ama a tudo e a todos (especialmente a si mesmos) e está sempre com um desejo enorme de se provar, o que o torna insaciável e invariavelmente perigoso.
Há também aqueles que vendem saúde, passam apertando mãos e ajudando a erguer outros que estão caídos; e aqueles que seguem por seguir, remendados, lambuzados de merthiolate e enfaixados com esparadrapo, espalhando toda a sua tristeza ou se fechando em cofres de máxima segurança para não sofrer de novo.

Bem, machucado ou não, um coração é indispensável para uma vida plena! Não o órgão, de carne e sangue, mas aquele outro coração, o da alma, sem o qual a vida perde todo o sentido e todo o sabor. Não há quem não tenha um coração, ainda que esquecido, maltratado ou afogado no poço mais profundo...
Por isso cuide bem do seu, atualmente está difícil transplantar um coração.

Lá vou eu...

Um amigo certa vez me disse que devemos expor os dons que Deus nos deu.
Disse que devemos compartilhá-lo com o mundo.
Um dom não é para ser guardado, escondido, trancafiado por medo ou insegurança.
Dom de Deus é pra ser livre.
E eu percebi que o dom, de fato, não é meu. Ou, melhor dizendo, é meu sim, mas não é para mim.
Não é apenas para mim.
Apenas para o meu alívio, apenas para minha satisfação, apenas para meu bel-prazer.
Não, ele é para aquele a quem o coração tocar.
Indepente dos erros que por ventura tenha, da minha métrica falha, minhas rimas pobres, minha indigência literária.
De modo que aqui estou!
Lá vou eu, escancarar minha alma para o mundo.
Porque o que Deus nos dá só aumenta ao se compartilhar.

Assim, leitores (se acaso houver algum), sejam pacientes comigo. Tudo é muito novo para mim.
E obrigada ao meu amigo Cara Pálida. Sem seu belo e singelo empurrão eu não estaria fazendo esta loucura.

Vamos começar a girar!